04 abril, 2016

Carta aberta aos jornalistas franceses

Postado por forum21 em 28/mar/2016



Caros colegas,
Vivo e trabalho  em Paris há 15 anos, e como colaboradora da mídia brasileira (Carta Maior e Carta Capital), vejo com espanto a parcialidade que a imprensa francesa tem manifestado diante da situação política atual do Brasil, onde um golpe de Estado jurídico-midiático está em curso.
Pude ler artigos na imprensa portuguesa (Politico), na imprensa alemã (Der Spiegel) e na imprensa argentina (Pagina12), além dos excelentes artigos do jornalista americano Glenn Greenwald, na revista online The Intercept. Os jornais franceses (excetuando-se L’Humanité e Mediapart) não estão à altura de sua história e fazem uma cobertura parcial e superficial, limitando-se a seguir a storytelling da imprensa brasileira, que designou como inimigos para serem destruídos a presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores.
Esperávamos do Le Monde e do Libération uma cobertura mais imparcial.
O artigo abaixo, em francês, informa em profundidade a evolução das manifestações de rua e o crescimento de uma direita que ultrapassou todos os limites. Aliados a uma imprensa majoritariamente de direita, segmentos da direita brasileira defendem o ódio e a destituição da presidente eleita, sem que se tenha provado nenhum delito para justificar o processo de impeachment.
http://www.cetri.be/Un-Tea-Party-tropical-La-montee-en?lang=fr

Abaixo pode ser encontrado o  link do jornal alemão Der Spiegel que relata com precisão  a crise política brasileira.
http://www.spiegel.de/politik/ausland/brasilien-hexenjagd-auf-lula-ein-kalter-putsch-kommentar-a-1083218.html
O filósofo Vladimir Safatle publicou na Folha de São Paulo um artigo que resume a percepção de toda a esquerda brasileira : um golpe de Estado está em marcha.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2016/03/1753928-um-golpe-e-nada-mais.shtml

A carta de solidariedade com o presidente Lula, uma iniciativa do Forum21, foi assinada por diversos intelectuais franceses entre os quais Etienne Balibar:
Alba Carosio (Universidade Central da Venezuela)
Angel Quintero Rivera (Universidad de Puerto Rico)
Aníbal Quijano (Sociólogo, Peru)
Arturo Escobar (Universidade da Carolina do Norte, EUA)
Atilio Borón (sociólogo argentino)
Baltazar Garzón (Juiz aposentado, Espanha)
Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal)
Carmen Beramendi (Diretora da FLACSO, Uruguai)
Daniel Filmus (Ex-ministro da Educação, Argentina)
Domenico Losurdo (Filósofo italiano)
Eduardo A. Rueda (Professor da Pontificia Universidad Javeriana, Colômbia)
Eduardo Rinesi (Ex-reitor da Universidade de General Sarmiento, Argentina)
Fernanda Saforcada (Diretora Académica do Clacso, Argentina).
Fernando Mayorga (Universidad Mayor de San Simón, Bolivia)
Florencia Saintout, (Universidade Nacional de La Plata, Argentina)
Gabriela Diker (Reitora da Universidad de General Sarmiento, Argentina)
Gerardo Caetano (Universidad de la República, Uruguai)
Horacio A. López. (Subdiretor Centro Cultural de la Cooperación, Argentina.)
Ignacio Ramonet (Jornalista, França)
Jorge Beinstein (Economista, Argentina)
Juan Carlos Monedero (Universidade Complutense, Espanha)
Julian Rebon (Membro do Comitê Diretivo do Clacso, Argentina)
Leonardo Padura (Escritor Cubano)
Leticia Salomón (Universidad Nacional Autónoma de Honduras)
Luciano Concheiro (Universidad Autónoma de México)
Mario Burkun (Economista, Argentina)
Nicolás Trotta (Reitor da UMET, Argentina)
Pablo Gentili (CLACSO, Argentina)
Pablo González Casanova (Universidad Nacional Autónoma do México)
Partito della Rifondazione Comunista (Partido italiano)
Pierre Laurent – Secretario Nacional do PCF e Presidente do Partido da esquerda Européia
Raúl Zaffaroni (Ex-juiz da Suprema Corte de Justiça, Argentina)
Rita Segato (Intelectual feminista, Argentina)
Suzy Castor (CRESFET, Haití)

Assina,
Leneide Duarte-Plon

 http://www.forum21.org.br/2016/03/28/carta-aberta-aos-jornalistas-franceses/

26 fevereiro, 2016

Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra

Domenico Losurdo: Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra


25 de fevereiro de 2016
 Tradução de Marcos Aurélio Silva. Prof. dos cursos de graduação e pós-graduação em geografia da UFSC.


A China representa mesmo uma ameaça geopolítica para os Estados Unidos e os países que com ela fazem limite na região do Pacífico? Publicamos a seguir um excerto do livro de Domenico Losurdo, La Sinistra assente: crisi, società dello spettacolo, guerra (Carocci, 2014), que analisa algumas questões da assim chamada “ameaça chinesa”.

O pivô asiático*

O “pivô” é frequentemente apresentado no Ocidente como uma resposta à “ameaça” proveniente de Pequim. Não há dúvida que com a ascensão ou, mais exatamente, com o retorno da China, depois do fim do “século das humilhações”, e com o avanço do processo de maturação da República Popular, o quadro internacional está mudando de modo radical. Em março de 1949 o general estadunidense MacArthur podia constatar satisfeito: “agora o Pacífico tornou-se um lago Anglo-saxão” (Kissinger, 2011, p. 125). Dadas as relações de força existentes, os EUA podiam ter esperanças de bloquear com suas intervenções a chegada ao poder do partido comunista e de Mao Tsé-Tung; a esperança tornou-se rapidamente desilusão e em Washington, em meio a furiosas polêmicas, se desencadeava a caça ao responsável pela “perda” do grande país asiático.

Por Domenico Losurdo**

O pacífico não era mais em sentido estrito “um lago Anglo-saxão” mas, como sabemos, ainda ao cabo da Guerra Fria os Estados Unidos violavam sem dificuldade o espaço aéreo e marítimo chinês. Eram os anos em que a superpotência já solitária buscava consolidar e tornar permanente e inabalável a sua já clara superioridade militar mediante a Revolution in Military Affairs. Esta conhecia o seu batismo de fogo no curso da primeira guerra do Golfo: embora armado em medida não desprezível, o Iraque de Saddam Hussein sofria uma derrota rápida e irreparável. Era um sinal de alarme sobretudo para os países que há pouco se haviam impetuosamente liberado do jogo colonial.

Em Pequim, em junho de 1991, Jiang Zemin (2010, pp. 134, 136 e 591) exprimia a sua preocupação: “Se em todo o caso uma guerra mundial não é iminente, o mundo está bem longe de ser pacífico”; “particularmente preocupante é a Guerra do golfo”. “O papel da tecnologia militar tornou-se uma questão importante”: no que diz respeito à China, em certos setores do aparato militar “o gap se está agravando”. É um conceito reafirmado e melhor definido cinco anos depois: “a aplicação em larga escala de novas e sofisticadas tecnologias está mudando profundamente o mundo no plano não só social e econômico, mas também militar, e está introduzindo mudanças revolucionárias nesta área”.

A ausência da primeira revolução industrial e tecnológica tinha assinalado o início do “século das humilhações”; a ausência da revolução industrial, tecnológica e militar em curso levaria a uma repetição desta tragédia talvez em escala ainda maior. Neste quadro é que devem ser inseridos os esforços desenvolvidos pela China nos últimos anos para reduzir o seu atraso no plano militar.

Ameaça chinesa?

