24 junho, 2016

“Stalin: história e crítica de uma lenda negra”. Um livro de Domenico Losurdo PDF Print E-mail Em artigo datado e 27 de outubro de 2009, Miguel Urbano Rodrigues comenta o tom ainda emocional do debate sobre o chamado "estalinismo". Não à toa, descreve em seu texto que "Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo." Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia. Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin - Storia e critica de una leggenda nera*, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava. Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor. Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polémicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo. Domenico Losurdo aborda no seu Stalin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema. Stalin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História. Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stalin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio. A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio. A DEMONIZAÇÃO DE STALIN A demonização de Stalin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lenine grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stalin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governação ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor «o socialismo real» mediante métodos criminosos. Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stalin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stalin. Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos – Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade. O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um «fenômeno histórico» que é também «uma teoria e uma prática política» que exorciza. DA ESPERANÇA À REALIDADE Sobre Stalin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polaco Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoista), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil. Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos, encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz. O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stalin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena. Acompanhando a trajetória de Stalin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma seleção de fatos e acontecimentos e situa Stalin nos cenários em que atuou. Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi exceção à regra. Mas, quando ela triunfou, eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica. O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lenine sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: “A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da Republica soviética internacional”. A previsão foi rapidamente desmentida pela História. O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lenine. Após a derrota da revolução alemã, o autor de “O Estado e a Revolução” teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do “socialismo num só pais” e, desaparecido Lenine, acusou de covardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial. Losurdo lembra que Stalin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais. Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polônia, das repúblicas bálticas e das grandes potências capitalistas, Stalin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais. Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com “o ascetismo universal”, Stalin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: “seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres.” Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stalin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS pós Lenine, e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações. São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stalin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado. A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx e exaustivamente analisada por Lenine, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial. Às críticas de Trotsky – então no exílio – à Constituição Soviética de 1936, Stalin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica. O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS “consiste num trabalho pacífico de organização econômica e no trabalho cultural e educativo”. A antiga função repressiva fora “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do povo”. Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que, em 1938, “imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag”. Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é valida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista? Losurdo recorda que na posição assumida por Stalin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS atuava num terreno minado, o que o expunha à acusação de «traidor» lançada por Trotsky. A partir do início dos anos 30, Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de “agentes do inimigo”. Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stalin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trotsky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam “libertar a Ucrânia soviética do jugo staliniano”, intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas. A OUTRA “GUERRA CIVIL” Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 1917 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional. Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polêmicos no Politburo e no Comitê Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lenine retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte. Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Khruchov ao XX Congresso apresenta desse período histórico uma visão distorcida e fantasista. A tese de Khruchov, segundo a qual cabe a Stalin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kirov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade, Kirov tinha uma grande admiração por Stalin, que depositava nele uma confiança total. As conspirações para afastar Stalin do Poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem, na opinião do filósofo marxista italiano, para falsificar a história. E atingiram esse objetivo. Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stalin diferente do ditador cruel, megalômano e vingativo cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Khruchov, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas. Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polêmica na Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscou. De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS – lida por Krupskaia, mas somente publicada anos depois – estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stalin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lenine. Losurdo define o conflito ideológico da época como uma “guerra civil” que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano de 1938. Na primeira fase da luta pelo poder, Stalin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polêmicas mantidas com Lenine. O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller – Técnica do Golpe de Estado – publicado na França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano de 1927, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão. Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stalin, mas sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objetivo era o afastamento de Stalin, mas o projeto fracassou, e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky. Bukharin, sempre imprevisível, fora até então – segundo Losurdo – como diretor do Izvestia, um aliado firme de Stalin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da coletivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adotada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente, que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista, deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adotando uma orientação democrático-burguesa, o que significaria uma regressão histórica. Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stalin tomou então a iniciativa de desencadear “uma guerra civil preventiva” contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique. A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo. Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o sanguinário terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama “as verdadeiras forças comunistas”. Nos processos de Moscou, os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukharin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projeto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo. Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários. Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa. Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa. Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polônia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stalin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 1936 contra o Japão na Mongólia. Transcorridos 70 anos, continua a ser polêmica a questão dos contatos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no “Bonaparte da Revolução Bolchevique” acumularam provas que o comprometem. O checoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contatos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filoalemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stalin tinha uma divida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscovo, Joseph Davies, alude também a uma “conspiração dos militares”. O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stalin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que “tudo depende daquilo que se entenda por conspiração”. Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direcção do PCUS após a morte de Lenine, Losurdo emprega repetidamente a expressão “as três guerras civis” para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukharin. O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukharin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stalin de “o representante do neotrotskismo” e “intrigante sem princípios”. Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky, que lhe inspirava temor e admiração. AS ORIGENS DO STALINISMO A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade, morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores. Losurdo, no capítulo em que estuda as “origens do stalinismo”, recorda que Stalin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um “nacionalismo sadio”, do “sentimento nacional e da ideia de pátria” com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS, afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler. Stalin é acusado de defender um conceito de estado e uma politica de nacionalidades cuja aplicação refletiu contradições antagônicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de “povos sem história”, incluindo o da sua Polônia natal. Stalin, pelo contrario, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária. Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lenine, não encontraram, porém, tradução na práxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto. Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de “uma língua única para a humanidade» «quando o socialismo triunfar em nível mundial”. Sublinhando que a língua não é uma superestrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas “por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações”. No seu denso ensaio, cuja riqueza conceitual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da coletivização das terras. Citando a Fenomenologi do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da «liberdade absoluta» e do «terror», sustenta que «o “stalinismo” não é o resultado ” nem da sede de poder de um individuo, nem de uma ideologia, mas do estado de exceção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914″. A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stalin não era ainda um autocrata. Segundo Werth, não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado. Em 1925, em plena NEP, Stalin expressava opiniões como esta: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”; “agora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização”… Então considerava um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado”. Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS, para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo. Mas terá sido somente a partir de 1937, com o Grande Terror – expressão utilizada por Losurdo – que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia? Nas Obras Completas de Stalin são, porém, numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma politica de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos. O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stalin tinha de que, após a derrota do III Reich hitleriano, se abriria à Aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista. Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polônia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. “Não é obrigada a isso, não é necessário”. E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: “é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado”. E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: “Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa”. O americano Robert Conquest, o historiador de ultradireita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que “Stalin estava repensando ativamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo”. O que não suscita dúvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade. SOBRE A POPULARIDADE DE STALIN E OS GULAG Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stalin. Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente. Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 1937-38, a base social de apoio à política de Stalin amplia-se. Verifica-se, escreve Losurdo, “uma interação paradoxal e trágica”.Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento econômico e cultural e, por outro, do medo suscitado pela repressão, “dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se diretores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas”. Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscou, ao passar pela Praça Vermelha, resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: “Quem esteve em Moscou e não viu Lenine, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa”. Nas campanhas anticomunistas, os textos sobre os Gulags siberianos criados por Stalin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin. Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual. Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário, inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objectivos. Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulags, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho soviéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS – salienta Losurdo – a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos .O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulags onde os homens eram tratados como “animais selvagens”. Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espectáculos, concertos e conferências e que os prisioneiros em muitos Gulags estavam autorizados a publicar jornais murais. A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de anistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas. Losurdo, numa crítica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, falsificando-a, procede a um breve inventário dos horrores de campos de concentração criados por potências ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silêncio. A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himler. Os aborígenes, aliás, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais. E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa – incluindo crianças – cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos. É do domínio público que, na primeira metade do século XX, os linchamentos de negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espectáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles. Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes. O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo. Na Alemanha ignora-se o genocídio planejado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colônia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II. Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o fato de que o objetivo dos campos da morte do país foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto. A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo. Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola. STALIN E OS JUDEUS A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadunidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram, nas últimas décadas, uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stalin. A receita é primária: Stalin e Hitler seriam “monstros gêmeos”. Losurdo, na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi, analisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadunidense Ana Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola. Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stalin como um antissemita fanático. Atribui-lhe uma “política canibalesca“contra os judeus, baseada num ódio racial feroz. O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a coletivização, afirma que Stalin transformou aquela Republica soviética num “imenso Bergen Belsen” (um campo de extermínio alemão). Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação politico cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por “infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich”. Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilaram a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS. Losurdo, ao refutar as acusações de antissemitismo feitas a Stalin, recorda que, após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adotou “uma politica fundamentalmente filo-hebraica”. A URSS foi, aliás, o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos atuaram como “advogados de Israel” na Conferência da ONU sobre a questão palestiniana. Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam, aliás, documentação que confirma uma realidade hoje incômoda por muitos motivos: “a União Soviética contribuiu de maneira essencial – como escreve Losurdo – para a criação e fortalecimento do Estado hebraico.” Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o antissemitismo com expressões como “chauvinismo racial” e “canibalismo”. Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus; Zhdanov, um dirigente no qual Stalin depositou uma confiança irrestrita, também era judeu. E, durante décadas, milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético. Hitler, nas suas catilinárias antissemitas, atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma “horda terrorista hebraica” de “asiáticos circuncisados” e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lenine. E dizia que Stalin era um judeu, não pelo sangue, mas pelo espírito. A politica pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 graus, assumindo uma orientação antissionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meir a Moscou, iniciaram contatos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objetivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos. “Cada hebreu – teria dito então Stalin, segundo Roy Medvedev – é um nacionalista, é um agente da espionagem americana”. Losurdo aborda com cautela o tema da alegada “conspiração” dos médicos judeus de Stalin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polêmicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complot. O diplomata britânico Sir Joe Gascoigne admitiu, na época, que os médicos do Kremlin eram “culpados de traição”. COMUNISMO, ANTÍTESE DO FASCISMO A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista, na qual um dos objetivos era a destruição da imagem positiva projetada no mundo pela União Soviética, produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine. A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como “O império do mal” e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas críticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lenine tornaram-se então alvos preferenciais dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projeto fracassado, não apenas utópico, mas monstruoso. Qualquer cientista p lítico minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas, simulando ignorar a evidência – o comunismo é uma fase superior do socialismo –, os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS. A maioria dos Partidos Comunistas – o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são, na Europa, exceções ao revisionismo – não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS, como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas. Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas. Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que acadêmicos de grandes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicados sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Ana Arendt, foram best-sellers mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade. Domenico Losurdo, nos capítulos dedicados à psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stalin e à aberração das comparações entre este e Hitler, desce às origens e motivações da estratégia anticomunista. Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O Presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente um complot alemão, e Lenine e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial. Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biênio 1937-38 dos Processos de Moscou, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stalin. Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas, enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos “monstros comunistas”. Recorda – apenas um exemplo – que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porém, que esse massacre abjeto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros – como prova do caráter bárbaro, desumano do regime soviético. Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manuais de História, Losurdo cita, entre outros: - A morte por fome e maus tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães na Frente Leste. - A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quênia, após a rebelião dos Mau Mau. - O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objetivos militares, com o objetivo de aterrorizar as populações. - A execução na Sicília, por ordem do general Patton, de soldados italianos que se tinham rendido ao exército americano. - O genocídio nas Filipinas, no começo do século XX, durante a revolta contra a ocupação norte-americana. - O extermínio total da população aborígene da Tasmânia. - A recusa de fazer prisioneiros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX, na qual Churchill participou como oficial de cavalaria. - A execução em Taejon, em julho de 1950, de 1700 coreanos que, antes do fuzilamento, foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados. - O extermínio, pelo exército dos EUA, do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietname e no Laos. - A ordem de Nixon, no inicio dos anos 70, para que fossem lançadas, nas áreas rurais do Camboja, mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial. - E o mais trágico e abjeto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial. Churchill declarou, em 1933, que via “o gênio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo”… Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político “extremamente competente”, com um “sorriso que desarmava”e um “sutil magnetismo pessoal”. Lloyd George, o ex-primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como “um grande homem”. Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais, cujos anátemas contra a URSS e Stalin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas, reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS. Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que, na Conferência de Teerã, lhe causara a personalidade de Stalin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura. Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referências altamente elogiosas a Stalin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX. Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar, no famoso discurso de Fulton, os perigos daquilo a que chamou a “Cortina de Ferro”. Obviamente o Relatório Secreto de Khruchov trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stalin. A abertura dos arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stalin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência direta na condução da guerra patriótica. A tese provocatória dos monstros gêmeos”, difundida por Ana Arendt e outros escritores anticomunistas, não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stalin. Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS staliniana. A escritora sionista pretende iluminar “a origem do totalitarismo”, mas, na realidade, o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukacs chama o assalto à razão. A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranóia. Losurdo pulveriza a tese e lembra, com fundamento, que, pelo pensamento e pela sua intervenção na história, foram precisamente duas personalidades antagônicas. Enquanto Hitler fez do racismo um cimento do Estado nazi, Stalin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stalin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos. Sob a sua direção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na África, na Ásia e na América Latina. Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que, sem a Revolução Russa, o chamado estado social não teria sido possível na Europa. Atualizado em 24.06.16

