14 outubro, 2013

Nascimento da Sociedade Internacional Hegel-Marx no Brasil

Mais de 1300 pessoas consagrando o nascimento da Sociedade Internacional  Hegel-Marx no Brasil

Quem estiver interessado em se inscrever na seção brasileira da Sociedade Internacional Hegel-Marx, entre em contato com o professor Adair Dalarosa: adairdalarosa@hotmail.com















Ao lado de Domenico Losurdo, à esquerda os professores Aldo De Bona (Reitor UNICENTRO), Joares Soares (Diretor Guaricá), Adair Angelo Dalarosa (Coordenador da Sociedade Internacional Hegel - Marx: Seção Brasile ), Matheus Brandão (Coordenador Pesquisa e Graduação Guairacá); à direita Irmã Laura Curcio (tradutora).













14 setembro, 2013

Domenico Losurdo chega ao Brasil! - Programação

 

 

 

 

Domenico Losurdo palestra em Chapecó com a UFFS


A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) realiza, no próximo dia 30 de setembro, uma palestra com o filósofo italiano Domenico Losurdo. O estudioso vem à UFFS para falar sobre seu último livro, intitulado “A luta de classes – Uma história política e filosófica”. A atividade faz parte das comemorações alusivas aos 4 anos da UFFS, comemorados em 15 de setembro.
De acordo com o Diretor de Políticas de Graduação da UFFS, Elsio Corá, que também é um dos organizadores do evento, a vinda de Losurdo é importante, pois o filósofo representa o pensamento ocidental e, pela sua formação marxista, se assemelha muito à UFFS na visão de que um outro mundo é possível.

Em Chapecó, a palestra de Losurdo será realizada no Auditório do Lang Palace Hotel, com início previsto para as 8h30. Losurdo comentará aspectos de seu último livro e abrirá para considerações do público. O encontro contará com tradução simultânea aos presentes através de receptores. O espaço é para 420 pessoas.


Regional do SINTE de Chapecó na palestra de Domenico Losurdo
A Regional do SINTE de Chapecó estará representada, através da Coordenadora Regional Zigue Timm, na palestra com o filósofo italiano Domenico Losurdo, que a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) realiza, nesta segunda-feira, 30 de setembro, em Chapecó. A atividade faz parte das comemorações alusivas aos 4 anos da Universidade Federal Fronteira Sul, comemorados em 15 de setembro. Além de Chapecó, Losurdo já ministrou palestra em Guarapuava (PR), e estará palestrando em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.
Em Chapecó, a palestra de Losurdo será realizada no auditório do Lang Palace Hotel, com início previsto para às 8h30. O encontro contará com tradução simultânea aos presentes, através de receptores. O espaço é para 420 pessoas, e, por isso, é necessária inscrição pelo e-mail: luiz.sordi@uffs.edu.br. “Se nossos colegas, trabalhadores da educação, puderem inscrever-se e participar, será de extrema importância, pois a palestra é realmente instigante”, destaca a Coordenadora Regional do SINTE de Chapecó.
O estudioso falará sobre seu mais recente livro, intitulado “A luta de classes – Uma história política e filosófica”. Conforme o diretor de Políticas de Graduação da UFFS, Elsio Corá, que também é um dos organizadores do evento, a vinda de Losurdo é importante, pois o filósofo representa o pensamento ocidental, e, por sua formação marxista, se assemelha muito à UFFS, na visão de que um outro mundo é possível.



Domenico Losurdo ministra
conferência na PUC-SP e na UNICAMP e lança livro



































O Centro de Estudos Marxistas (Cemarx), a Fundação Maurício Glabóis e o Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) organizam, dia 2 de outubro, às 17 horas, no auditório do IFCH, a conferência "Dimensões e perspectivas da luta de classes" com o professor Domenico Losurdo. Na ocaisão ele lança o livro "O pecado original do século XX". Mais informações 19-3521-7975 ou e-mail jrkiko@unicamp.br


O filósofo italiano Domenico Losurdo aborda perspectivas para o século 21, dia 1º/10, às 19h, no campus Monte Alegre (sala 100, prédio novo). Na ocasião, Losurdo também lança seu mais recente livro em português: O pecado original do século XX. Promoção: Núcleo de Estudos de História: Trabalho, Ideologia e Poder; Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais; e Faculdade de Educação.

Filósofo Domenico Losurdo
vem à Unicamp no dia 2

O historiador e filósofo italiano Domenico Losurdo vem à Unicamp na próxima quarta-feira, dia 2 de outubro. Docente da universidade de Urbino, na Itália, Losurdo dedica-se à crítica do pensamento liberal do ocidente. Possui obras significativas sobre Gramsci, Nietszche e Heidegger, com edições traduzidas para o inglês, britânico, alemão, francês, espanhol e português.

O historiador e filósofo italiano Domenico Losurdo Na Unicamp ele ministra a conferência "Dimensões e perspectivas da luta de classes", que contará com tradução simultânea. Também lança o livro O pecado original do século XX, publicado pela editora Anita Garibaldi. O evento acontece às 17 horas no auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). A organização é de Armando Boito Júnior, professor titular de Ciência Política da Universidade. 
Por sugestão dele, o
Portal da Unicamp ouviu o professor João Carlos Kfouri Quartim de Moraes, profundo conhecedor da obra e do pensamento de Losurdo. Quartin de Moraes, docente colaborador do IFCH, foi um dos responsáveis pela primeira vinda de Losurdo ao país. Confira os principais trechos da entrevista. 

Retórica da democracia O Domenico Losurdo tem refletido sobre o fato das grandes potências liberais imporem seus próprios interesses, alegando aos outros países valores que em si ‘merecerem respeito’. Ele tem tentado desmistificar estas pretensões. Há uma retórica interminável de democracia, sobretudo da Casa Branca, mas também da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]. Eles falam em nome da comunidade internacional. Só que não foi concedido nenhum mandato para que se imponham deste modo, identificando estes grandes valores da humanidade com as iniciativas políticas que tomam.Ciclo interminável de guerrasJoão Quartin: 'Losurdo mostra que a ideologia liberal que os Estados Unidos promovem como uma justificação para defender seus interesses, ela, na verdade, não é tão pura politicamente quanto pretende"
A grande constatação que se tem, baseada no pensamento do Losurdo, é a seguinte: desde a 
derrocada da União Soviética - que tinha um poderio militar capaz de conter as potências ocidentais da Otan - nós temos um ciclo interminável de guerras, de agressão: guerra no Panamá, duas invasões no Iraque e no Afeganistão. Guerras movidas diretamente pelos Estados Unidos ou pelos parceiros da Otan. E agora os Estados Unidos só não entraram na Síria porque, desta vez, finalmente a Rússia - que está reconstituída como potência e aliada com a China – disse: ‘chega, não vai entrar na Síria coisa nenhuma.'
Desrespeito à autonomiaO Losurdo mostra que essa ideologia liberal que os Estados Unidos promovem como uma justificação para defender seus interesses, ela, na verdade, não é tão pura politicamente quanto pretende. Esta ideologia sempre se comportou nos Estados Unidos com um aspecto de discriminação, de violência dentro do próprio país. Antes da Guerra de Secessão, os Estados Unidos eram dirigidos por senhores de escravos. A Guerra Civil Americana foi  terrível e mesmo depois da vitória do norte - sem dúvida um fato progressista, porque aboliu formalmente a escravidão - ainda há discriminação. Hoje, os negros ganham menos do que os brancos… Todo o ocidente conseguiu estabelecer instituições do estado de direito nos seus territórios, mas, ao mesmo tempo, sempre tratou o resto do mundo como uma espécie de humanidade menor, uma sub-humanidade. O ocidente nunca aplicou de fato o respeito à autonomia, sobretudo para aquele grupo que não faz parte do pelotão rico liderado pelos Estados Unidos.  É essa a denúncia, vamos dizer assim, que o Losurdo faz, com argumentos claros e consistentes.

 

Domenico Losurdo participa no Brasil de conferência e lança livro

No próximo dia 3 de outubro, a Conferência Dimensões e Perspectivas da Luta de Classes receberá um dos mais respeitados filósofos marxistas da atualidade, Domenico Losurdo. O evento ocorrerá às 19 horas, no salão nobre da Câmara Municipal de São Paulo. A atividade, organizada pela Fundação Maurício Grabois, contará ainda com o lançamento de seu livro O pecado original do século 20.