Argumento de fábula política no passado mais recente, a “ameaça chinesa” ganhou subitamente uma dimensão real e concreta em nossos dias? Damos a palavra a um estudioso estadunidense de origem chinesa, autor de um livro publicado por uma instituição de certo modo oficial do país guia do Ocidente (Strategic Studies Institute, U. S. Army War College). Pois bem, nesse estudo podemos ler que, segundo alguns analistas, os mísseis chineses poderiam “obrigar a Marinha estadunidense a operar a uma maior distância da costa [chinesa], ao menos na fase inicial do conflito” (Lai, 2011, p. 217). Sendo assim, se pode entender as amarguras de Washington pelo fato de que o Pacífico não é mais (na sua parte ocidental) “um lago Anglo-saxão”, aliás um “lago privado” (DYER, 2014, p. 2), ou não é mais assim tão fácil violar o espaço territorial, aéreo e marítimo do grande país asiático; e  todavia seria simplesmente temerário falar de “China Threat” ou do “perigo amarelo”! Atualmente, a marinha militar estadunidense, que goza de uma esmagadora superioridade, “opera a poucas milhas de distância de muitas das mais importantes cidades chinesas” (Dyer, 2014, p. 1). Se isso é sinônimo de “ameaça chinesa”, o que se deveria dizer de uma situação inversa, segundo a qual uma superior marinha militar chinesa tivesse sob controle e ameaça, a poucas milhas de distância, São Francisco e Nova Iorque? Na realidade, nas páginas do Foreign Affairs, o autor do artigo que já conhecemos sobre a capacidade alcançada pelos EUA de lançar um primeiro golpe nuclear, sublinha satisfeito “o passo glacial da modernização das forças nucleares chinesas”: portanto, “as probabilidades de que Pequim adquira no próximo decênio um poder nuclear dissuasor capaz de sobreviver são mínimas […] Contra a China os Estados Unidos têm hoje uma capacidade de lançar o primeiro ataque e estarão em condições de manter esta capacidade ainda por um decênio ou mais” (Lieber, Press, 2006, pp. 43 e 49-50).

Mas como explicar então os conflitos em torno de algumas ilhas localizadas no Mar Chinês Oriental e no Mar Chinês Meridional? Retomamos a leitura do estudo publicado pelo Strategic Studies Institute: “A China tem uma longa história de pescadores que pescavam nestas águas assim como de reivindicações oficiais destas ilhas. Presumivelmente, os chineses primeiro deram a elas um nome, as utilizaram como pontos de referência para a navegação, tentaram designá-las como território chinês colocando-as sob jurisdição das províncias costeiras meridionais e definindo-as como tais sobre um mapa. Por séculos os chineses deram como certo que este certificado histórico (historical reach) estabelecia a sua propriedade sobre estas ilhas e suas águas circundantes” (Lai, 2011, p. 127).

Intervieram depois o declínio da China e o expansionismo colonial: “nos anos 30 os franceses tomaram posse das ilhas Paracelso (Xisha em chinês) e Spratly (Nansha em chinês) de modo a expandir o alcance do seu protetorado colonial”, enquanto “durante a segunda guerra mundial o Japão assume o controle de todas as ilhas do Mar Chinês Meridional” (Lai, 2011, p. 128). Com a Declaração do Cairo (1943) e a proclamação de Potsdam (1945) o Japão se empenhava a restituir todos os territórios que “havia roubado”. Mas, depois da eclosão da Guerra Fria, à Conferencia de Paz de Paz de São Francisco não foram convidadas nem a República popular chinesa nem a República chinesa (Taiwan); o Japão, aliado aos EUA, podia assim reter as ilhas Senkaku (Diaoyu para os chineses).

Elas deveriam ter sido restituídas, mas nas novas circunstâncias eram de grande utilidade, funcionando como uma pistola apontada contra o inimigo saído de uma grande revolução anticolonial e inspirador na Ásia de uma ulterior onda de revoluções anticoloniais. Dava prova de precaução o primeiro ministro Zhou Enlai, que às vésperas da conferência condenava os EUA pelo fato “de privar a China do seu direito a recuperar os territórios perdidos” e “de lançar um tratado para a guerra, não para a paz, no Pacífico Ocidental” (Lai, 2011, p. 129).

Vale a pena notar que em relação às ilhas contestadas a República popular chinesa não assume uma posição diversa daquela da República da China (Taiwan). Aliás, esta última tem dado prova de maior firmeza, a julgar pela fonte estadunidense mais vezes citada: “Em 1946, o governo da República da China enviou navios de guerra para ‘recuperar’ as ilhas Paracelso e Spratly. Em um mundo que enfatizava o controle de fato mais que as reivindicações históricas, a China teria podido manter ali as suas tropas a fim de exercer o controle de fato sobre aqueles territórios e afirmar resoluta e incontestavelmente a posse daquelas ilhas. Por ter deixado de fazer isso e ter negligenciado por decênios as ilhas do Mar Chinês Meridional os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) devem eles próprios se penitenciar (…) Os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) gastaram todo o seu tempo e todas as suas energias jogando os chineses uns contra os outros em ‘perpétuas revoluções e lutas de classe’, enquanto deixavam abandonados os territórios contestados em mar aberto” (Lai, 2011, p. 130).

Pequim x Tóquio

Particularmente intratável é o conflito entre China e Japão, mas é este último a tê-lo provocado. Essa verdade emerge das próprias análises dos jornalistas e estudiosos ocidentais: é “razoável” a reivindicação avançada por Pequim acerca da ilha Diaoyu (ou Senkaku); e se trata de uma reivindicação levada adiante por toda a nação chinesa, que aliás reprova os seus governantes por assumirem um comportamento “muito conciliador e mole” (Kristof, 2013). Não obstante isso – sublinha um sociólogo britânico – a China se contentaria em definir como “contestada” a propriedade daquelas ilhas, postergando a solução do problema às futuras gerações.  Se trata de uma proposta já avançada em seu tempo por Zhou Enlai e inicialmemte aceita pelo Japão, que agora ao contrário a rejeita secamente. É uma “loucura” que se explica com a onda chauvinista que sacode o país (Dore, 2013). Trata-se de uma nação – vale acrescentar – que tem dificuldade de fazer as contas com o seu passado. Em 1965, enquanto se desencadeava a agressão contra o Vietnã, o primeiro ministro japonês Eisaku Sato solicitava ao secretário estadunidense para a defesa, Robert McNamara, que fizesse recurso à arma nuclear no caso de guerra contra a China, culpada por ajudar o Vietnã (International Herald Tribunne 2008). Nos nossos dia, encorajado pelo apoio dos EUA e pelo “pivô” antichinês por ele encenado, o governo japonês se obstina em um negacionismo que, em razão do seu radicalismo, termina por inquietar até mesmo Washington. De qualquer modo, em tudo pretensiosa se revela a palavra de ordem da “China Threat” (ou do “perigo amarelo”): na realidade, ela é uma completa deformação da verdade. O fato é que não podemos considerar definitivamente concluída a luta de liberação nacional que presidiu o nascimento da República popular chinesa. Não se trata só de Taiwan. Ecoam insistentes as vozes que preveem ou desejam para o grande país asiático um fim análogo àquele que sofreu a União Soviética ou a Iugoslávia: “uma nova fragmentação da Cinha é o desfecho mais provável” – anunciava um livro de sucesso publicado em Nova Iorque no ano mesmo da implosão do país derrotado no curso da Guerra Fria (Friedman, Lebard, 1991).