Em artigo datado e 27 de outubro de 2009, Miguel Urbano Rodrigues comenta o tom ainda emocional do debate sobre o chamado "estalinismo". Não à toa, descreve em seu texto que "Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo."
Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia.
Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin - Storia e critica de una leggenda nera*, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava.
Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor.
Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polémicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo.
Domenico Losurdo aborda no seu Stalin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema.
Stalin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História.
Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stalin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio.
A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio.
A DEMONIZAÇÃO DE STALIN
A demonização de Stalin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lenine grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stalin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governação ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor «o socialismo real» mediante métodos criminosos.
Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stalin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stalin.
Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos – Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade.
O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um «fenômeno histórico» que é também «uma teoria e uma prática política» que exorciza.
DA ESPERANÇA À REALIDADE
Sobre Stalin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polaco Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoista), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil.
Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos, encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz.
O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stalin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena.
Acompanhando a trajetória de Stalin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma seleção de fatos e acontecimentos e situa Stalin nos cenários em que atuou.
Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi exceção à regra. Mas, quando ela triunfou, eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica.
O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lenine sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: “A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da Republica soviética internacional”.
A previsão foi rapidamente desmentida pela História.
O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lenine. Após a derrota da revolução alemã, o autor de “O Estado e a Revolução” teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do “socialismo num só pais” e, desaparecido Lenine, acusou de covardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial.
Losurdo lembra que Stalin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais.
Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polônia, das repúblicas bálticas e das grandes potências capitalistas, Stalin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais.
Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com “o ascetismo universal”, Stalin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: “seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres.”
Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stalin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS pós Lenine, e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações.
São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stalin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado.
A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx e exaustivamente analisada por Lenine, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial.
Às críticas de Trotsky – então no exílio – à Constituição Soviética de 1936, Stalin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica.
O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS “consiste num trabalho pacífico de organização econômica e no trabalho cultural e educativo”. A antiga função repressiva fora “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do povo”.
Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que, em 1938, “imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag”.
Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é valida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista?
Losurdo recorda que na posição assumida por Stalin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS atuava num terreno minado, o que o expunha à acusação de «traidor» lançada por Trotsky.
A partir do início dos anos 30, Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de “agentes do inimigo”.
Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stalin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trotsky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam “libertar a Ucrânia soviética do jugo staliniano”, intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas.
A OUTRA “GUERRA CIVIL”
Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 1917 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional.
Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polêmicos no Politburo e no Comitê Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lenine retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte.
Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Khruchov ao XX Congresso apresenta desse período histórico uma visão distorcida e fantasista.
A tese de Khruchov, segundo a qual cabe a Stalin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kirov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade, Kirov tinha uma grande admiração por Stalin, que depositava nele uma confiança total.
As conspirações para afastar Stalin do Poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem, na opinião do filósofo marxista italiano, para falsificar a história. E atingiram esse objetivo.
Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stalin diferente do ditador cruel, megalômano e vingativo cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Khruchov, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas.
Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polêmica na Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscou.
De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS – lida por Krupskaia, mas somente publicada anos depois – estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stalin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lenine.
Losurdo define o conflito ideológico da época como uma “guerra civil” que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano de 1938. Na primeira fase da luta pelo poder, Stalin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polêmicas mantidas com Lenine.
O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller – Técnica do Golpe de Estado – publicado na França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano de 1927, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão.
Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stalin, mas sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objetivo era o afastamento de Stalin, mas o projeto fracassou, e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky.
Bukharin, sempre imprevisível, fora até então – segundo Losurdo – como diretor do Izvestia, um aliado firme de Stalin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da coletivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adotada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente, que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista, deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adotando uma orientação democrático-burguesa, o que significaria uma regressão histórica.
Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stalin tomou então a iniciativa de desencadear “uma guerra civil preventiva” contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique.
A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo.
Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o sanguinário terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama “as verdadeiras forças comunistas”.
Nos processos de Moscou, os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukharin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projeto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo.
Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários.
Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa.
Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa.
Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polônia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stalin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 1936 contra o Japão na Mongólia.
Transcorridos 70 anos, continua a ser polêmica a questão dos contatos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no “Bonaparte da Revolução Bolchevique” acumularam provas que o comprometem.
O checoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contatos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filoalemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stalin tinha uma divida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscovo, Joseph Davies, alude também a uma “conspiração dos militares”. O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stalin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que “tudo depende daquilo que se entenda por conspiração”.
Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direcção do PCUS após a morte de Lenine, Losurdo emprega repetidamente a expressão “as três guerras civis” para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukharin.
O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukharin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stalin de “o representante do neotrotskismo” e “intrigante sem princípios”. Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky, que lhe inspirava temor e admiração.
AS ORIGENS DO STALINISMO
A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade, morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores.
Losurdo, no capítulo em que estuda as “origens do stalinismo”, recorda que Stalin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um “nacionalismo sadio”, do “sentimento nacional e da ideia de pátria” com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS, afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler.
Stalin é acusado de defender um conceito de estado e uma politica de nacionalidades cuja aplicação refletiu contradições antagônicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de “povos sem história”, incluindo o da sua Polônia natal. Stalin, pelo contrario, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária.
Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lenine, não encontraram, porém, tradução na práxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto.
Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de “uma língua única para a humanidade» «quando o socialismo triunfar em nível mundial”. Sublinhando que a língua não é uma superestrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas “por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações”.
No seu denso ensaio, cuja riqueza conceitual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da coletivização das terras.
Citando a Fenomenologi do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da «liberdade absoluta» e do «terror», sustenta que «o “stalinismo” não é o resultado ” nem da sede de poder de um individuo, nem de uma ideologia, mas do estado de exceção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914″.
A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stalin não era ainda um autocrata. Segundo Werth, não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado.
Em 1925, em plena NEP, Stalin expressava opiniões como esta: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”; “agora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização”… Então considerava um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado”.
Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS, para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo.
Mas terá sido somente a partir de 1937, com o Grande Terror – expressão utilizada por Losurdo – que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia?
Nas Obras Completas de Stalin são, porém, numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma politica de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos.
O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stalin tinha de que, após a derrota do III Reich hitleriano, se abriria à Aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista.
Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polônia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. “Não é obrigada a isso, não é necessário”. E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: “é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado”. E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: “Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa”.
O americano Robert Conquest, o historiador de ultradireita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que “Stalin estava repensando ativamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo”.
O que não suscita dúvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade.
SOBRE A POPULARIDADE DE STALIN E OS GULAG
Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stalin.
Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente. Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 1937-38, a base social de apoio à política de Stalin amplia-se. Verifica-se, escreve Losurdo, “uma interação paradoxal e trágica”.Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento econômico e cultural e, por outro, do medo suscitado pela repressão, “dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se diretores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas”.
Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscou, ao passar pela Praça Vermelha, resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: “Quem esteve em Moscou e não viu Lenine, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa”.
Nas campanhas anticomunistas, os textos sobre os Gulags siberianos criados por Stalin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin.
Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual.
Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário, inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objectivos.
Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulags, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho soviéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS – salienta Losurdo – a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos .O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulags onde os homens eram tratados como “animais selvagens”.
Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espectáculos, concertos e conferências e que os prisioneiros em muitos Gulags estavam autorizados a publicar jornais murais.
A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de anistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas.
Losurdo, numa crítica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, falsificando-a, procede a um breve inventário dos horrores de campos de concentração criados por potências ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silêncio.
A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himler. Os aborígenes, aliás, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais.
E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa – incluindo crianças – cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos.
É do domínio público que, na primeira metade do século XX, os linchamentos de negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espectáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles.
Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes.
O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo.
Na Alemanha ignora-se o genocídio planejado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colônia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II.
Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o fato de que o objetivo dos campos da morte do país foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto.
A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo.
Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola.
STALIN E OS JUDEUS
A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadunidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram, nas últimas décadas, uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stalin.
A receita é primária: Stalin e Hitler seriam “monstros gêmeos”.
Losurdo, na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi, analisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadunidense Ana Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola.
Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stalin como um antissemita fanático. Atribui-lhe uma “política canibalesca“contra os judeus, baseada num ódio racial feroz.
O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a coletivização, afirma que Stalin transformou aquela Republica soviética num “imenso Bergen Belsen” (um campo de extermínio alemão).
Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação politico cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por “infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich”.
Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilaram a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS.
Losurdo, ao refutar as acusações de antissemitismo feitas a Stalin, recorda que, após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adotou “uma politica fundamentalmente filo-hebraica”. A URSS foi, aliás, o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos atuaram como “advogados de Israel” na Conferência da ONU sobre a questão palestiniana.
Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam, aliás, documentação que confirma uma realidade hoje incômoda por muitos motivos: “a União Soviética contribuiu de maneira essencial – como escreve Losurdo – para a criação e fortalecimento do Estado hebraico.”
Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o antissemitismo com expressões como “chauvinismo racial” e “canibalismo”.
Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus; Zhdanov, um dirigente no qual Stalin depositou uma confiança irrestrita, também era judeu. E, durante décadas, milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético.
Hitler, nas suas catilinárias antissemitas, atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma “horda terrorista hebraica” de “asiáticos circuncisados” e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lenine. E dizia que Stalin era um judeu, não pelo sangue, mas pelo espírito.
A politica pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 graus, assumindo uma orientação antissionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meir a Moscou, iniciaram contatos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objetivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos.
“Cada hebreu – teria dito então Stalin, segundo Roy Medvedev – é um nacionalista, é um agente da espionagem americana”.
Losurdo aborda com cautela o tema da alegada “conspiração” dos médicos judeus de Stalin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polêmicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complot. O diplomata britânico Sir Joe Gascoigne admitiu, na época, que os médicos do Kremlin eram “culpados de traição”.
COMUNISMO, ANTÍTESE DO FASCISMO
A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista, na qual um dos objetivos era a destruição da imagem positiva projetada no mundo pela União Soviética, produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine.
A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como “O império do mal” e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas críticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lenine tornaram-se então alvos preferenciais dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projeto fracassado, não apenas utópico, mas monstruoso.
Qualquer cientista p lítico minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas, simulando ignorar a evidência – o comunismo é uma fase superior do socialismo –, os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS.
A maioria dos Partidos Comunistas – o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são, na Europa, exceções ao revisionismo – não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS, como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas.
Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas.
Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que acadêmicos de grandes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicados sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Ana Arendt, foram best-sellers mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade.
Domenico Losurdo, nos capítulos dedicados à psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stalin e à aberração das comparações entre este e Hitler, desce às origens e motivações da estratégia anticomunista.
Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O Presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente um complot alemão, e Lenine e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial.
Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biênio 1937-38 dos Processos de Moscou, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stalin.
Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas, enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos “monstros comunistas”.
Recorda – apenas um exemplo – que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porém, que esse massacre abjeto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros – como prova do caráter bárbaro, desumano do regime soviético.
Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manuais de História, Losurdo cita, entre outros:
- A morte por fome e maus tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães na Frente Leste.
- A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quênia, após a rebelião dos Mau Mau.
- O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objetivos militares, com o objetivo de aterrorizar as populações.
- A execução na Sicília, por ordem do general Patton, de soldados italianos que se tinham rendido ao exército americano.
- O genocídio nas Filipinas, no começo do século XX, durante a revolta contra a ocupação norte-americana.
- O extermínio total da população aborígene da Tasmânia.
- A recusa de fazer prisioneiros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX, na qual Churchill participou como oficial de cavalaria.
- A execução em Taejon, em julho de 1950, de 1700 coreanos que, antes do fuzilamento, foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados.
- O extermínio, pelo exército dos EUA, do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietname e no Laos.
- A ordem de Nixon, no inicio dos anos 70, para que fossem lançadas, nas áreas rurais do Camboja, mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial.
- E o mais trágico e abjeto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.
O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA
Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial.
Churchill declarou, em 1933, que via “o gênio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo”…
Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político “extremamente competente”, com um “sorriso que desarmava”e um “sutil magnetismo pessoal”.
Lloyd George, o ex-primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como “um grande homem”.
Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais, cujos anátemas contra a URSS e Stalin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas, reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS.
Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que, na Conferência de Teerã, lhe causara a personalidade de Stalin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura.
Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referências altamente elogiosas a Stalin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX.
Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar, no famoso discurso de Fulton, os perigos daquilo a que chamou a “Cortina de Ferro”.
Obviamente o Relatório Secreto de Khruchov trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stalin.
A abertura dos arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stalin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência direta na condução da guerra patriótica.
A tese provocatória dos monstros gêmeos”, difundida por Ana Arendt e outros escritores anticomunistas, não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stalin.
Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS staliniana.
A escritora sionista pretende iluminar “a origem do totalitarismo”, mas, na realidade, o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukacs chama o assalto à razão.
A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranóia.
Losurdo pulveriza a tese e lembra, com fundamento, que, pelo pensamento e pela sua intervenção na história, foram precisamente duas personalidades antagônicas.
Enquanto Hitler fez do racismo um cimento do Estado nazi, Stalin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stalin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos.
Sob a sua direção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na África, na Ásia e na América Latina.
Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que, sem a Revolução Russa, o chamado estado social não teria sido possível na Europa.
Atualizado em 24.06.16