Nesse encontro o filósofo marxista italiano desenvolve uma salutar polêmica contra as correntes políticas e filosóficas – inclusive de esquerda - que negam a luta de classes ou tem uma visão estreita em relação à ela. Baseado no seu novo e instigante trabalho publicado pela editora italiana Laterza intitulado “A luta de classes - Uma história política e filosófica”.

Como ele mesmo afirma: “Para compreender a ação histórica, é necessário à luta de classes, aliás ‘lutas de classes’ que assumem formas múltiplas e variadas, entrelaçam-se umas às outras de modo peculiar e conferem uma configuração sempre diferente às diversas situações históricas”. Lutas de classe (no plural) que não se configuram apenas como confronto operário e patrão no âmbito do mundo fabril. Ela é mais ampla e adquire outras dimensões: nas relações entre o imperialismo e os povos subjugados, na opressão sexual da mulher e racial. Conclui: “Estamos, portanto, em presença de três grandes lutas de classes: os explorados e oprimidos são chamados a modificar radicalmente a divisão do trabalho e as relações de exploração e de opressão que subsistem em nível internacional, em um país singular e no âmbito da família”.

O lançamento do livro O pecado original do século 20, de Domenico Losurdo, ocorrerá no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo.

Promotores do evento: Fundação Maurício Grabois, Seção paulista da Fundação Maurício Grabois.

Apoio: Portal Vermelho, União da Juventude Socialista (UJS), Núcleo de Estudo da Mídia Independente Barão de Itararé, Instituto de Estudos Contemporâneos e Cooperação Internacional (IECint) e revista Princípios.

Com informações do Portal Mauricio Grabois


Domenico Losurdo ministra
conferência na UERJ e lança o livro:


 A não violência - Uma história fora do mito


Lançamento: A não violência – Uma história fora do mito

A Editora Revan e o Laboratório Intelectuais Cultura e Política (LICP) da UERJ convidam para palestra do historiador e filósofo Domenico Losurdo, em lançamento da edição brasileira de seu livro A não violência – Uma história fora do mito, com participação à mesa dos professores professores Gizlene Neder (UFF), Dario de Sousa e Silva (UERJ) e Paulo Jorge Ribeiro (PUC-Rio).

Sinopse do livro
"Sabemos sobre as lágrimas e sangue que foram derramados pelos projetos de transformar o mundo através guerra ou revolução. A partir do ensaio publicado em 1921 por Walter Benjamin, a filosofia do século XX está envolvida na "Crítica à violência", mesmo quando esta pretende ser “meio para um fim justo”. Mas o que sabemos dos dilemas, das “traições”, das decepções e das verdadeiras e reais tragédias com que se defrontou o movimento inspirado pelo ideal da não violência?”

A partir dessa pergunta, com a qual abre este livro, Domenico Losurdo relata uma história fascinante: desde organizações cristãs nas primeiras décadas do século XIX que se propõem nos Estados Unidos a combater de forma pacífica os flagelos da escravidão e da guerra até os protagonistas do movimento que por paixão ou por cálculo de Realpolitik agitaram a bandeira da não violência: Thoreau, Tolstoi, Gandhi, M.L. King, Dalai Lama e as inspirações mais recentes de "revoluções coloridas" que interesses imperialistas centrados em Washington promoveram e promovem mundo afora.

Serviço
Lançamento A não violência – Uma história fora do mito
Editora Revan
Data: 4/10/2013
Horário: 10h
Local: Auditório 91, João Goulart, 9º andar, bloco F, Campus Maracanã da UERJ.

 

Domenico Losurdo palestra sobre a luta de classes em seminário na UFF

O filósofo italiano Domenico Losurdo (Universidade de Urbino), a convite do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Filosofia, Política e Educação (NUFIPE), estará na UFF para a palestra "A Luta de Classe: uma história política e filosófica" nessa sexta-feira (04).
Local: Campus do Gragoatá, Faculdade de Educação (Bloco D), Sala 318.

Mais informações: secretarianufipe@gmail.com








 Congresso Interamericano de Filosofia conta com participação da FFCH


 O evento que conta com a Faculdade Filosofia e Ciência Humanas da UFBA (FFCH) como um dos promotores terá a presença de pesquisadores renomados no Brasil e do exterior como José Arthur Giannotti, Marilena Chauí, Oswaldo Giacoia, Ricardo Terra, Ivan Domingues, Marcos Nobre, Oswaldo Chateaubriand, Ernest Sosa, Domenico Losurdo, David Chalmers, Alvin Goldman, Ned Block, Jonathan Dancy, Robert Pippin.  
A abertura do evento ocorre na próxima segunda (07/10), às 18h30 horas com uma apresentação da Orquestra Neojibá, no Teatro Castro Alves e o encerramento será realizado no Bahia Othon Palace Hotel, na sexta-feira (11/10), às 11h com apresentação da Orquestra Rumpilezz. Mais informações sobre o encontro e sua programação completa podem ser obtidas no site do SIF 2013

04 setembro, 2013

A indústria da mentira

A indústria da mentira, parte da máquina de guerra do imperialismo


por Domenico Losurdo

Na história da indústria da mentira, parte integrante do aparelho industrial militar do imperialismo, 1989 é um ano de viragem. Nicolae Ceausescu ainda está no poder na Roménia. Como derrubá-lo? Os meios de comunicação ocidentais difundem de modo maciço junto à população romena informação e imagens do "genocídio" cometido em Timisoara pela polícia por indicação de Ceausescu.

1. Os cadáveres mutilados

O que acontecera na realidade? Beneficiando da análise de Debord sobre a "sociedade do espectáculo", um ilustre filósofo italiano (Giorgio Agamben) sintetizou de modo magistral a história de que aqui se trata:
"Pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres sepultados ou alinhados sobre mesas das morgues foram desenterrados às pressas e torturados para simular frente às câmaras o genocídio que devia legitimar o novo regime. O que o mundo viu em directo como verdade real, no écran da televisão, era a não verdade absoluta. Embora a falsificação fosse óbvia, ela todavia era autenticada como verdadeira pelo sistema mundial dos media, porque estava claro que agora a verdade não era senão um momento do movimento necessário do falso. Assim, a verdade e a mentira tornaram-se indiscerníveis e o espectáculo legitimava-se unicamente mediante o espectáculo.

Timisoara é, neste sentido, a Auschwitz da sociedade do espectáculo:   e como já foi dito que depois de Auschwitz é impossível escrever e pensar como antes, da mesma forma, depois de Timisoara não será mais possível ver um écran de televisão do mesmo modo" (Agamben, 1996, p. 67).
No ano de 1989 a transição da sociedade do espectáculo para o espectáculo como técnica de guerra manifestou-se à escala planetária. Algumas semanas antes do golpe de Estado, ou seja, da "revolução Cinecittà" na Roménia (Fejtö 1994, p 263), a 17 de Novembro de 1989, a "revolução de veludo" triunfava em Praga agitando uma palavra de ordem de Gandhi: "Amor e Verdade". Na realidade, um papel decisivo coube à divulgação da notícia falsa de que um aluno fora "brutalmente assassinados" pela polícia. Vinte anos mais tarde, revela satisfeito um "jornalista e líder da dissidência, Jan Urban", protagonista da manipulação:  a sua "mentira" havia tido o mérito de suscitar a indignação em massa e o colapso de um regime já periclitante (Bilefsky 2009).

Algo semelhante acontece na China: em 08 de Abril de 1989 Hu Yaobang, secretário do PCC até há um par de anos, sofreu um enfarte durante uma reunião da Comissão Política e morreu uma semana depois. Para a multidão na Praça da Paz Celestial a sua morte está ligada ao duro conflito político verificado no decorrer naquela reunião (Domenach, Richer, 1995, p 550.), De qualquer modo ele se torna vítima do sistema que se tenta derrubar. Em todos os três casos, a invenção e a denúncia de um crime são chamados a suscitar a onda de indignação de que o movimento de revolta tem necessidade. Se se consegue o êxito completo na Checoslováquia e na Roménia (onde o regime socialista havia-se seguido ao avanço do Exército Vermelho), esta estratégia falhou na República Popular da China que brotou de uma grande revolução nacional e social. E aqui é que tal fracasso se torna o ponto de partida de uma nova e mais maciça guerra mediática, que é desencadeada por uma superpotência que não tolera rivais ou potenciais rivais e que ainda está em pleno desenvolvimento. Fica definido que o ponto da viragem histórica está em primeiro lugar em Timisoara, "a Auschwitz da sociedade do espectáculo".