A hipótese da desintegração

A partir de então, nos EUA e nos países que com ele formam aliança, se multiplicaram as tomadas de posição de analistas, estrategistas, políticos, homens de Estado que previam ou invocavam a “fragmentação do colosso chinês”, o seu desmembramento em “sete chinas” ou em “muitas Taiwans”. O ideal seria proceder a uma “desintegração do interior” (desintegration from within). Em todo caso Washington é chamada a “afrontar de maneira mais coerente a futura fragmentação da China”. Estamos em presença de uma campanha que se move em várias frentes: dá o que pensar o prêmio conferido pelo Los Angeles Times a um livro que invoca o retorno à China da dinastia Ming (que teve o seu fim em 1644), com a exclusão consequentemente do Tibet, de Xinjiang, da Mongólia interior e da Manchúria. Mas, obviamente, o autor aqui citado tem em mira só a República popular chinesa: assim, junto a séculos de história, deveria ser posta em discussão uma parte bastante considerável (mais ou menos a metade) do seu atual território. Ainda além vai um outro livro aclamado no Ocidente (Ross Terril, 2003, The New Chinese Empire And What It Means for the United States): se deve contrastar o governo de Pequim também a propósito da “invenção de uma única etnia de chineses Han”; na realidade no seu interior subsistem notáveis diferenças no que diz respeito a esta mesma língua, e portanto…

Às vezes, o desejo de se livrar de um potencial concorrente prefere se camuflar de previsão histórica: “Alguns experts têm mesmo profetizado o repetir-se de um daqueles ciclos históricos em que se assistiu ao desmembramento do país, que faria desvanecer os sonhos de grandeza da China” (Brzezinski, 1998, p. 218).

Qualquer que seja a linguagem utilizada, estamos diante de um objetivo perseguido independentemente da política posta em prática pelo governo de Pequim no plano nacional e internacional: em 1999, o ano do bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado, um expoente de relevo da administração estadunidense declarava que, só por sua “dimensão”, a China constituía um problema ou uma potencial ameaça (Richardson, 1999). Não admira então que, ao receber o Prêmio pela Paz dos livreiros alemães, o “dissidente” chinês Liao Yiwu tenha pronunciado um discurso cuja palavra de ordem, em relação ao seu país, era: “Este Império deve acabar em pedaços” (auseinanderbrechen) (Köckritz, 2012). Como se vê, o desmembramento da China, uma vez alcançado, seria considerado uma contribuição à causa da paz! Resta o fato que é o país para o qual se projeta, ou se invoca ou se sonha o desmembramento, aquele que está realmente sendo ameaçado.


* Excerto publicado no site “Il Caffè Geopolitico”, 5 de fevereiro de 2016. O livro de Domenico Losurdo onde estão publicadas originalmente estas páginas (La Sinistra Assente: crisi, società dello spettacolo, guerra) está sendo vertido para o português, sob os cuidados de outro tradutor, pela editora Anita Garibaldi em parceria com a Fundação Maurício Grabois, com previsão de lançamento ainda para este ano.
** Domenico Losurdo é prof. emérito de História da Filosofia na Universidade de Urbino (Italia).

Referências
Brzezinski, Z. K. (1998). La grande sacchiera. Longanesi, Milano.
Dyer, G. (2014) US vs. china: is this the new cold war, in Financial Times, 22-23 febbraio, pp. 1-2.
Dore, R. (2013) Isole conteste, ecco perchè Tokyo sbaglia, in La Lettura, suplemento al “Corriere della Sera”, 8 dicembre., p. 5.
Friedman, G. Lebard, M. (1991) The Coming War with Japan. St. Martin Press, New York.
Kinssinger, H. (2011) On China. The Peguim Press, New York.
Kristof, N. D. (2011) Bahrain pulls a Qaddafi, in: International Herald Tribune, 18 marzo, p. 7.
Köcritz, A. (2012) Zwei gute Störer, in Die Zeit, 14 marzo, p. 53.
Lai, D. (2011) The Unite States and China in Power Transition. Strategic Studies Institute, Carlisle, p. 9.
Lieber, K. A., Press, D. G. (2006) The Rise of U. S. Nuclear primacy in “Foreign Affairs”, marzo-aprile, pp. 42-54.
Richardson, M. (1999) Asia Looks to Zhu for Sing of Backing Off On Spratlys, in: International Herald Tribune, 22 novembre, p. 5
Zemin, J. (2010) Selected Works, I, Foreign Languages Press, Beinjing

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26 outubro, 2015

Carta Maior - Domenico Losurdo: 'Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro

Domenico Losurdo: 'Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro'

O mesmo sistema de pensamento e práxis que gerou a crise está encarregado de explicá-la, graças a essa 'ausência' da esquerda.


Marcelo Justo
Wikimedia Commons
Autor de uma dúzia de livros essenciais, entre eles “A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra”, recém apresentado em Barcelona, Domenico Losurdo é uma referência da esquerda italiana e europeia, capaz de questionar não só as limitações analíticas de um marxismo vulgar como também o eurocentrismo que domina com frequência a reflexão europeia. Em diálogo com a Carta Maior, o filósofo italiano vinculou seu último livro com um dos grandes mistérios da história dos nossos dias: o impacto político do colapso financeiro de 2007-2008.
 
A quebra do banco Lehman Brothers e a crise do sistema financeiro internacional gerou um debate sobre o capitalismo como não se via desde a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética. Na cúpula do G20 de abril de 2009, em Londres, o então presidente estadunidense Barack Obama criticou os excessos de Wall Street, enquanto seu colega francês Nicolas Sarkozy falou da necessidade de refundar o capitalismo e acabar com a era dos paraísos fiscais.
 
Hoje, esse discurso parece uma alucinação de uma memória com febre. A recuperação liderada pela China, com o gigantesco investimento estatal que ativou sua economia e insuflou a demanda mundial, criou a ilusão de um capitalismo capaz de ressurgir eternamente das cinzas. A esquerda, que ainda não havia se recuperado da desorientação deixada pela queda do muro de Berlim, não pode ou não soube aproveitar aquele momento. “Mas a crise não acabou. Não é questão de pensar em paralelos simples, mas recordemos que a de 29 só terminou com a segunda guerra mundial. Hoje, vemos também que a crise não é só econômica, mas também política, como se vê com a União Europeia. Além disso, há um estado de guerra, como vemos na Síria e na Líbia, que tem levado muitos observadores a pensar que existe um grande perigo bélico. A esquerda tem que lidar com todas essas situações ao mesmo tempo: a econômica e social, a política e a bélica”, comentou Losurdo à Carta Maior.

Por quê a esquerda está “ausente”?

O grande problema é que, como diz Losurdo já no título do seu último livro, a esquerda está “ausente”, ou seja, que fugiu do debate público, deixando em seu lugar “o pensamento único neoliberal e neocolonialista”. Em outras palavras, o mesmo sistema de pensamento e práxis que gerou a crise está encarregado de explicá-la, graças a essa “ausência” da esquerda.
 
Losurdo reconhece que, nos últimos anos, essa esquerda “ausente” começou a despertar na Europa. O Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha e Jeremy Corbyn no Reino Unido são expressões desse primeiro despertar. “Mas acho que, em todos os casos, ainda não compreenderam a fortaleza do ataque contra o Estado de bem-estar. É um ataque furibundo, que requer uma resposta coordenada”, afirmou ele.
 
Em sua análise, o bem-estar se tornou o equivalente a um bastão essencial numa guerra, a praça que não pode se render, porque levaria à queda de todas as outras. “É paradoxal, porque o bem-estar surgiu como resultado de uma situação nacional e internacional, como uma tentativa de frear as forças de esquerda. No final da Segunda Guerra Mundial, tínhamos uma União Soviética muito prestigiada e forças de esquerda com muito poder em diversos países europeus. O Estado de bem-estar foi a resposta capitalista a esses dois fenômenos. A situação atual é outra. Não existe União Soviética, a esquerda está ausente e a burguesia não tem nenhuma razão para manter esta instituição, por isso a está desmantelando”.
 
Diferente de outros pensadores da esquerda europeia, Losurdo é muito consciente do problema neocolonial. Em seus textos, qualificou a luta anticolonial como uma “luta de classes” e reclamou do fato de a própria esquerda não prestar a devida atenção ao tema. “Necessitamos um novo bloco histórico que lute contra o neocolonialismo que vemos nas guerras que estão acontecendo no Oriente Médio. Uma união de forças, da classe trabalhadora e de países emergentes como China, Brasil, Rússia e outras nações que devem se unir para combater o projeto capitalista-imperialista”, analisou Losurdo.