04 abril, 2016

Carta aberta aos jornalistas franceses

Postado por forum21 em 28/mar/2016



Caros colegas,
Vivo e trabalho  em Paris há 15 anos, e como colaboradora da mídia brasileira (Carta Maior e Carta Capital), vejo com espanto a parcialidade que a imprensa francesa tem manifestado diante da situação política atual do Brasil, onde um golpe de Estado jurídico-midiático está em curso.
Pude ler artigos na imprensa portuguesa (Politico), na imprensa alemã (Der Spiegel) e na imprensa argentina (Pagina12), além dos excelentes artigos do jornalista americano Glenn Greenwald, na revista online The Intercept. Os jornais franceses (excetuando-se L’Humanité e Mediapart) não estão à altura de sua história e fazem uma cobertura parcial e superficial, limitando-se a seguir a storytelling da imprensa brasileira, que designou como inimigos para serem destruídos a presidenta Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores.
Esperávamos do Le Monde e do Libération uma cobertura mais imparcial.
O artigo abaixo, em francês, informa em profundidade a evolução das manifestações de rua e o crescimento de uma direita que ultrapassou todos os limites. Aliados a uma imprensa majoritariamente de direita, segmentos da direita brasileira defendem o ódio e a destituição da presidente eleita, sem que se tenha provado nenhum delito para justificar o processo de impeachment.
http://www.cetri.be/Un-Tea-Party-tropical-La-montee-en?lang=fr

Abaixo pode ser encontrado o  link do jornal alemão Der Spiegel que relata com precisão  a crise política brasileira.
http://www.spiegel.de/politik/ausland/brasilien-hexenjagd-auf-lula-ein-kalter-putsch-kommentar-a-1083218.html
O filósofo Vladimir Safatle publicou na Folha de São Paulo um artigo que resume a percepção de toda a esquerda brasileira : um golpe de Estado está em marcha.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2016/03/1753928-um-golpe-e-nada-mais.shtml