2. A "anunciar bebés" e o corvo marinho

Dois anos depois, em 1991, verificou-se a primeira Guerra do Golfo. Um corajoso jornalista estado-unidense explicou como se deu "a vitória do Pentágono sobre o media", ou seja, a "derrota colossal dos media por obra do governo dos Estados Unidos" (Macarthur 1992, pp. 208 e 22).

Em 1991, a situação não era fácil para o Pentágono (nem para a Casa Branca). Tratava-se de convencer da necessidade da guerra um povo sobre o qual ainda pesava a memória do Vietname. E então? Espertezas várias reduziram drasticamente a possibilidade de jornalistas falarem directamente com os soldados ou reportarem directamente a partir da frente. Na medida do possível, tudo deve ser filtrado: o fedor da morte e sobretudo o sangue, o sofrimento e as lágrimas da população civil não devem invadir as casas dos cidadãos dos EUA (e dos habitantes do mundo inteiro) como no tempo de guerra Vietname. Mas o problema central mais difícil de resolver era outro: como demonizar o Iraque de Saddam Hussein, que ainda há alguns anos era considerado digno aos olhos dos EUA, agredindo o Irão que brotara da revolução islâmica e anti-americana de 1979 e inclinado a fazer proselitismo no Oriente Médio. A demonização teria sido muito mais eficaz se ao mesmo tempo a sua vítima fosse angelical. Operação nada fácil, e não apenas pelo facto de no Kuwait ser dura e impiedosa a repressão de todas as formas de oposição. Havia algo pior. Para executar as tarefas mais humildes os imigrantes eram sujeitos a uma "escravatura de facto" e uma escravatura de facto que muitas vezes assumia formas sádicas: não despertou particular emoção casos de "servos arremessado a partir do terraço, queimados ou cegados ou espancados até a morte " (Macarthur 1992, pp. 44-45).

E ainda assim... Generosamente ou fabulosamente recompensada, uma agência de publicidade encontra remédio para tudo. Essa denunciou o facto de que os soldados iraquianos cortavam as "orelhas" dos kuwaitianos que resistiam. Mas o golpe de teatro desta campanha era outro: os invasores haviam irrompido num hospital, "removendo 312 bebés das suas incubadoras e deixando-os morrer no chão frio do hospital de Kuwait City" (Macarthur 1992, p 54). Proclamada repetidamente pelo presidente Bush Sr., confirmado pelo Congresso, endossado pela imprensa de referência, e até mesmo pela Amnistia Internacional, esta notícia tão horripilante, mas mesmo assim circunstanciada para indicar com precisão o número de mortes, não poderia deixar de provocar uma onda avassaladora de indignação: Saddam Hussein era o novo Hitler, a guerra contra ele era não só necessária como também urgente e aqueles que se opusessem a ela ou fossem recalcitrantes deveriam ser considerados como cúmplices mais ou menos conscientes do novo Hitler! A notícia era obviamente uma invenção habilmente produzida e distribuída, mas foi para isso que a agência de publicidade bem merecera o seu dinheiro.

A reconstrução desta história está contida em um capítulo do livro aqui citado com um título adequado: "Publicitar bebés" (Selling Babies). Na verdade, o "anunciado" não foram apenas os bebés. Logo no início das operações militares foi difundida por todo o mundo a imagem de um corvo marinho que se afogava no petróleo a jorrar de poços explodidos pelo Iraque. Verdade ou manipulação? A causa da catástrofe ecológica era Saddam? E há realmente corvos marinhos naquela região do globo e naquela estação do ano? A onda de indignação, autêntica e habilmente manipulada, varreu a última resistência racional.

3. A produção do falso, o terrorismo da indignação e o desencadeamento da guerra

Façamos um novo salto alguns anos em frente e chegamos assim à dissolução, ou melhor, ao desmembramento da Jugoslávia. Contra a Sérvia, que historicamente fora a protagonista do processo de unificação deste país multi-étnico, nos meses que antecederam o bombardeamento total desencadeou-se uma onda de bombardeamentos multimedia. Em Agosto de 1998, um jornalista americano e um alemão
"Referem-se à existência de valas comuns contendo 500 cadáveres de albaneses, incluindo 430 crianças, perto de Orahovac, onde se combateu duramente. A notícia foi retomada por outros jornais ocidentais com grande destaque. Mas era tudo falso, como evidenciado por uma missão de observação da UE " (Morozzo Della Rocca 1999, p. 17).
Nem por isso a fábrica de falsificações entrava em crise. No início de 1999, os meios de comunicação ocidentais começaram a bombardear a opinião pública internacional com fotografias de cadáveres empilhados no fundo de um penhasco e, por vezes, decapitados e mutilados; as legendas e artigos que acompanhavam tais imagens proclamavam que se tratava civis albaneses inermes massacrados pelos sérvios. Só que:
"O massacre de Racak é horrendo, com mutilações e cabeças decepadas. É um cenário ideal para despertar a indignação da opinião pública internacional. Mas alguma coisa parece estranha nesta modalidade de carnificina. Os sérvios matam habitualmente sem fazer mutilações [...] Como ensina a guerra na Bósnia, as denúncias de brutalidade sobre corpos, sinais de tortura, decapitações, são uma arma da propaganda difundida [...] Talvez não fossem os sérvios, mas sim os guerrilheiros albaneses que mutilaram os corpos" (Morozzo Della Rocca 1999, p. 249).
Ou, talvez, os corpos das vítimas de um dos inumeráveis confrontos entre grupos armados tivessem sido submetidos a um tratamento sucessivo, a fim de fazer acreditar numa execução a frio e num desencadeamento de fúria bestial, da qual era imediatamente acusado o país que a NATO se preparava para bombardear (Saillot 2010, pp. 11-18).

A encenação de Racak foi apenas o culminar de uma campanha de desinformação obstinada e cruel. Alguns anos antes, o bombardeamento do mercado de Sarajevo havia permitido à NATO erguer-se como suprema autoridade moral, que não se podia permitir deixar impune a "atrocidade" sérvia. Hoje em dia pode-se ler, mesmo no Corriere della Sera, que "foi uma bomba de paternidade muito duvidosa a fazer o massacre no mercado de Sarajevo provocando a intervenção da NATO" (Venturini 2013). Com este precedente anterior, Racak aparece hoje como uma espécie de reedição de Timisoara, uma reedição prolongada por alguns anos. E no entanto, também neste caso, houve êxito. O ilustre filósofo que em 1990 havia denunciado "o Auschwitz da sociedade do espectáculo" verificado em Timisoara, cinco anos depois alinhava-se ao coro dominante, trovejando de forma maniqueísta contra "o deslizamento repentino da classe dirigente ex-comunista no racismo mais extremo (como na Sérvia, com o programa de limpeza étnica)" (Agamben 1995, pp. 134-35). Depois de haver agudamente analisado a trágica indiscernibilidade da "verdade e falsidade" na sociedade do espectáculo, ele acaba, involuntariamente, por confirmá-la, aceitando de modo precipitado a versão (ou seja, a propaganda de guerra) difundida no "sistema mundial dos media", que anteriormente apontara como a fonte principal da manipulação. Depois de ter denunciado a redução do "verdadeiro" para "momento do movimento necessário do falso", feito pela sociedade do espectáculo, ele limitava-se a conferir uma aparência de profundidade filosófica a esse "verdadeiro" reduzido a "momento do movimento necessário do falso".