América Latina e a sociedade do espetáculo

Com relação à América Latina, que tem estado na vanguarda deste questionamento do pensamento único neoliberal no Século XXI, Losurdo vê luzes e sombras. “Há uma ofensiva imperialista na América Latina. Os Estados Unidos não quer abandonar a Doutrina Monroe, da América para os americanos. O golpe na Venezuela, em 2002, é um exemplo. Mas a esquerda latina também cometeu erros. O caso que conheço melhor é o mesmo caso venezuelano. Creio que Chávez fez algo muito importante, ao acreditar num Estado de bem-estar com o dinheiro do petróleo que antes era administrado pela oligarquia venezuelana, mas o seu limite foi ter se centrado na redistribuição, sem mudar o modelo de produção de riqueza. Nisso, a América Latina deveria olhar melhor o exemplo chinês”, afirma.
 
O livro de Losurdo tem como subtítulo “crise, sociedade do espetáculo, guerra”. O conceito de “sociedade do espetáculo” vem de um pensador francês, Guy Debord – que, em 1967, captou o surgimento de um fenômeno que nasceu com a televisão e o consumo, que começava a transformar a realidade na representação-espetáculo. Debord não sabia da internet e mal podia suspeitar do predomínio brutal que o mundo da imagem alcançaria sobre o da palavra décadas mais tarde. “É um obstáculo que a esquerda tem que superar para manter a solidariedade e o Estado de bem-estar. É algo que analiso em meu livro. A classe dominante conquistou não só o monopólio da riqueza e das ideias, mas também o das emoções. Nesse aspecto, creio que esta sociedade do espetáculo é ao mesmo tempo a sociedade da guerra em que se manipula a opinião pública. A situação do Oriente Médio deve ser entendida neste sentido”.
 
Na longa conversa telefônica com a Carta Maior, fica claro, porém, que o centro da reflexão de Losurdo é esta misteriosa “ausência” da esquerda, capaz de convertê-la num “fantasma” que, longe de percorrer a Europa para mudá-la como na frase inicial do “Manifesto Comunista” de Marx e Engels, busca se acomodar no interior da União Europeia neoliberal para não ficar de fora. Segundo o intelectual italiano, esse é o grande desafio. “Um dos problemas do Podemos na Espanha é quando se colocam como algo além da esquerda e da direita. Não dizem algo novo. Mas dizem algo perigoso. Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro. Quando o pensamento dominante busca que a esquerda tenha a mesma visão do Século XX que eles, essa esquerda deve perceber que isso se trata de uma grave capitulação histórica e ideológica, que prepara uma capitulação política para a transformação do presente”, disse ele à Carta Maior.
 
Tradução: Victor Farinelli

Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Domenico-Losurdo-Se-repudiamos-nosso-passado-de-esquerda-desistimos-do-nosso-futuro-/6/34835

22 julho, 2015

LOSURDO, Domenico. Rivoluzione d’Ottobre e democrazia nel mondo. Tradução para Língua Portuguesa de Marcos Aurélio da Silva

LOSURDO, Domenico. Rivoluzione d’Ottobre e democrazia nel mondo. La Scuola di Pitagora: Napoli, 2015. 25 p. Tradução portuguesa de Marcos Aurélio da Silva.

REVOLUÇÃO DE OUTUBRO E DEMOCRACIA NO MUNDO
É a tradução de um recente artigo do filósofo italiano Domenico Losurdo, professor emérito da Universidade de Urbino (IT), que gentilmente cedeu a licença para esta publicação. Publicado ainda este ano como livreto pela editora La Scuola di Pitagora, o texto resulta da reelaboração de uma Conferência pronunciada pelo autor no ano de 2007, na livraria Feltrinelli da cidade de Nápoles, no âmbito do Ciclo I Venerdì della politica ‒ Cos’ è la democrazia (As sextas-feiras da política – O que é a democracia), promovido pela Società di studi politici – Scuola di Alta Formazione dell’Istituto Italiano per gli Studi Filosofici.

Texto completo: PDF/A



R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, SC, Brasil, eISSN 1807-1384

https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/1807-1384.2015v12n1p361

23 junho, 2015

Domenico Losurdo faz conferência no Rio e debate marxismo e disputas ideológicas

 
Foto: Pedro Rocha
Foto: Pedro Rocha

Com o auditório do Conselho Regional de Economia do Estado do RJ (Corecon) lotado de sindicalistas, jovens e intelectuais, foi realizado pela Fundação Mauricio Grabois, na segunda-feira (22) a conferência: Marx e o balanço histórico do século 20 com o filósofo Domenico Losurdo. Uma das grandes lideranças da esquerda brasileira e líder do PCdoB na Câmara Federal, Jandira Feghali ressaltou que “esses encontros têm que ser intensificados para que a sociedade brasileira tenha condições de encontrar alternativas para se contrapor as agendas dos grupos políticos de direita que ostentam o ódio e a exclusão social”.
Sobre as relações de poder que remetem ao colonialismo, Losurdo afirmou que “em nossos dias, os elementos de conflito presentes neste processo, longe de se atenuarem, resultam nitidamente mais acentuados. O Manifesto do Partido Comunista fez a sua análise num momento em que nenhum movimento emancipador despontou nas colônias: em tais condições, a globalização é, ou parece ser, uma relação mais ou menos equânime entre países com um grau de desenvolvimento mais ou menos homogêneo, agora, ao contrário, ocorre que a globalização é também um instrumento com que as grandes potências tratam de recuperar o controle da economia dos países que sacudiram o jugo colonial”.
Para a parlamentar, a palestra de Losurdo evidência os verdadeiros portadores dos movimentos libertários pelo mundo. “Esse encontro é de suma importância para enfrentarmos o senso comum de que a direita, os liberais são os verdadeiros protetores da liberdade e da justiça social. A intervenção do filósofo mostra justamente o contrário. São os comunistas e marxistas, que através das revoluções socialistas, trouxeram novos conceitos de liberdade e a disposição de estarem sempre à frente na luta pela fim da exclusão social”.
Em seu livro, “Marx e o balanço histórico do século 20”, o Domenico destacou, entre outras questões, a avaliação de Lênin sobre a questão do imperialismo.“ A partir da análise do imperialismo, Lênin sublinha a importância da questão nacional inclusive para além da Europa e do Ocidente: o movimento de libertação dos povos coloniais é parte integrante do processo revolucionário mundial pela democracia e o socialismo”.
Losurdo fez o lançamento de dois de seus livros: “Marx e o balanço histórico do século XX”, da Editora Anita Garibaldi, e “A luta de classes: uma história política e filosófica”, da Boitempo Editorial.
O evento fez parte de uma extensiva agenda do italiano pelo Brasil, desde o dia 10 de junho, quando participou do Seminário Internacional Cidades Rebeldes, no Sesc Pinheiros, prosseguindo por conferências em Santo André (SP), São Paulo (SP) e São Luís (MA). No dia seguinte ao debate no Corecon-RJ, Losurdo prosseguiu para Universidade Federal Fluminense em Niterói.
Estiveram presentes o presidente estadual do PCdoB, João Batista Lemos; o presidente estadual da CTB, Ronaldo Leite; e várias lideranças dos movimentos sociais, sindicais e estudantis. 

 http://sigajandira.com.br/site2/domenico-losurdo-faz-conferencia-no-rio-e-debate-marxismo-e-disputas-ideologicas/

22 junho, 2015

Em auditório lotado, Domenico Losurdo lança livro na FSA

Ouça a entrevista: http://www.fsa.br/imprensa/not%C3%ADcias/item/323-em-audit%C3%B3rio-lotado,-domenico-losurdo-lan%C3%A7a-livro-na-fsa