A carta de solidariedade com o presidente Lula, uma iniciativa do Forum21, foi assinada por diversos intelectuais franceses entre os quais Etienne Balibar:
Alba Carosio (Universidade Central da Venezuela)
Angel Quintero Rivera (Universidad de Puerto Rico)
Aníbal Quijano (Sociólogo, Peru)
Arturo Escobar (Universidade da Carolina do Norte, EUA)
Atilio Borón (sociólogo argentino)
Baltazar Garzón (Juiz aposentado, Espanha)
Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal)
Carmen Beramendi (Diretora da FLACSO, Uruguai)
Daniel Filmus (Ex-ministro da Educação, Argentina)
Domenico Losurdo (Filósofo italiano)
Eduardo A. Rueda (Professor da Pontificia Universidad Javeriana, Colômbia)
Eduardo Rinesi (Ex-reitor da Universidade de General Sarmiento, Argentina)
Fernanda Saforcada (Diretora Académica do Clacso, Argentina).
Fernando Mayorga (Universidad Mayor de San Simón, Bolivia)
Florencia Saintout, (Universidade Nacional de La Plata, Argentina)
Gabriela Diker (Reitora da Universidad de General Sarmiento, Argentina)
Gerardo Caetano (Universidad de la República, Uruguai)
Horacio A. López. (Subdiretor Centro Cultural de la Cooperación, Argentina.)
Ignacio Ramonet (Jornalista, França)
Jorge Beinstein (Economista, Argentina)
Juan Carlos Monedero (Universidade Complutense, Espanha)
Julian Rebon (Membro do Comitê Diretivo do Clacso, Argentina)
Leonardo Padura (Escritor Cubano)
Leticia Salomón (Universidad Nacional Autónoma de Honduras)
Luciano Concheiro (Universidad Autónoma de México)
Mario Burkun (Economista, Argentina)
Nicolás Trotta (Reitor da UMET, Argentina)
Pablo Gentili (CLACSO, Argentina)
Pablo González Casanova (Universidad Nacional Autónoma do México)
Partito della Rifondazione Comunista (Partido italiano)
Pierre Laurent – Secretario Nacional do PCF e Presidente do Partido da esquerda Européia
Raúl Zaffaroni (Ex-juiz da Suprema Corte de Justiça, Argentina)
Rita Segato (Intelectual feminista, Argentina)
Suzy Castor (CRESFET, Haití)

Assina,
Leneide Duarte-Plon

 http://www.forum21.org.br/2016/03/28/carta-aberta-aos-jornalistas-franceses/

26 fevereiro, 2016

Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra

Domenico Losurdo: Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra


25 de fevereiro de 2016
 Tradução de Marcos Aurélio Silva. Prof. dos cursos de graduação e pós-graduação em geografia da UFSC.


A China representa mesmo uma ameaça geopolítica para os Estados Unidos e os países que com ela fazem limite na região do Pacífico? Publicamos a seguir um excerto do livro de Domenico Losurdo, La Sinistra assente: crisi, società dello spettacolo, guerra (Carocci, 2014), que analisa algumas questões da assim chamada “ameaça chinesa”.

O pivô asiático*

O “pivô” é frequentemente apresentado no Ocidente como uma resposta à “ameaça” proveniente de Pequim. Não há dúvida que com a ascensão ou, mais exatamente, com o retorno da China, depois do fim do “século das humilhações”, e com o avanço do processo de maturação da República Popular, o quadro internacional está mudando de modo radical. Em março de 1949 o general estadunidense MacArthur podia constatar satisfeito: “agora o Pacífico tornou-se um lago Anglo-saxão” (Kissinger, 2011, p. 125). Dadas as relações de força existentes, os EUA podiam ter esperanças de bloquear com suas intervenções a chegada ao poder do partido comunista e de Mao Tsé-Tung; a esperança tornou-se rapidamente desilusão e em Washington, em meio a furiosas polêmicas, se desencadeava a caça ao responsável pela “perda” do grande país asiático.

Por Domenico Losurdo**

O pacífico não era mais em sentido estrito “um lago Anglo-saxão” mas, como sabemos, ainda ao cabo da Guerra Fria os Estados Unidos violavam sem dificuldade o espaço aéreo e marítimo chinês. Eram os anos em que a superpotência já solitária buscava consolidar e tornar permanente e inabalável a sua já clara superioridade militar mediante a Revolution in Military Affairs. Esta conhecia o seu batismo de fogo no curso da primeira guerra do Golfo: embora armado em medida não desprezível, o Iraque de Saddam Hussein sofria uma derrota rápida e irreparável. Era um sinal de alarme sobretudo para os países que há pouco se haviam impetuosamente liberado do jogo colonial.

Em Pequim, em junho de 1991, Jiang Zemin (2010, pp. 134, 136 e 591) exprimia a sua preocupação: “Se em todo o caso uma guerra mundial não é iminente, o mundo está bem longe de ser pacífico”; “particularmente preocupante é a Guerra do golfo”. “O papel da tecnologia militar tornou-se uma questão importante”: no que diz respeito à China, em certos setores do aparato militar “o gap se está agravando”. É um conceito reafirmado e melhor definido cinco anos depois: “a aplicação em larga escala de novas e sofisticadas tecnologias está mudando profundamente o mundo no plano não só social e econômico, mas também militar, e está introduzindo mudanças revolucionárias nesta área”.

A ausência da primeira revolução industrial e tecnológica tinha assinalado o início do “século das humilhações”; a ausência da revolução industrial, tecnológica e militar em curso levaria a uma repetição desta tragédia talvez em escala ainda maior. Neste quadro é que devem ser inseridos os esforços desenvolvidos pela China nos últimos anos para reduzir o seu atraso no plano militar.

Ameaça chinesa?