Por outro lado, um elemento da guerra contra a Jugoslávia, mais do que em Timisoara, nos leva de volta à primeira Guerra do Golfo. É o papel desempenhado pelas relações públicas:

Milosevic. "Milosevic é um homem tímido, não gosta de publicidade, não gosta de se mostrar ou fazer discursos em público. Parece que aos primeiros sinais de desagregação da Jugoslávia, a Ruder&Finn, empresa de relações públicas que trabalhara para o Kuwait, em 1991, apresentou-se a oferecer os seus serviços. Foi recusada. A Ruder&Finn foi ao invés contratada de imediato pela Croácia, pelos muçulmanos da Bósnia e pelos albaneses do Kosovo por 17 milhões de dólares por ano, a fim de proteger e promover a imagem dos três grupos. E ela fez um óptimo trabalho!
  
James Harf, diretor da Ruder&Finn Global Public Affairs , afirmou numa entrevista [...]:


"Fomos capazes de fazer coincidir na opinião pública sérvio e nazista [...] Nós somos profissionais. Tínhamos um trabalho a fazer e fizemos. Não somos pagos para fazer moral" (Toschi Marazzani Visconti 1999, p. 31).
Chegamos agora à segunda Guerra do Golfo:   nos primeiros dias de Fevereiro de 2003, o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, mostrava à plateia do Conselho de Segurança da ONU as imagens de laboratórios móveis para a produção de armas químicas e biológicas que o Iraque dispunha. Algum tempo depois o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, redobrava a dose:   não só Saddam tinha essas armas como já havia feito planos para usá-las e era capaz de activá-las "em 45 minutos." E mais uma vez o espectáculo, nada mais que o prelúdio para a guerra, constituía o primeiro acto de guerra, pondo em guarda contra um inimigo de que o género humano se devia absolutamente desembaraçar.

Mas o arsenal das armas da mentira executadas ou prontas para o uso foi muito além disso. A fim de "desacreditar o líder iraquiano aos olhos do seu próprio povo", a CIA propunha-se a "divulgar em Bagdad, um filme revelando que Saddam era gay. O vídeo devia mostrar o ditador iraquiano tendo relações sexuais com um garoto. "Devia parecer feito a partir de uma câmara oculta, como se fosse uma gravação clandestina". A ser estudada estava também "a possibilidade de interromper a transmissão da televisão iraquiana com uma pretensa edição extraordinária do telejornal contendo o anúncio de que Saddam havia renunciado e que todo o poder fora retirado de seu filho Uday, temido e odiado" (Franceschini 2010).

Se o Mal deve ser mostrado e marcado em todo o seu horror, o Bem deve aparecer em todo o seu esplendor. Em Dezembro de 1992, fuzileiros navais dos EUA desembarcaram na praia de Mogadiscio. Para maior exactidão, desembarcaram duas vezes e a repetição da operação não se deveu a dificuldades militares ou logísticas imprevistas. Era preciso mostrar ao mundo que, mesmo antes de ser um corpo militar de elite, os fuzileiros eram uma organização beneficente e caridosa que trazia esperança e um sorriso ao povo somali devastado pela miséria e pela fome. A repetição do desembarque-espectáculo destinava-se a emendá-lo nos seus pormenores errados ou defeituosos. Um jornalista e testemunha explicou:
"Tudo o que está a acontecer na Somália e que se verá nas próximas semanas é um show militar-diplomático [...] Uma nova época na história da política e da guerra começou realmente, na noite bizarra de Mogadíscio [...] A "Operação Esperança" foi a primeira operação militar não apenas filmada em directo pelas câmaras, mas pensada, construída e organizada como um show de televisão" (Zucconi 1992).
Mogadíscio era a contrapartida de Timisoara. Há alguns anos de distância da representação do Mal (o comunismo que finalmente desmoronou) seguiu-se a representação do Bem (o império americano, que emergia do triunfo alcançado na Guerra Fria). São agora claros os elementos constitutivos da guerra-espectáculo e do seu êxito.
Referências bibliográficas

Giorgio Agamben 1995
Homo sacer. Il potere sovrano e la nuda vita, Einaudi, Torino

Giorgio Agamben 1996
Mezzi senza fine. Note sulla politica, Bollati Boringhieri, Torino

Dan Bilefsky 2009
A rumor that set off the Velvet Revolution, in International Herald Tribune del 18 novembre, pp. 1 e 4

Jean-Luc Domenach, Philippe Richer 1995
La Chine, Seuil, Paris

François Fejtö 1994 (em colaboração con Ewa Kulesza-Mietkowski)
La fin des démocraties populaires (1992), tr. it., di Marisa Aboaf, La fine delle democrazie popolari. L'Europa orientale dopo la rivoluzione del 1989, Mondadori, Milano

Enrico Franceschini 2010
La Cia girò un video gay per far cadere Saddam, "la Repubblica", 28 maggio, p. 23

John R. Macarthur 1992
Second Front. Censorship and Propaganda in the Gulf War , Hill and Wang, New York

Roberto Morozzo Della Rocca 1999
La via verso la guerra, in Supplemento al n. 1 (Quaderni Speciali) di "Limes. Rivista Italiana di Geopolitica", pp. 11-26

Fréderic Saillot 2010
Racak. De l'utilité des massacres, tome II, L'Hermattan, Paris

Jean Toschi Marazzani Visconti 1999
Milosevic visto da vicino, Supplemento al n. 1 (Quaderni Speciali) di "Limes. Rivista Italiana di Geopolitica", pp. 27- 34

Franco Venturini 2013
Le vittime e il potere atroce delle immagini, in Corriere della Sera del 22 agosto, pp. 1 e 11

Vittorio Zucconi 1992
Quello sbarco da farsa sotto i riflettori TV, in la Repubblica del 10 dicembre 


Fonte: http://resistir.info/losurdo/industria_da_mentira_04set13.html

19 junho, 2013

A «democracia para o povo dos senhores» pode facilmente transformar-se numa ditatura para o povo dos senhores.

por Domenico Losurdo

Andrew Jackson era o presidente do Estados Unidos no momento em que Tocqueville fez a viagem que levou à publicação da “Democracia na América”. É verdade que este presidente liquida em grande parte a discriminação censitária dos direitos políticos. Mas, paralelamente, encontramo-nos com um proprietário de escravos que, igualmente, ordena a deportação dos Peles Vermelhas (os cherokees). Foram homens, mulheres, velhos, crianças: um quarto morreu durante a viagem. Deveríamos considerar que Jackson é um democrata? Os autores da Declaração da Independência e da Constituição de 1787 são igualmente proprietários de escravos, logo, durante trinta e dois dos primeiros trinta e seis anos de existência dos Estados Unidos, a função de presidente é ocupada por proprietários de escravos, muitas vezes implicados na expropriação e deportação dos Peles Vermelhas.

                                              Andrew Jackson aos 78 anos, em Nashville, no Tennessee

Os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?

Em geral, afastam-se estas questões através do recurso a um historicismo vulgar: as sociedades liberais teriam herdado práticas e relações sociais universalmente difundidas. Mas os factos são inteiramente diferentes. Tocqueville publica o primeiro livro da “Democracia na América” em 1835. Nesta data, a escravidão havia desaparecido em grande parte do continente. Na esteira da Revolução Francesa, a revolução dos escravos negros em São Domingos dá o impulso do processo de emancipação. Depois a revolução da América Latina explode a dominação espanhola: ela também se conclui com a abolição da escravatura. A revolução dos colonos ingleses que conduziu à fundação dos Estados Unidos é a única do continente americano a manter e mesmo reforçar e estender a instituição da escravatura: depois de ter arrancado o Texas ao México, a república norte-americana ali reintroduz a escravatura anteriormente abolida. Mais uma vez coloca-se a questão: os Estados Unidos daquela época eram uma democracia?

É mais adequado falar de Herrenvolk democracy, ou seja, de democracia que vale somente para o “povo dos senhores”. Quando este regime acabou nos Estados Unidos? Com o fim da Guerra de Secessão e a abolição da escravatura que se seguiu? Na realidade, um dos capítulos mais trágicos da história dos afro-americanos foi escrito entre o fim do século XIX e princípios do século XX. O linchamento era um horrível espectáculo de massa. Quero citar aqui um historiador americano:

“As notícias de linchamento eram publicadas nas folhas locais e vagões suplementares eram acrescentados aos comboios para [transportar] os espectadores, por vez milhares, vindos de localidades situadas a quilómetros de distância. Para assistir ao linchamento, as crianças das escolas podiam ter um dia de liberdade. O espectáculo podia incluir a castração, o esfolamento, a assadura, o enforcamento, os tiros. As recordações para os compradores podiam incluir os dedos das mãos e dos pés, os ossos e mesmo os órgãos genitais da vítimas, assim como cartões postais ilustrados do acontecimento”.