Domenico Losurdo
No último sábado, 13 de junho, o filósofo italiano, Domenico Losurdo, palestrou no auditório da FAFIL, que estava completamente lotado. O evento marcou também o lançamento de suas obras mais recentes: A Luta de Classes - Uma História Política e Filosófica e Marx e o Balanço Histórico do Século XX, pela Editora Bontempo, e da Revista Cadernos de Ciências Sociais, n. 4, editada pelo Colegiado de Ciências Sociais da FSA. Com um sotaque italiano muito característico, somado aos gestos comuns com as mãos, que marcam os italianos quando falam, seu discurso foi traduzido simultaneamente por um intérprete que procurava passar a mesma emoção apresentada pelo palestrante.
(veja as fotos do evento) 
Esquerda brasileira e europeia - Perguntado pela FSA sobre as diferenças da "esquerda" brasileira em relação à europeia, o filósofo afirmou que na Europa, a esquerda ainda sofre as consequências da queda do Muro de Berlin em 1989. Para ele, desde então, a esquerda sofreu, e ainda tenta se recuperar. Losurdo não vê uma luta anti-imperialista na Europa, como acontece no Brasil e na América do Sul. "No Brasil, é o contrário. É muito forte o envolvimento contra o imperialismo, e isto não existe mais na Europa neste momento", comentou.
Sobre as imigrações ilegais na Europa – A reportagem da FSA perguntou ao filósofo sobre o papel dos partidos de esquerda para apoiar a onda de imigrantes ilegais na Europa, pois somente no primeiro trimestre deste ano, cerca de 60 mil pessoas chegaram ilegalmente à Europa, tudo isso causado pelos conflitos no Oriente Médio (em especial o caos na Líbia e Síria); a pressão demográfica na África; a crescente capacidade da indústria dos traficantes de pessoas e as próprias dificuldades da UE para administrar este problema.
Losurdo informou que há muita confusão na esquerda neste momento sobre este tema. "A Europa tem uma obrigação com estes povos, uma obrigação história e moral com todos os povos que estão sofrendo. Os Estados Unidos e a Europa devem ajudá-los por conta das guerras que promoveram nestes países", disse.
O filósofo afirmou ainda que a única solução para estes países é por meio de um desenvolvimento econômico e social. "Deve acontecer um espírito de solidariedade para com estes imigrantes e a obrigação da esquerda é a de expressar toda a solidariedade e também a de acompanhar para que seja construído um desenvolvimento real nestes países, mas sem as ameaças de intervenção da OTAN", finalizou.


Encontro do PCdoB com Domenico Losurdo




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Encontro do Professor Domenico Losurdo com Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, na sede nacional do Partido em São Paulo no dia 15 de junho, por ocasião da palestra de um dos mais respeitados filósofos marxistas da atualidade. Desde 1988 preside a Internationate Gesellschaft Hegel-Marx (Sociedade Internacional Hegel-Marx para o pensamento dialético) e é membro fundador da Associação Marx Século XXI. Lecional filosofia da história na Universidade de Urbino e possui uma obra monumental e é um dos estudiosos italianos mais traduzidos no mundo.
Losurdo — ao final de sua palestra sobre “Lênin, o imperialismo e as guerras”, lançou seu livro “Marx e o balanço histórico do século XXI”, publicado pela Editora Anita Garibaldi e a Fundação Maurício Grabois.
Participaram do encontro com o professor Losurdo também o presidente da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro e o diretor da Fundação, Pedro Oliveira.

Domenico Losurdo faz palestra e lança livro na sede do PCdoB

O filósofo marxista italiano Domenico Losurdo ministrou nesta segunda (15), a Palestra "Lênin, o imperialismo e as guerras", na sede do PCdoB, em São Paulo. O evento, organizado pela Fundação Maurício Grabois e pela Sociedade Amigos de Lênin, também marcou o lançamento dos seus livros “Marx e o balanço histórico do século 20” e “A luta de classes: uma história política e filosófica”. Antes, Losurdo foi recebido pelo secretariado do PCdoB, e pela presidenta nacional do Partido, Luciana Santos.



Foto: Joanne Mota
   
O pensador italiano é, desde 1988, presidente da "Sociedade internacional Hegel-Marx para o pensamento dialético". Ele também é membro fundador da "Associação Marx Século 21" e professor de filosofia da história na Universidade de Urbino. Com diversos livros lançados, Losurdo possuiu uma obra vasta, tendo sido traduzido para inúmeras línguas.

Em seu livro, “Marx e o balanço histórico do século 20”, o filósofo destaca, entre outras questões, a avaliação de Lênin sobre a questão do imperialismo.

“A partir da análise do imperialismo, Lênin sublinha a importância da questão nacional inclusive para além da Europa e do Ocidente: o movimento de libertação dos povos coloniais é parte integrante do processo revolucionário mundial pela democracia e o socialismo”.

O pensador italiano diz ainda que “Lênin compara a luta da jovem Rússia soviética contra a agressão imperialista alemã ao combate que, outrora, a Prússia conduzira contra a invasão e ocupação napoleônica”.

Sobre as relações de poder que remetem ao colonialismo, Losurdo afirma que “em nossos dias, os elementos de conflito presentes neste processo, longe de se atenuarem, resultam nitidamente mais acentuados. O Manifesto do Partido Comunista faz a sua análise num momento em que nenhum movimento emancipador desponta nas colônias: em tais condições, a globalização é, ou parece ser, uma relação mais ou menos equânime entre países com um grau de desenvolvimento mais ou menos homogêneo, Agora, ao contrário, ocorre que a globalização é também um instrumento com que as grandes potências tratam de recuperar o controle da economia dos países que sacudiram o jugo colonial”.

Durante o evento desta segunda-feira (15), ele lembrou também que o colonialismo formal, o político, pode até não existir mais, mas outra forma de colonialismo segue vigente, o econômico.

Losurdo explicou que, muitas vezes, certos historiadores tentam apresentar o surgimento das duas grandes Guerras Mundiais como um acaso quando, na verdade, os conflitos tiveram matriz na postura de nações imperialistas.

O caso dos chineses, que lutaram na época da Segunda Guerra contra o colonialismo japonês, é emblemático, tornando-se referência da luta anti-imperialista no mundo todo.

O filósofo participará ao longo dos próximos dias de diversas atividades ainda como parte da divulgação de seus livros no Brasil.

Nesta terça-feira (16) haverá a conferência “A luta de classes: uma história política e filosófica” na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na quinta (18), ele estará no Maranhão, onde faz a conferência magna na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e nos dias 22 e 23, Losurdo falará sobre seu trabalho no Rio de Janeiro. 



Do Portal Vermelho, Tayguara Ribeiro

Domenico Losurdo no Brasil - 2015 - Em São Luís, Losurdo desconstrói mitos liberais burgueses

Por Cezar Xavier
Publicado 19.06.2015
Ao resgatar as relações entre colonialismo e escravidão, o filósofo italiano ataca a contradição fundamental do liberalismo político em relação à democracia e aos direitos humanos universais. Conferência na Universidade Federal do Maranhão foi prestigiada por intelectuais locais e membros do Governo do Estado.

O filósofo italiano Domenico Losurdo atraiu um multidão de estudiosos ao auditório da Universidade Federal do Maranhão, onde houve a conferência sobre “Marx e o balanço histórico do século XX”. Foi uma oportunidade inédita oferecida aos maranhenses pela Fundação Maurício Grabois do Maranhão e a UFMA, assim como as editores Anita Garibaldi e Boitempo, que lançaram os livros do autor.
Losurdo é um dos mais respeitados pensadores marxistas da atualidade. Leciona filosofia da história na Universidade de Urbino. Possui uma obra monumental e é um dos estudiosos italianos mais traduzidos no mundo.  Desde 1988 preside a Internationale Gesellschaft Hegel-Marx für Dialektisches Denken (Sociedade Internacional Hegel-Marx para o pensamento dialético), e é membro fundador da Associação Marx Século XXI.