Argumento de fábula política no passado mais recente, a “ameaça chinesa” ganhou subitamente uma dimensão real e concreta em nossos dias? Damos a palavra a um estudioso estadunidense de origem chinesa, autor de um livro publicado por uma instituição de certo modo oficial do país guia do Ocidente (Strategic Studies Institute, U. S. Army War College). Pois bem, nesse estudo podemos ler que, segundo alguns analistas, os mísseis chineses poderiam “obrigar a Marinha estadunidense a operar a uma maior distância da costa [chinesa], ao menos na fase inicial do conflito” (Lai, 2011, p. 217). Sendo assim, se pode entender as amarguras de Washington pelo fato de que o Pacífico não é mais (na sua parte ocidental) “um lago Anglo-saxão”, aliás um “lago privado” (DYER, 2014, p. 2), ou não é mais assim tão fácil violar o espaço territorial, aéreo e marítimo do grande país asiático; e  todavia seria simplesmente temerário falar de “China Threat” ou do “perigo amarelo”! Atualmente, a marinha militar estadunidense, que goza de uma esmagadora superioridade, “opera a poucas milhas de distância de muitas das mais importantes cidades chinesas” (Dyer, 2014, p. 1). Se isso é sinônimo de “ameaça chinesa”, o que se deveria dizer de uma situação inversa, segundo a qual uma superior marinha militar chinesa tivesse sob controle e ameaça, a poucas milhas de distância, São Francisco e Nova Iorque? Na realidade, nas páginas do Foreign Affairs, o autor do artigo que já conhecemos sobre a capacidade alcançada pelos EUA de lançar um primeiro golpe nuclear, sublinha satisfeito “o passo glacial da modernização das forças nucleares chinesas”: portanto, “as probabilidades de que Pequim adquira no próximo decênio um poder nuclear dissuasor capaz de sobreviver são mínimas […] Contra a China os Estados Unidos têm hoje uma capacidade de lançar o primeiro ataque e estarão em condições de manter esta capacidade ainda por um decênio ou mais” (Lieber, Press, 2006, pp. 43 e 49-50).

Mas como explicar então os conflitos em torno de algumas ilhas localizadas no Mar Chinês Oriental e no Mar Chinês Meridional? Retomamos a leitura do estudo publicado pelo Strategic Studies Institute: “A China tem uma longa história de pescadores que pescavam nestas águas assim como de reivindicações oficiais destas ilhas. Presumivelmente, os chineses primeiro deram a elas um nome, as utilizaram como pontos de referência para a navegação, tentaram designá-las como território chinês colocando-as sob jurisdição das províncias costeiras meridionais e definindo-as como tais sobre um mapa. Por séculos os chineses deram como certo que este certificado histórico (historical reach) estabelecia a sua propriedade sobre estas ilhas e suas águas circundantes” (Lai, 2011, p. 127).

Intervieram depois o declínio da China e o expansionismo colonial: “nos anos 30 os franceses tomaram posse das ilhas Paracelso (Xisha em chinês) e Spratly (Nansha em chinês) de modo a expandir o alcance do seu protetorado colonial”, enquanto “durante a segunda guerra mundial o Japão assume o controle de todas as ilhas do Mar Chinês Meridional” (Lai, 2011, p. 128). Com a Declaração do Cairo (1943) e a proclamação de Potsdam (1945) o Japão se empenhava a restituir todos os territórios que “havia roubado”. Mas, depois da eclosão da Guerra Fria, à Conferencia de Paz de Paz de São Francisco não foram convidadas nem a República popular chinesa nem a República chinesa (Taiwan); o Japão, aliado aos EUA, podia assim reter as ilhas Senkaku (Diaoyu para os chineses).

Elas deveriam ter sido restituídas, mas nas novas circunstâncias eram de grande utilidade, funcionando como uma pistola apontada contra o inimigo saído de uma grande revolução anticolonial e inspirador na Ásia de uma ulterior onda de revoluções anticoloniais. Dava prova de precaução o primeiro ministro Zhou Enlai, que às vésperas da conferência condenava os EUA pelo fato “de privar a China do seu direito a recuperar os territórios perdidos” e “de lançar um tratado para a guerra, não para a paz, no Pacífico Ocidental” (Lai, 2011, p. 129).

Vale a pena notar que em relação às ilhas contestadas a República popular chinesa não assume uma posição diversa daquela da República da China (Taiwan). Aliás, esta última tem dado prova de maior firmeza, a julgar pela fonte estadunidense mais vezes citada: “Em 1946, o governo da República da China enviou navios de guerra para ‘recuperar’ as ilhas Paracelso e Spratly. Em um mundo que enfatizava o controle de fato mais que as reivindicações históricas, a China teria podido manter ali as suas tropas a fim de exercer o controle de fato sobre aqueles territórios e afirmar resoluta e incontestavelmente a posse daquelas ilhas. Por ter deixado de fazer isso e ter negligenciado por decênios as ilhas do Mar Chinês Meridional os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) devem eles próprios se penitenciar (…) Os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) gastaram todo o seu tempo e todas as suas energias jogando os chineses uns contra os outros em ‘perpétuas revoluções e lutas de classe’, enquanto deixavam abandonados os territórios contestados em mar aberto” (Lai, 2011, p. 130).