Outro historiador americano (George M. Fredrickson) observa que “os esforços para manter a “pureza da raça” no Sul dos Estados Unidos antecipam certos aspectos da perseguição lançada pelo regime nazi contra os judeus nos anos 1930″. Nos Estados Unidos, o Estado racial sobreviverá algum tempo após o afundamento do Terceiro Reich: em 1952, uma trintena de estados da União ainda proibiam o casamento e as relações sexuais inter-raciais, por vezes consideradas como delitos graves.

A “democracia para o povo dos senhores” e a história do Ocidente

Contudo, seria errado concentrar a atenção exclusivamente nos Estados Unidos. A categoria Herrenvolk democracy também pode ser útil para explicar a história da Inglaterra que, imediatamente após a Gloriosa Revolução liberal de 1688-89, arrebata à Espanha o monopólio do tráfico dos escravos negros e reforça sua opressão sobre os irlandeses impondo-lhes uma condição comparável àquela dos Peles Vermelhas. Ou melhor, a categoria Herrenvolk democracy pode ser útil para explicar a história do Ocidente enquanto tal. Com efeito, entre o fim do século XIX e os princípios do XX, a extensão do sufrágio na Europa caminha a par com o processo de colonização e a imposição de condições de trabalho servis ou semi-servis às populações submetidas: a rule of law, o governo da lei na metrópole capitalista entrelaça-se com o poder arbitrário e policial e mesmo com o terror imposto nas colónias. Se se examinar bem, é o mesmo fenómeno que caracteriza a história dos Estados Unidos com esta diferença: no caso da Europa as populações colonizadas ao invés de viverem na metrópole são dela separadas pelo oceano. De modo significativo, na segunda metade do século XIX, um liberal de esquerda como John Stuart Mill por um lado celebra a liberdade e justifica-a, por outro lado celebra o “despotismo” do Ocidente sobre as raças ainda “menores” destinadas a observar uma “obediência absoluta”.

A “democracia para o povo dos senhores” tem vida dura!

Chegado a este ponto, sintetizando e actualizando os resultados do meu livro, Contre-histoire du libéralisme (La Découverte, 2013 na tradução francesa), coloco-me três perguntas: a ultrapassagem da “democracia para o povo dos senhores” resulta de uma evolução espontânea do liberalismo? A resposta deve ser um não categórico. Em Dezembro de 1952, o ministro americano da Justiça envia uma carta eloquente ao Tribunal Supremo que está em vias de discutir a questão da integração nas escolas públicas: “a discriminação racial leva água ao moinho da propaganda comunista” que se difunde entre os afro-americanos (assim como entre todos os povos submetido à dominação colonial e racista). No século XX, o movimento comunista foi o grande adversário do colonialismo, da “democracia para o povo dos senhores” e do Estado racial.

E agora a segunda pergunta: o Estado racial americano exerceu influência sobre a Europa? Em 1930, um ideólogo do nazismo de primeiro plano, como Alfred Rosenberg, exprime sua admiração pela América da white supremacy, este “esplêndido país do futuro” que teve o mérito de formular a feliz “nova ideia de um Estado racial”, ideia que era pois questão de também por em prática “com a força da juventude” na Alemanha. Hitler também se reclama explicitamente do modelo americano: na Europa Oriental, os índios a submeter são os eslavos que é preciso dizimar a fim de permitir a germanização do território e aqueles que serão poupados serão destinados a trabalhar como os escravos negros ao serviço da raça dos senhores (os judeus, ao contrário, são assimilados aos bolcheviques, tanto uns como outros devendo ser eliminados enquanto ideólogos e instigadores da revolta das “raças inferiores”). Naturalmente, é preciso manter em mente a distinção entre democracia (ainda que limitada somente à raça dos senhores) e ditadura. E contudo… Retornemos aos Estados Unidos nos anos que antecedem a Guerra de Secessão. Tocqueville observa a dureza das penas infligidas àqueles que ensinavam os escravos a ler e escrever. Naturalmente, a proibição visava excluir a raça dos servos de toda forma de instrução. E em caso de violação desta regra, os proprietários brancos eram os primeiros a serem atingidos.

Além disso, as regras proibiam a miscigenação, as relações sexuais e os casamentos inter-raciais. Ou, mais uma vez, visando tornar hereditária e invariável a condição dos escravos, estas regras acabavam por trazer um grave atentados à liberdade dos proprietários. Por outras palavras, o regime da “democracia para o povo dos senhores” limitava profundamente a liberdade dos proprietários de escravos, confirmando a grande fórmula de Marx e Engels segundo a qual um povo que oprime outro não poderia ser livre.

Pode-se pensar do que acontecia quando os escravos se rebelavam ou quando os proprietários temiam serem privados da sua “propriedade” de um modo ou de outro. As testemunhas da época relatam: “o serviço militar [das patrulhas brancas] é assegurado noite e dia, Richmond parece uma cidade sitiada […] Os negros […] não se arriscam a comunicarem entre si por medo de serem punidos”. Os abolicionistas brancos também eram afectados porque eram considerados como traidores da raça branca e por isso eram assimilados aos negros. Vamos dar, mais uma vez, a palavra às testemunhas da época: aqueles que criticam a instituição da escravatura “não ousam sequer intercambiar opiniões com aqueles que pensam como eles por medo de serem traídos”. Todos são constrangidos pelo terror a “não abrirem as bocas, a abafar suas próprias dúvidas e a enterrar suas próprias reticência”. Como se vê, a dominação terrorista que os proprietários de escravos exerciam sobre os negros acabava por atingir duramente os membros e as fracções da classe dominante. Em condições de crise aguda, a “democracia para o povo dos senhores” pode facilmente transformar-se numa ditadura para o povo dos senhores. Entre o Estado racial nos EUA e o Estado racial na Alemanha, há elementos de continuidade e de descontinuidade.

Finalmente, a última pergunta: a “democracia para o povo do senhores” desapareceu totalmente dos nossos dias? Inegavelmente, muitas coisas mudaram a gigantesca vaga de revoluções anti-coloniais irrompendo no mundo a partir de Outubro de 1917 e, sobretudo, de Estalingrado. Contudo, a ideologia dominante celebra Israel como a única democracia autêntica do Médio Oriente. Salvo que a rule of law, o governo da lei para os cidadãos israelenses de pleno direito caminha a par com a expropriação, a deportação, a prisão arbitrária e mesmo a execução extra-judicial perpetrados contra os palestinos: é a democracia para o povo dos senhores. E à escala internacional? Pisoteando de modo explícito o princípio da igualdade entre as nações, os Estados Unidos e o Ocidente continuam a arrogar-se o direito soberano de invadir, bombardear, submeter a embargo e à fome este ou aquele país mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Às proclamações vibrantes prestando homenagem à liberdade e à democracia corresponde a tentativa de exercer uma ditadura no plano internacional. Infelizmente, a “democracia para o povo dos senhores” tem a vida dura!

* Doménico Losurdo, filósofo marxista é Professor de Historia da Filosofia na Universidade de Urbino, Itália.

 (Fonte: Diário.info)

18 março, 2013

Domenico Losurdo e o 'retorno' da luta de classes

Acaba de ser publicado na Itália, pela Editora Laterza o novo livro do filósofo político marxista Domenico Losurdo: A luta de classes - Uma história política e filosófica. Em mais um trabalho de fôlego, de 388 páginas, o filósofo marxista italiano enfrenta polêmicas sobre temas instigantes contra as correntes oportunistas que negam a luta de classes ou distorcem seu sentido. A entrevista foi realizada por Paolo Ercolari, para a revista italiana Critica Liberale.




Domenico Losurdo é um dos estudiosos italianos de filosofia mais traduzidos no mundo. Todos os seus livros tiveram de fato edições em inglês, britânico e americano, alemão, francês, espanhol e também em português, chinês, japonês e grego. Seguramente, esquecemos de mencionar algum idioma. Os jornais Financial Times e Frankfurter Allgmeine Zeitung, entre outros, lhe dedicaram páginas inteiras. Um tratamento que contrasta com o que lhe é reservado no próprio país, onde frequentemente, de maneira deliberada, os seus trabalhos são objeto de um silêncio bem estudado. O que, entretanto, não incide sobre suas vendas, tendo em conta as reiteradas edições dos seus livros.