Nesta sua turnê pelo Brasil, que teve início esta semana em São Paulo e incluirá também o Rio de Janeiro, Losurdo gentilmente aceitou o convite da Fundação Maurício Grabois para deslocar-se até São Luís. Na conferência que ministrou na cidade, Losurdo apresentou novas facetas de seu trabalho intelectual, todo ele voltado à desconstrução dos mais importantes mitos do liberalismo político – os mesmos que povoam nossa imprensa como verdades incontestáveis.
Entre esses mitos, destaca-se a ideia de que a democracia moderna e a universalização do conceito de homem – e, portanto, a aceitação dos direitos humanos como atributos de todos, sem distinção de sexo, idade, raça e credo – seriam consequências lógicas ou naturais do desenvolvimento do liberalismo burguês.
Losurdo lembra que escravidão e liberalismo conviveram em relativa harmonia tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos. Estes últimos continuaram excluindo os negros de seus direitos básicos até passado muito recente. Também não se enquadravam no conceito liberal de humanidade os povos das colônias, encarados – na melhor das hipóteses – como crianças a serem tuteladas.
Mesmo o tão decantado direito de livre organização teve de ser conquistado pelo proletariado em luta. Por isso, na visão do intelectual italiano, “a democracia moderna não pode ser compreendida sem as ideias e lutas da tradição democrático-socialista”.



Losurdo foi prestigiado pelo reitor da UFMA, Natalino Salgado, e a reitora recém-eleita da Universidade, Nair Portela. Acompanharam o professor Losurdo, o presidente da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro, e o professor adjunto do departamento de Comunicação Social da Ufma, Fábio palácio. A sessão de autógrafos no hall do auditório lançou os livros “Marx e o Balanço Histórico do Século XX”, editado pela parceria entre Fundação Maurício Grabois e editora Anita Garibaldi, e “A Luta de Classes – Uma História Política e Filosófica”, publicado pela Boitempo Editorial.

Grabois maranhense
O evento serviu também ao relançamento da FMG-MA, cuja diretoria foi empossada com os seguintes membros: Alan Kardec Duailibe, professor da UFMA, Cristiano Capovilla, professor da UFMA, Egberto Magno, advogado e historiador, Elba Mochel, professora da UFMA, Fátima Oliveira, médica e escritora, Fernando Lima, médico, Joãozinho Ribeiro, bacharel em direito e professor universitário, Jonathan Almada, historiador e secretário-adjunto de Ciência e Tecnologia do Governo do Estado do Maranhão, Laurinda Pinto, pedagoga e secretária da Mulher do Governo do Estado do Maranhão, Luiz Pedro, jornalista e diretor da Tv Assembleia do Maranhão, Régina Galeno, educadora, Sálvio Dino, advogado, e Fábio Palácio, que assumiu a Presidência da Seção Regional Maranhão da Fundação Maurício Grabois.
Na foto, da dir. para a esq.: Alan Kardec, prof. associado da UFMA; Fernando Carvalho, vice-reitor eleito da UFMA; Nair Portela, reitora eleita da UFMA; prof. Domenico Losurdo; Natalino Salgado, reitor da UFMA; Fábio Palácio, prof. adjunto da UFMA; Li Chang-Shuen, profa. adjunta da UFMA, e a tradutora Emily Monique.



A Fundação tem a finalidade de promover estudos, pesquisas e análises nas áreas política, econômica, social e cultural, sobre realidade brasileira e mundial; realizar trabalho de educação política e formação militante, e organizar acervo sobre a história e a memória do Partido Comunista do Brasil e do movimento operário e popular.
Segundo Palácio, para cumprir suas finalidades e enfrentar as tarefas teóricas da contemporaneidade a Fundação terá de realizar seu trabalho interagindo com o conjunto das forças e intelectuais progressistas e de esquerda.
"Com base neste entendimento, a Fundação foi concebida como um espaço de confluência, um local para o encontro entre o labor intelectual desenvolvido pelos comunistas e o trabalho de semelhante natureza realizado por intelectuais e outras organizações do campo marxista e progressista do Brasil e de outros países. Tendo em vista esse intercâmbio com o pensamento avançado, a Maurício Grabois valoriza o diálogo com a universidade brasileira e outras instituições de pesquisa e estudo, e também com intelectuais, pesquisadores e personalidades do mundo da cultura que tenham afinidade com seus propósitos e se disponham a colaborar com o êxito de seu trabalho”, explicou.
A Fundação Maurício Grabois, para defender, difundir e enriquecer o marxismo, conhecer e compreender mais e melhor o Brasil e a realidade mundial, de acordo com o novo presidente, desenvolve ampla agenda de atividades tanto por iniciativa própria quanto em parceria com outras organizações congêneres ou instituições afins. “É uma agenda diversificada e contempla a realização de pesquisas, estudos, seminários, conferências, debates, cursos e outras atividades de formação, e ainda, iniciativas editoriais”.










No Maranhão, a seção estadual da Fundação buscará agregar aos seus objetivos originais, o conhecimento da realidade regional. De acordo com Palácio, os propósitos principais são “o desenvolvimento e a divulgação do pensamento marxista e de esquerda no estado e a formulação de propostas de políticas públicas que contribuam para o esforço ora empreendido pelo governo Flávio Dino no sentido de livrar o Maranhão dos flagelos da pobreza e do subdesenvolvimento”. “Começamos esta nova fase de nossas atividades em alto estilo, trazendo a São Luís um dos mais importantes pensadores políticos da atualidade”, celebrou Palácio, destacando a nova fase política pela qual passa o Estado com a eleição do governador comunista Flávio Dino.

Dentro da agenda do pensador italiano na capital Maranhense, ele não podia deixar de conhecer o governador comunista que derrotou a oligarquia Sarney, em 2014. Losurdo pode testemunhar as primeiras ações do Governo Flávio Dino, que enche os maranhenses de esperança na possibilidade de superar a extrema pobreza que assola o Estado, há tantas décadas.
Foi na quinta-feira, 19, que o governador Flávio Dino, em reconhecimento ao valor e importância da visita do professor Losurdo ao Maranhão e suas contribuições teóricas e políticas, o recebeu no Palácio dos Leões para um almoço, dando as boas vindas ao Estado.
Também reconhecendo o papel da Fundação Grabois, Dino convidou para o almoço integrantes da seção estadual da Fundação, membros do seu Secretariado e os reitores da UFMA.
Na foto, da esquerda para a direita, o presidente da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro, o reitor da UFMA, Natalino Salgado, o governador Flávio Dino, o professor Losurdo, o presidente da seção estadual da Grabois, Fábio Palácio e a reitora eleita da UFMA, Nair Portela. 



Abaixo, em outra foto de Karlos Geromy, os membros da seçao estadual da Grabois, integrantes do Secretariado do Governo Estadual e o reitor e a reitora eleita da UFMA. Ao centro, o governador Flávio Dino e o professor Losurdo.



Aqui, um registro do governador e de Losurdo, acompanhados de Márcio Jerry, presidente do PCdoB-MA, e secretário de Articulação Política do Governo, com outros membros do Secretariado.



Abaixo, registro da seção de autógrafos na UFMA, após a conferência.