Nos últimos dias veio à luz o seu novo trabalho intitulado A luta de classes - Uma história política e filosófica (388 páginas, Ed. Laterza). Por esta razão, Critica Liberale o entrevistou na sua casa/biblioteca, situada numa colina no entorno da cidade italiana de Urbino. (Paolo Ercolari)

Critica Liberale: Professor Losurdo, como explica esta ideia de escrever um livro sobre a luta de classe, conceito tido por muitos como morto?
Domenico Losurdo: Enquanto grassa a crise econômica, engrossam os ensaios que evocam o “retorno da luta de classe”. Tinha desaparecido? Na realidade, os intelectuais e os políticos que proclamavam o crepúsculo da teoria marxista da luta de classe cometiam um duplo erro. Por um lado, embelezavam a realidade do capitalismo. Nos anos 1950, Ralf Dahrendorf afirmava que se estava verificando um “nivelamento das diferenças sociais” e que aquelas mesmas modestas “diferenças” eram somente o resultado do mérito escolástico; contudo, bastava ler a imprensa estadunidense, até a mais alinhada, para dar-se conta de que mesmo nos países-guias do Ocidente subsistiam pavorosos bolsões de uma miséria que se transmitia hereditariamente de uma geração a outra. Ainda mais grave era o segundo erro, de caráter mais propriamente teórico. Eram os anos em que se desenvolvia a revolução anticolonial no Vietnã, em Cuba, no Terceiro Mundo; nos Estados Unidos os negros lutavam para pôr fim à supremacia branca, ao sistema de segregação, discriminação e opressão racial que ainda pesava sobre eles. Os teóricos da superação da luta de classes estavam cegos ante as ásperas lutas de classes que se desenvolviam sob seus olhos.

Critica Liberale: Se não entendemos mal, você amplia bastante o campo semântico da expressão “luta de classes”, compreendendo em seu interior uma gama de problemas e questões muito mais amplas?
DL: Sim, Marx e Engels chamavam a atenção não somente para a exploração que tem lugar no âmbito de um país singular, mas também para a “exploração de uma nação por parte de outra”. Outrossim, nesse segundo caso temos a ver com uma luta de classe. Na Irlanda, onde os camponeses eram sistematicamente expropriados pelos colonos ingleses, a “questão social” assumia a forma de “questão nacional”, e a luta de libertação nacional do povo irlandês não só era uma luta de classes, mas uma luta de classes de particular relevância: é nas colônias de fato – observa Marx – que “a intrínseca barbárie da civilização burguesa” se revela na sua nudez e em toda a sua repugnância.

Critica Liberale: Pode-se explicar melhor a gênese histórico-filosófica desta sua leitura tão incomum a respeito de categorias tradicionais?
DL: A cultura do século 19 era chamada a responder a três desafios teóricos. Em primeiro lugar, de que modo explicar a marcha irresistível do Ocidente, que com o seu expansionismo colonial subordinava todo o planeta, esmagando até mesmo países de antiquíssima civilização como a China? Em segundo lugar, enquanto triunfava no plano internacional, o Ocidente se via ameaçado internamente pela revolta das massas populares que pela primeira vez irrompiam, e de maneira avassaladora, na cena da história. Pois bem, quais eram as causas desse fenômeno inaudito e aflitivo? Em terceiro lugar, o Ocidente apresentava um quadro bastante diferenciado de país a país. Se na Inglaterra e nos Estados Unidos assistia-se a um desenvolvimento gradual e pacífico em nome de uma liberdade bem ordenada, totalmente diferente era o caso da França: aqui à revolução se sucedia a contrarrevolução, por sua vez varrida por uma nova revolução; a partir de 1789, os mais diferentes regimes políticos (monarquia absoluta, monarquia constitucional, terror jacobino, ditadura militar napoleônica, império, república democrática, bonapartismo) se sucederam um ao outro, sem que jamais se realizasse a liberdade com ordem. Bem, qual era a maldição que pesava sobre a França? A todos estes três desafios teóricos a cultura dominante do século 19 respondia remetendo de um ou outro modo à “natureza”. Para dizer com Disraeli, a raça é “a chave da história”, “tudo é raça e não existe outra verdade”, e a definir uma raça “é só uma coisa, o sangue”; esta era também a opinião de Gobineau. Explicavam-se assim o triunfo do Ocidente ou da superior raça branca e ariana, a revolta daqueles “bárbaros” e “selvagens” que eram os operários e as convulsões incessantes de um país como a França, devastado pela miscigenação. Em outros momentos, a natureza a que se remetia tinha um significado mais brando. Para Tocqueville não havia dúvidas: o triunfo da “raça europeia” sobre “todas as demais raças” era vontade da Providência; a conduta mais ordenada da Inglaterra e dos Estados Unidos era a prova do mais robusto senso moral e senso prático dos anglo-saxões em comparação com os franceses, os quais eram devastados pela loucura revolucionária ou pelo “vírus de uma espécie nova e desconhecida”. Como se vê, o paradigma racial em sentido estrito (caro a Gobineau e Disraeli) tendia a ser substituído pelo paradigma etnológico-racial e pelo psicopatológico. Permanecia a referência a uma “natureza” mais ou menos imaginária e o abandono do terreno da história.

Foi sobre a onda da luta contra esta visão que Marx e Engels elaboraram a teoria da luta de classe. A marcha triunfal do Ocidente não se explicava nem com a hierarquia racial nem com os desígnios da Providência; ela exprimia o expansionismo da burguesia industrial e a sua tendência a construir o “mercado mundial” esmagando e explorando os povos e países mais débeis e mais atrasados. Os protagonistas das revoltas populares no Ocidente não eram bárbaros nem loucos; eram proletários, em seguida ao desenvolvimento industrial, tornavam-se cada vez mais numerosos e adquiriam uma consciência de classe mais madura. Em um país como os Estados Unidos o conflito social burguesia/proletariado era menos agudo, mas somente porque a expropriação e a deportação dos nativos permitia transformar em proprietários de terras uma parte consistente de proletários, enquanto a escravização dos negros tornava possível o controle férreo das “classes perigosas”. Mas tudo isto não tinha nada a ver com um superior senso moral e prático dos americanos, como foi confirmado pela sangrentíssima guerra civil, que entre os anos de 1861 e 1865 viu o confronto entre a burguesia industrial do Norte e a aristocracia proprietária de terras e escravista do Sul e, na última fase do conflito, os escravos (arregimentados no exército da União) contra os seus patrões ou ex-patrões.

Para compreender a ação histórica, é necessário remeter à história e à luta de classes, aliás às “lutas de classes” que assumem formas múltiplas e variegadas, entrelaçam-se umas às outras de modo peculiar e conferem uma configuração sempre diferente às diversas situações históricas.

Critica Liberale: O seu discurso parece, portanto, partir de uma leitura nova do legado de Marx e Engels?
DL: A minha leitura de Marx e Engels pode surpreender, mas releiamos o Manifesto do Partido Comunista: “A história de toda sociedade que existiu até agora é a história das lutas de classes” e estas assumem “formas diversas”. O recurso ao plural faz entender que aquela entre o proletariado e a burguesia ou entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias é apenas uma das lutas de classes. É também a luta de classes de uma nação que sofre a exploração colonial. Não é necessário, enfim, esquecer um ponto sobre o qual Engels insiste de modo particular: “a primeira opressão de classe coincide com aquela do sexo feminino por parte do masculino”; no âmbito da família tradicional “a mulher representa o proletariado”. Estamos, portanto, em presença de três grandes lutas de classes: os explorados e oprimidos são chamados a modificar radicalmente a divisão do trabalho e as relações de exploração e de opressão que subsistem em nível internacional, em um país singular e no âmbito da família.