Ainda nesta sexta-feira, 19, Losurdo fez novo debate com maranhenses no auditório do hotel onde se hospeda. O debate versou sobre a realidade atual na Europa e as condições da esquerda europeia. Foi uma troca de impressões, em que Losurdo também ouviu Márcio Jerry, secretário do Governo do Maranhão e presidente do PCdoB-MA. Antes do professor, Jerry apresentou um panorama da situação politica do Maranhão e os desafios do governo de tornar vitorioso o projeto que foi eleito nas urnas.
O presidente da Grabois, Adalberto Monteiro, participou de toda a movimentação e teve encontros com membros da seção estadual da entidade. O novo presidente da seção local, Fábio Palácio, trocou ideias sobre a agenda no Maranhão, focando sobretudo em reunir e agregar acadêmicos, intelectuais e artistas maranhenses para o debate de caminhos e ideias que possam levar ao desenvolvimento social do Estado.
Nesta última foto, Losurdo, Jerry, Palácio e Monteiro.

http://grabois.org.br/portal/revista.int.php?id_sessao=16&id_publicacao=5736&id_indice=4544

11 junho, 2015

Filósofo italiano Domenico Losurdo palestra na FSA no próximo sábado

No próximo sábado, 13 de junho, o Colegiado do curso de Ciências Sociais do Centro Universitário Fundação Santo André promove a palestra Marx e o Balanço do Século XX, com a presença do renomado filósofo italiano Professor Domenico Losurdo.

O evento acontece às 14 horas, no anfiteatro da FAFIL, é gratuito e aberto ao público interessado.

Na ocasião, haverá também o lançamento de suas duas obras recentes: A Luta de Classes - Uma História Política e Filosófica e Marx e o Balanço Histórico do Século XX, e da revista Cadernos de Ciências Sociais n. 4 (editada pelo Colegiado de Ciências Sociais da FSA).

10 junho, 2015

São Luís recebe o filósofo italiano Domênico Losurdo, dia 18, na UFMA

Losurdo ministrará uma Conferência Magna na Universidade Federal do Maranhão, e também tipificará seus personagens.

http://grabois.org.br/portal/revista.int.php?id_sessao=16&id_publicacao=5736&id_indice=4537

09 junho, 2015

Domenico Losurdo no Brasil - Junho 2015




Em junho de 2015 o filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo estará no Brasil para um ciclo de conferências e debates de lançamento de seu novo livro “A luta de classes: uma história política e filosófica” (Boitempo, 2015). Entre os dias 10 e 23 de junho ele passa pelas cidades de São Paulo, Santo André, São Luís, Niterói e Rio de Janeiro para discutir a história e atualidade da luta de classes no Brasil e no mundo. Em todos esses eventos haverá o lançamento dos livros "Marx e o balanço histórico do século 20" (Anita Garibaldi e Fundação Maurício Grabois) e "A Luta de Classes - uma história política e filosófica" (Boitempo).

Realização:
Fundação Maurício Grabois
Editora Boitempo
Apoio:
Sociedade Amigos de Lênin (SAL)
Fundação Maurício Grabois – Sessão São Paulo
APROPUC – Associação de Professores da PUC-SP
União da Juventude Socialista (UJS)
NEAM-Nucleo de Estudos de Aprofundamento Marxista
NEILS – Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais
NEHTIPO – Núcleo de Estudos de História: Trabalho, Ideologia e Poder
 
 


São Paulo 
Lutas de classe: sindicalismo, partidos e movimentos sociais 
 Domenico Losurdo em debate com Ruy Braga e André Singer. Breno Altman (mediação)  
10 de junho | terça-feira | 20h
Sesc Pinheiros | Teatro Paulo Autran (lotação 1000 lugares) | Rua Paes Leme, 195 | Pinheiros
Realização: Sesc e Boitempo Editorial
Apoio: Fundação Perseu Abramo, Fundação Rosa Luxemburgo, Fundação Maurício Grabois e Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região / Faculdade 28 de Agosto
 
Marx e o balanço histórico do Século XX
13 de junho | Sábado | – 14h
Centro Universitário Fundação Santo André – Anfiteatro da FAFIL (Av. Príncipe de Gales, 821 - Vila Príncipe de Gales, Santo André)
 
Lenin, o imperialismo e as guerras  
15 de junho | 19h Auditório do PCdoB (Rua Rego Freitas, 192 – 6º Andar – República - São Paulo)
Realização: Fundação Maurício Grabois, Sociedade Amigos de Lênin (SAL) e Boitempo Editorial
 
A Luta de Classes: uma história política e filosófica  
16 de junho | 19h
PUC-SP | Sala 117-A (Rua Monte Alegre, 984 . Perdizes - São Paulo/SP)
Realização: Fundação Maurício Grabois, Boitempo Editorial e PUC-SP

 
São Luis  
Marx e o Balanço do século 20  
18 de junho 
16:30h - UFMA Auditório Central | Avenida dos Portugueses, 1966 |Bacanga | São Luís
Realização: Promoção Grabois, Boitempo eEdUFMA.

 
Rio de Janeiro 
Marx e um balanço do século 20 
 22 de junho
Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro | Av. Rio Branco, 109 | Centro | Rio de Janeiro
Realização: Fundação Maurício Grabois, Editora Boitempo e Revan.
 
A hipocondria da antipolítica: história e atualidade da análise de Hegel 
 Debate com Giovanni Semeraro (UFF)  
23 de junho
Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro | Realização: Fundação Maurício Grabois, Editora Boitempo e Revan.

24 maio, 2015

Por que é urgente lutar contra a Otan e redescobrir o sentido da ação política

 

Assine este abaixo assinado:

 https://www.change.org/p/la-pace-ha-bisogno-di-te-sostieni-la-campagna-per-l-uscita-dell-italia-dalla-nato-per-un-italia-neutrale

Àqueles que na esquerda manifestam reservas e hesitações sobre o apelo e a campanha “Não à guerra, não à Otan; por um país soberano e neutro” – gostaria de sugerir que dediquem particular atenção para aquilo que a imprensa e demais meios de comunicação estadunidenses escrevem há algum tempo. 

Por Domenico Losurdo*

A guerra permanece no centro do discurso permanece; e esta, longe de se configurar como uma perspectiva hipotética ou remota, é discutida e analisada nas suas implicações políticas e militares. Em “The National Interest” de 7 de maio último, pode-se ler um artigo particularmente interessante. O autor, Tom Nichols, não é uma pessoa qualquer, é “professor de assuntos de Segurança Nacional na Academia da Marinha de Guerra”. O título é de per si eloquente e alarmante: “De que maneira a América e a Rússia poderiam provocar uma guerra nuclear” (How America and Russia Could Start a Nuclear War). É um conceito muitas vezes repetido no artigo (assim como nas aulas) do ilustre docente: a guerra nuclear “não é impossível”; mais do que removê-la, os Estados Unidos fariam bem em preparar-se para esta nos planos militar e político.

Mas como? Eis o cenário imaginado pelo autor estadunidense: a Rússia, que já com Ieltsin, em 1999, por ocasião da campanha de bombardeios contra a Iugoslávia, proferiu terríveis ameaças e com Putin, muito menos resignado com a derrota sofrida na Guerra Fria, acaba provocando uma guerra que de convencional se torna nuclear e conhece uma progressiva escalada. E eis o resultado: nos EUA são incontáveis as vítimas; a sorte dos sobreviventes talvez seja ainda pior, para encurtar o sofrimento, cogita-se levá-los à morte por eutanásia; o caos é total e só se pode fazer respeitar a ordem pública mediante a “lei marcial”. 

Agora vejamos o que ocorre no território do inimigo derrotado e golpeado não só pelos EUA mas também pela Europa e em particular pela França e o Reino Unido, duas potências nucleares: “Na Rússia, a situação será ainda pior [do que nos EUA]. A plena desintegração do Império Russo, iniciada em 1905 e interrompida apenas pela aberração soviética, finalmente acontecerá. Eclodirá uma segunda guerra civil russa e a Eurásia, por décadas ou mesmo por mais tempo, será apenas uma mistura de Estados étnicos devastados e governados por homens fortes. Qualquer resquício do Estado russo poderia reemergir das cinzas, mas provavelmente será sufocado de uma vez por todas por uma Europa sem a intenção de perdoar uma tão grande devastação”.