Critica Liberale: Um discurso que vai longe, mas que pode ajudar a ler o passado com uma ótica nova.
DL: Somente assim podemos compreender o século passado. Nos nossos dias, um historiador de grande sucesso, Niall Ferguson, escreve que na grande crise histórica da primeira metade do século 20, a “luta de classe”, aliás, “a presumida hostilidade entre o proletariado e a burguesia”, tem desempenhado um papel bem modesto; bem mais relevantes teriam sido as “divisões étnicas”. Contudo, argumentando de tal maneira, mantém-se firme no ponto de vista do nazismo que lia a guerra no Leste como uma “grande guerra racial”. Mas quais eram os objetivos reais daqueles? São explícitos os discursos secretos de Heinrich Himmler: “Se não enchermos os nossos campos de trabalho de escravos – neste aspecto posso definir a coisa de modo líquido e claro – de operários-escravos que construam as nossas cidades, os nossos povoados, as nossas fábricas, sem ter em conta as perdas”, o programa de colonização e germanização dos territórios conquistados na Europa oriental não poderá ser realizado. A luta de todo um povo para evitar o destino de escravos sob domínio de uma suposta raça de senhores e patrões é claramente uma luta de classes!

Um acontecimento análogo ocorre na Ásia, onde o Império do Sol Nascente imita o Terceiro Reich e retoma e radicaliza a tradição colonial. A luta de classes de todo um povo que luta para escapar da escravização encontra seu intérprete em Mao Zedong, que em novembro de 1938 sublinha a “identidade entre a luta nacional e a luta de classes” que veio a se produzir nos países contra os quais o imperialismo japonês investiu. Como na Irlanda da qual fala Marx, a “questão social” se apresenta concretamente como “questão nacional”, também na China daquele tempo a forma concreta assumida pela “luta de classes” é a “luta nacional”.

Critica Liberale: A sua interpretação é tão heterodoxa, que poderiam abater-se sobre você, como ocorreu frequentemente no passado, críticas acesas também da parte da esquerda, além daquelas do mundo liberal.
DL: Desafortunadamente, também na esquerda “radical” difundiu-se a visão de que a luta de classes se referiria exclusivamente ao conflito entre o proletariado e a burguesia, entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias. Chama a atenção de modo negativo a influência de uma eminente filósofa, Simone Weil, segundo a qual a luta de classes seria “a luta daqueles que obedecem contra aqueles que comandam”. Não é este o ponto de vista de Marx e Engels. Em primeiro lugar, aos seus olhos, é luta de classes também a que é conduzida por aqueles que exploram e oprimem. Ainda querendo concentrar-se na luta de classes de caráter emancipador, esta pode muito bem ser conduzida do alto, por “aqueles que comandam”. Tome-se a Guerra de Secessão nos Estados Unidos. No campo de batalha se enfrentavam não os poderosos e os humildes, os ricos e os pobres, mas dois exércitos regulares. E, todavia, desde o início, Marx assinalou que o Sul era o campeão declarado da causa do trabalho escravagista e o Norte o campeão mais ou menos consciente da causa do trabalho “livre”. De modo totalmente inesperado, a luta de classes pela emancipação do trabalho tomava corpo em um exército regular, disciplinado e poderosamente armado. Em 1867, publicando o primeiro livro de O Capital, Marx indicava na Guerra de Secessão o “único acontecimento grandioso da história dos nossos dias”, com uma formulação que reclama à memória a definição da revolta operária de junho de 1848 como “o acontecimento mais colossal na história das guerras civis europeias”. A luta de classes, a própria luta de classes emancipadora, pode assumir as formas mais diversas.

Depois da revolução de outubro, Lênin sublinha repetidamente : “A luta de classes continua; apenas mudou a sua forma”. O empenho para desenvolver as forças produtivas, melhorando as condições de vida das massas populares, ampliando a base social de consenso do poder soviético e reforçando a sua capacidade de atração sobre o proletariado ocidental e sobre os povos coloniais, tudo isto constituía a forma nova assumida na Rússia soviética pela luta de classes.

Critica Liberale: Como explicar este impressionante mal entendido da teoria da luta de classes exatamente da parte da esquerda, que sobre a teoria do conflito social construiu boa parte da própria ação histórica?
DL: A esquerda, mesmo a radical, resiste a compreender a teoria da luta de classes em Marx e Engels porque é influenciada pelo populismo. O populismo se apresenta aqui em duas formas conectadas entre si. A primeira já começamos a vê-la: é a transfiguração dos pobres, dos humildes, vistos como os únicos depositários dos autênticos valores morais e espirituais e os únicos possíveis protagonistas de uma luta de classes realmente emancipadora. É uma visão de que o próprio Manifesto do Partido Comunista já zombava, ao criticar o “ascetismo universal” e o “rude igualitarismo” e acrescenta: “nada mais fácil do que dar ao ascetismo cristão uma mão de verniz socialista”. Segundo Marx e Engels, esta visão caracteriza “os primeiros movimentos do proletariado”. Na realidade, esta primeira forma do populismo se manifestou com força na Rússia soviética, quando muitos operários, inclusive filiados ao partido bolchevique, condenaram a NEP como uma traição aos ideais socialistas. Uma réplica de tais processos e conflitos se manifestou na China quando, em polêmica contra a transfiguração do pauperismo e a visão do socialismo como distribuição “igualitária” da miséria, Deng Xiaoping chamou a realizar a “prosperidade comum”, a ser conseguida etapa após etapa (e mesmo através de múltiplas contradições). É nesse quadro que aparece o slogan “Ficar rico é glorioso!”, que suscitou tanto escândalo também na esquerda ocidental.

A segunda forma de populismo encontra sua expressão mais eloquente, e mais ingênua, de novo em Simone Weil quando nos anos 1930 imagina um enfrentamento homogêneo no plano planetário e decisivo de uma vez para sempre: enfrentar-se-iam o “conjunto dos patrões contra o conjunto dos operários”; seria uma “guerra conduzida pelo conjunto dos aparatos do Estado e os estados maiores contra o conjunto dos homens válidos e em idade de empunhar armas”, uma guerra que vê o enfrentamento entre o conjunto dos generais e o conjunto dos soldados! Nesta perspectiva não está mais o problema da análise das formas de luta de classes de tempos em tempos diferentes nas diversas situações nacionais e nos diversos sistemas sociais. Em toda a parte estaria em ação uma única contradição em estado puro: aquela que contrapõe os ricos e os pobres, os poderosos e os humildes.

É evidente a influência que esta segunda forma de populismo continua a realizar ainda nos nossos dias, em particular na esquerda ocidental: quando no afortunadíssimo livro de Hardt e Negri, O Império, lemos a tese segundo a qual no mundo de hoje a uma burguesia substancialmente unificada em nível planetário se contraporia uma “multidão”, esta própria unificada pelo desaparecimento das barreiras estatais e nacionais, quando lemos isto, não podemos deixar de pensar na visão que foi cara a Simone Weil.

Critica Liberale: Esta sua empenhada reconstrução do problema fornece uma chave de leitura para hoje?
DL: Certamente! Permanecem em ação as três formas fundamentais da luta de classes analisadas por Marx e Engels. Nos países capitalistas avançados a crise econômica, a polarização social, a crescente desocupação e precarização, o desmantelamento do Estado social, tudo isto torna agudo o conflito entre o trabalho assalariado e uma elite privilegiada cada vez mais restrita. É uma situação que compromete algumas das conquistas sociais das mulheres, cuja luta de emancipação torna-se particularmente difícil em países que não alcançaram o estádio da modernidade. Quanto ao Terceiro Mundo, a luta de classes continua ainda a manifestar-se em medida considerável como luta nacional. Isto é imediatamente evidente para o povo palestino, cujos direitos nacionais são pisoteados pela ocupação militar e pelos assentamentos coloniais. Mas a dimensão nacional da luta de classes não desapareceu nem sequer nos países que se libertaram da sujeição colonial. Estes são chamados a lutar não contra uma, mas também contra dois tipos de desigualdade: por um lado devem reduzir a disparidade social em seu interior; por outro lado, devem preencher ou atenuar a distância que os separa dos países mais avançados. Os países que, sobretudo na África, descuidaram dessa segunda tarefa e que não compreenderam a necessidade de passar em dado momento da fase militar à fase econômica da revolução anticolonial, tais países não têm nenhuma real independência econômica e estão expostos à agressão ou à desestabilização promovida ou favorecida a partir do exterior.

Temos, portanto, três formas de lutas de classes emancipadoras, entre as quais não há uma harmonia pré-estabelecida: como combiná-las nas diversas situações nacionais e em nível internacional de modo que possamos confluir em um único processo de emancipação, é este o desafio com que tem que se defrontar uma esquerda autêntica.


Tradução: José Reinaldo Carvalho
http://www.zereinaldo.blog.br/

02 janeiro, 2013

Resenha do Prof. Dr. Diego Pautasso sobre A Linguagem do Império e as Relações Internacionais

A LINGUAGEM DO IMPÉRIO E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS LOSURDO, Domenico.
São Paulo: Boitempo, 2010.


Diego Pautasso1










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O livro “A Linguagem do Império”, representa uma importante contribuição para a área de Relações Internacionais. Embora o autor Domenico Losurdo, professor italiano radicado na Universidade de Urbino, seja filósofo, o tema proposto neste livro discute o poder da ideologia e do discurso na imposição de práticas imperiais. O grande mérito da obra é realizar uma crítica contundente dos discursos maniqueístas que se apresentam como universais mas que, na realidade, buscam legitimar a supremacia de determinadas estruturas de poder. Para tanto, o autor recorre à extensa e qualificada bibliografia, e em muitas oportunidades busca explorar as contradições no seio do próprio discurso dominante. A obra aborda seis grandes conceitos e um tema, um em cada capítulo: Terrorismo, Fundamentalismo, Antiamericanismo, Antissemitismo, Antissionismo e Filoislamismo, além do Ódio contra o Ocidente. Cada conceito encerra o caráter polissêmico e ideológico crucial para reafirmar interesses sem produzir reações críticas. O conceito de terrorismo, por exemplo, tornou-se instrumento para desencadear a “guerra ao terror”, mas ao mesmo tempo para esconder a

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desumanização dos presídios de Guantánamo e Abu Ghraib e o massacre contra populações civis iraquianas e afegãs. Quando a prática desumana está associada a quem produz o discurso, naturalmente esta não aparece como “terror”. Foram os casos do uso de violência arbitrária promovida por serviços secretos (CIA) e esquadrões de mortes, por transformação de sociedades em reféns através de embargos, por destruições militares sistemáticas (Dresden, Hiroshima e Nagasaki), entre outras. Ao mesmo tempo, não se percebe o ato de terror como a luta desesperada de quem não possui outros meios, como frequentemente é o caso dos palestinos (LOSURDO, 2010, p. 43). No caso do fundamentalismo, o termo que apareceu, primeiro como autodesignação orgulhosa no coração do Ocidente (EUA), tornou-se categoria chave para relacioná-lo aos “bárbaros”. Para tanto, conforma Losurdo (2010, p. 63; 69), foi crucial associá-lo de forma simplificada à pré-modernidade, assim como dissociar o Ocidente da histórica oposição aos regimes modernizantes no mundo islâmico (Mossadeg no Irã, Nasser no Egito, Arafat na Palestina). Enfim, “a guerra santa do islã apresenta-se como a resposta à guerra santa do Ocidente, que de modo errôneo se arvora em lugar da racionalidade leiga e antidogmática” (LOSURDO, 2010, p. 96). É ilustrativo o tom religioso dos discursos dos presidentes dos EUA acerca da atuação internacional do país, numa simbiose entre missão imperial e fundamentalismo cristão. Na verdade, “estamos na presença de uma tradição política que se exprime com uma linguagem explicitamente teológica” (LOSURDO, 2010, p. 111). Não raro o discurso de líderes norte-americanos se assemelha às palavras de ordem dos grupos rotulados como fundamentalistas inconsequentes. Da mesma forma, os conceitos de antiamericanismo, antissemitismo e antissionismo são mais complexos e difusos do que aparentam. Como exemplo, o autor chama a atenção para o fato que, de um lado, o marxismo (Marx, Engels, Lênin, Gramsci, etc.) possuía notável simpatia pelos avanços produtivos e institucionais do Ocidente e, de outro, os fundamentos do nazismo têm suas bases no white supremacy norte-americano. O Estado racial alemão criou suas bases conceituais e visualizou suas experiências na história dos EUA, isto reconhecido pelos próprios teóricos do nazismo, tais como Himmler. As questões religiosas e raciais também são repletas de complexidade e reviravoltas. As relações judaico-cristãs estiveram imersas em controvérsias. Na

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Idade Média, os judeus foram discriminados negativamente em relação aos cristãos e positivamente em relação aos islâmicos. Judeufobia religiosa e antissemitismo racial evoluíram de forma diferente, ressalta Losurdo (2010, p. 150). Os conceitos e categorias são repletos de metamorfoses e, portanto, oscilam conforme os contextos históricos e as dinâmicas de poder. Com o filoislamismo não é diferente. Ironicamente, houve uma separação dos povos semitas (árabes e judeus): os judeus deixaram de ser minorias perseguidas e viraram “brancos” a pertencer à civilização Ocidental; já os árabes permaneceram “negros”. Como afirma Losurdo (2010, p. 215), “no banco dos réus Alá toma o lugar de Javé”. Não é incomum observar a elite (e a sociedade) israelense reproduzir o racismo colonial de que antes fora vítima, isto é, aniquilar os palestinos com deportação, expropriação e segregação. Outro ponto problematizado por Losurdo refere-se ao suposto ódio contra o Ocidente. O autor começa afirmando que há fraquezas no próprio conceito de Ocidente, pois suas fronteiras foram mutantes e incertas ao longo da história. Na verdade, não é real nem necessária a pretensão de afirmar uma primazia ocidental sobre o mundo. A tentativa de demonstrar a primazia mesclase com concepções racistas que tendem a dividir o mundo em duas esferas: de um lado, bárbaros, terroristas, fundamentalistas, negróides/pardos, autoritários e/ ou islâmicos e, de outro, civilizados, modernos, democráticos, judaico-cristãos, etc. Compreender como conceitos e discursos ocultam e justificam interesses internacionais nem sempre legítimos é a principal contribuição de Losurdo nesta obra. A relação entre valores e discursos universais se contrapõe, de forma complexa e contraditória, com Estados e identidades nacionais. Aliás, com o fim da Guerra Fria, o alargamento conceitual das ameaças à segurança correspondeu também à ampliação dos princípios legitimadores de imposição de interesses pelo recurso à força. Em outras palavras, ‘intervenção humanitária’, ‘ataque preventivo’ e ‘direito de proteger’ tornaram-se instrumentos ideológicos que aprofundaram a arbitrariedade do poder, fragilizaram a soberania dos países menos desenvolvidos e, consequentemente, recrudesceram o etnocentrismo e o chauvinismo exacerbados. É fundamental apreender a problemática sugerida pelo autor e analisar a evolução das relações internacionais. Cabe, pois, terminar com uma longa citação do livro de Losurdo (2010, p. 94; 95; 284) capaz de iluminar nossa reflexão e provocar a leitura integral da obra:

- 144 - SÉCULO XXI, Porto Alegre, V. 2, Nº1, jan-jul 2011

A história coloca-nos continuamente na presença de movimentos nos quais – ainda que de modo confuso, turvo e, às vezes, bárbaro – se agitam aspirações legítimas à independência nacional ou à recuperação de uma identidade cultural e de uma dignidade humana há muito tempo oprimida. [...] Nesse sentido, a regeneração (o processo real de libertação da ocupação estrangeira) une-se a uma reação (a ideologia confusa e turva que acompanha tal processo e que é precursora de sucessivas involuções e regressões). Não satisfeito com seu monstruoso aparato militar, Washington arvora-se também em suprema autoridade moral e religiosa. Desde sempre acostumado a sancionar suas “doutrinas” (a linguagem teológica não é nova), agora, mais do que nunca, prega a cruzada, às vezes no sentido literal do termo, e pretende ter a própria Igreja católica subalterna a ele. As categorias centrais da atual ideologia da guerra são ao mesmo tempo as proclamações de excomunhão do império que aspira a ser mundial.

1 Doutor e Mestre em Ciência Política; graduado em Geografia pela UFRGS. Atualmente, é professor de Relações Internacionais da ESPM-Sul. E-mail: dpautasso@espm.br