No título, o artigo aqui citado se refere apenas à possível guerra nuclear entre os Estados Unidos e a Rússia, mas claramente o autor não se contenta com pouco. O seu discurso prossegue evocando uma réplica desse cenário na Ásia. Nesse caso, não é Moscou, mas Pequim, que provoca primeiro a guerra convencional, depois a nuclear com consequências ainda mais terrificantes. O resultado, porém, é o mesmo: “Os Estados Unidos da América, de qualquer modo, sobrevivem. A República Popular da China, analogamente à Federação Russa, deixará de existir como entidade política”. 

É uma conclusão reveladora, que involuntariamente lança luz ao projeto, ou melhor, ao sonho, acalentado pelos campeões da nova guerra fria e quente. Não se trata de rechaçar a “agressão” atribuída à Rússia e à China, e não se trata tampouco de desarmar esses países e de pô-los na condição de não fazer nenhum mal. Não, trata-se de aniquilá-los enquanto Estados, enquanto “entidades políticas”. Ao menos no que se refere à Rússia, o autor deixa escapar que sua “desintegração” é o resultado de um processo benéfico iniciado em 1905, desgraçadamente interrompido pelo poder soviético, mas que poderia “finalmente” (finally) alcançar sua conclusão. A retardar a “desintegração” total da Rússia que se impõe, esteve apenas a “aberração” do país que emergiu da revolução de outubro. Pareceria que o autor estadunidense aqui citado exprime seu desapontamento e desilusão com a derrota sofrida pela Alemanha nazista em Stalingrado.

Uma coisa é certa: destruir a Rússia como “entidade política” era o caro projeto do Terceiro Reich. E, portanto, não é um acaso que a Otan, ao menos na Ucrânia, colabore abertamente com movimentos e círculos neonazistas. Destruir a China como “entidade política” era, por seu turno, o caro projeto do imperialismo japonês, êmulo na Ásia do imperialismo hitleriano. E, portanto, não é por acaso que os Estados Unidos reforçam o seu eixo com o Japão, que renega sua Constituição pacifista e está empenhado em um tresloucado revisionismo histórico, reduzindo a trapo um dos capítulos mais horríveis da história do colonialismo e do imperialismo (os crimes com que se manchou o Império do Sol Nascente na tentativa de sujeitar e escravizar o povo chinês e outros povos asiáticos).

O artigo que citei longamente é sintomático. Já de acordo com a doutrina proclamada por Bush Jr., os Estados Unidos se atribuíam o direito de quebrar tempestivamente a emergência de possíveis competidores da superpotência então única. Claramente tal doutrina continua a inspirar na república norte-americana círculos militares e políticos prontos a correr o risco mesmo de uma guerra nuclear.

É a esta ameaça que querem responder – finalmente! – o apelo e a campanha “Não à guerra, não à Otan; por um país soberano e neutro”. É encorajador que nesta iniciativa estejam empenhadas personalidades ilustres com diversas orientações políticas e ideológicas. É possível promover um alinhamento de forças bastante amplo em defesa da paz mundial e da salvação do país. 

Contudo, como mencionei acima, às vezes nos deparamos com reservas e hesitações que se manifestam em ambientes inesperados e insuspeitos e que até mesmo pertencem ao movimento comunista. São reservas e hesitações cujo sentido não se compreende bem. Será que para começarmos a nos organizar contra a guerra devemos esperar que surja a perspectiva de destruição e de morte em larga escala que emerge da imprensa internacional e em primeiro lugar da estadunidense? Seria uma posição irresponsável e suicida. É verdade, as forças que compreenderam a real natureza da Otan e que estão prontas a lutar contra ela são hoje mais reduzidas. Mas desta constatação deriva não a legitimidade do adiamento do nosso empenho na luta pela paz, mas ao contrário, a sua absoluta urgência. Temos uma grande história sobre nossos ombros. Em sua época, Lênin lançou a palavra de ordem da transformação da guerra em revolução, quando os jovens, em diversos países europeus, cegos durante algum tempo pela ideologia dominante, acorriam entusiasmados e em massa ao alistamento voluntário como se fossem a um encontro amoroso.  Obviamente, a situação contemporânea é diferente, mas não há motivos para abdicar do dever de difundir a consciência do perigo de guerra e de denunciar a política de guerra da Otan. Agora é possível contestar e refutar uma a uma as manipulações da indústria da mentira que é ao mesmo tempo a indústria da propaganda bélica; agora é possível e necessário contrastar cada medida política e militar que ameaça a aproximação da catástrofe. E tudo isto sem nunca perder de vista o objetivo estratégico de expulsar a Otan de nosso país.

As reservas e hesitações em face do apelo e da campanha contra a Otan não têm nenhuma plausibilidade política e moral. Há, porém, uma explicação, que não é uma justificativa. Ao menos na Europa ocidental, a dura derrota sofrida pelo movimento comunista entre 1989 e 1991 comportou um terrível empobrecimento não só teórico, mas também ético-político. O primeiro é amplamente conhecido, e eu tentei contribuir para esclarecê-lo em primeiro lugar com os meus livros sobre a “esquerda ausente” e sobre o “revisionismo histórico”. Agora direi algo sobre o empobrecimento ético-político: mesmo os intelectuais que não se associam ao coro empenhado em denegrir a “forma-partido”, frequentemente se revelam incapazes de agir coletivamente. Parece que se esqueceram do significado da ação política e sobretudo de uma ação política que pretenda transformar radicalmente a realidade existente e que, portanto, é obrigado a defrontar-se com um aparato de manipulação mais poderoso do que nunca. Sabemos desde os nossos clássicos que a pequena produção é o terreno sobre o qual se enraíza o anarquismo. O moderno desenvolvimento das comunicações digitais comporta de fato um forte relançamento da pequena produção intelectual. Eis que no clima que se criou depois da derrota de 1989-1991 e ao correlato empobrecimento ético-político, não poucos intelectuais, mesmo de orientação comunista, tendem a fechar-se cada qual em seu blog e sítio de internet. No blog e no sítio o intelectual isoladamente tem que se haver consigo mesmo, sem se confrontar com as contradições e conflitos que são próprios da ação política enquanto ação coletiva. 

Temos agora blogs e sítios de orientação comunista, não poucas vezes valiosos e algumas vezes muito valiosos, mas frequentemente em diversas medidas atingidos por aquela velha doença que é o anarquismo de grande senhor, que se tornou mais grave e mais dificilmente curável pelo empobrecimento ético-político que mencionei e agora em condições de manifestar-se sem obstáculos graças aos milagres da comunicação digital. Para todos esses intelectuais o próprio blog e o próprio sítio são ao mesmo tempo o partido e o jornal como tais. E esses intelectuais se posicionam de tal modo pelo fato de que – lamentam – faltam o partido e o jornal.

Sobretudo no que se refere ao primeiro ponto, os leitores deste blog já conhecem as posições que assumi publicamente, e não preciso repetir. Quero acrescentar apenas uma observação. Se os diversos sítios e blogs de que falei se empenhassem em conduzir a campanha “Não à guerra, não à Otan; por um país soberano e neutro”, denunciando dia após dia os planos de expansão e de guerra da Otan e as suas manobras para desestabilizar por todos os meios (até recorrendo ao ISIS) os países que se opõem a tudo isso, daríamos um passo concreto e importante para a fundação de um jornal nacional (no sentido leninista e gramsciano do termo). E se no curso desta campanha um número considerável de intelectuais e militantes redescobrissem o desejo e o sentido da ação política, que é sempre uma ação coletiva sobretudo quando se persegue objetivos de transformação radical da realidade político-social, então daremos um passo concreto e importante para a solução do problema do partido, objetivo para o qual todos somos chamados a nos empenhar.

*Domenico Losurdo é escritor e historiador italiano
Fonte: www.marx21.it
Tradução de José Reinaldo Carvalho