Pequim x Tóquio

Particularmente intratável é o conflito entre China e Japão, mas é este último a tê-lo provocado. Essa verdade emerge das próprias análises dos jornalistas e estudiosos ocidentais: é “razoável” a reivindicação avançada por Pequim acerca da ilha Diaoyu (ou Senkaku); e se trata de uma reivindicação levada adiante por toda a nação chinesa, que aliás reprova os seus governantes por assumirem um comportamento “muito conciliador e mole” (Kristof, 2013). Não obstante isso – sublinha um sociólogo britânico – a China se contentaria em definir como “contestada” a propriedade daquelas ilhas, postergando a solução do problema às futuras gerações.  Se trata de uma proposta já avançada em seu tempo por Zhou Enlai e inicialmemte aceita pelo Japão, que agora ao contrário a rejeita secamente. É uma “loucura” que se explica com a onda chauvinista que sacode o país (Dore, 2013). Trata-se de uma nação – vale acrescentar – que tem dificuldade de fazer as contas com o seu passado. Em 1965, enquanto se desencadeava a agressão contra o Vietnã, o primeiro ministro japonês Eisaku Sato solicitava ao secretário estadunidense para a defesa, Robert McNamara, que fizesse recurso à arma nuclear no caso de guerra contra a China, culpada por ajudar o Vietnã (International Herald Tribunne 2008). Nos nossos dia, encorajado pelo apoio dos EUA e pelo “pivô” antichinês por ele encenado, o governo japonês se obstina em um negacionismo que, em razão do seu radicalismo, termina por inquietar até mesmo Washington. De qualquer modo, em tudo pretensiosa se revela a palavra de ordem da “China Threat” (ou do “perigo amarelo”): na realidade, ela é uma completa deformação da verdade. O fato é que não podemos considerar definitivamente concluída a luta de liberação nacional que presidiu o nascimento da República popular chinesa. Não se trata só de Taiwan. Ecoam insistentes as vozes que preveem ou desejam para o grande país asiático um fim análogo àquele que sofreu a União Soviética ou a Iugoslávia: “uma nova fragmentação da Cinha é o desfecho mais provável” – anunciava um livro de sucesso publicado em Nova Iorque no ano mesmo da implosão do país derrotado no curso da Guerra Fria (Friedman, Lebard, 1991).

A hipótese da desintegração

A partir de então, nos EUA e nos países que com ele formam aliança, se multiplicaram as tomadas de posição de analistas, estrategistas, políticos, homens de Estado que previam ou invocavam a “fragmentação do colosso chinês”, o seu desmembramento em “sete chinas” ou em “muitas Taiwans”. O ideal seria proceder a uma “desintegração do interior” (desintegration from within). Em todo caso Washington é chamada a “afrontar de maneira mais coerente a futura fragmentação da China”. Estamos em presença de uma campanha que se move em várias frentes: dá o que pensar o prêmio conferido pelo Los Angeles Times a um livro que invoca o retorno à China da dinastia Ming (que teve o seu fim em 1644), com a exclusão consequentemente do Tibet, de Xinjiang, da Mongólia interior e da Manchúria. Mas, obviamente, o autor aqui citado tem em mira só a República popular chinesa: assim, junto a séculos de história, deveria ser posta em discussão uma parte bastante considerável (mais ou menos a metade) do seu atual território. Ainda além vai um outro livro aclamado no Ocidente (Ross Terril, 2003, The New Chinese Empire And What It Means for the United States): se deve contrastar o governo de Pequim também a propósito da “invenção de uma única etnia de chineses Han”; na realidade no seu interior subsistem notáveis diferenças no que diz respeito a esta mesma língua, e portanto…

Às vezes, o desejo de se livrar de um potencial concorrente prefere se camuflar de previsão histórica: “Alguns experts têm mesmo profetizado o repetir-se de um daqueles ciclos históricos em que se assistiu ao desmembramento do país, que faria desvanecer os sonhos de grandeza da China” (Brzezinski, 1998, p. 218).

Qualquer que seja a linguagem utilizada, estamos diante de um objetivo perseguido independentemente da política posta em prática pelo governo de Pequim no plano nacional e internacional: em 1999, o ano do bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado, um expoente de relevo da administração estadunidense declarava que, só por sua “dimensão”, a China constituía um problema ou uma potencial ameaça (Richardson, 1999). Não admira então que, ao receber o Prêmio pela Paz dos livreiros alemães, o “dissidente” chinês Liao Yiwu tenha pronunciado um discurso cuja palavra de ordem, em relação ao seu país, era: “Este Império deve acabar em pedaços” (auseinanderbrechen) (Köckritz, 2012). Como se vê, o desmembramento da China, uma vez alcançado, seria considerado uma contribuição à causa da paz! Resta o fato que é o país para o qual se projeta, ou se invoca ou se sonha o desmembramento, aquele que está realmente sendo ameaçado.


* Excerto publicado no site “Il Caffè Geopolitico”, 5 de fevereiro de 2016. O livro de Domenico Losurdo onde estão publicadas originalmente estas páginas (La Sinistra Assente: crisi, società dello spettacolo, guerra) está sendo vertido para o português, sob os cuidados de outro tradutor, pela editora Anita Garibaldi em parceria com a Fundação Maurício Grabois, com previsão de lançamento ainda para este ano.
** Domenico Losurdo é prof. emérito de História da Filosofia na Universidade de Urbino (Italia).

Referências
Brzezinski, Z. K. (1998). La grande sacchiera. Longanesi, Milano.
Dyer, G. (2014) US vs. china: is this the new cold war, in Financial Times, 22-23 febbraio, pp. 1-2.
Dore, R. (2013) Isole conteste, ecco perchè Tokyo sbaglia, in La Lettura, suplemento al “Corriere della Sera”, 8 dicembre., p. 5.
Friedman, G. Lebard, M. (1991) The Coming War with Japan. St. Martin Press, New York.
Kinssinger, H. (2011) On China. The Peguim Press, New York.
Kristof, N. D. (2011) Bahrain pulls a Qaddafi, in: International Herald Tribune, 18 marzo, p. 7.
Köcritz, A. (2012) Zwei gute Störer, in Die Zeit, 14 marzo, p. 53.
Lai, D. (2011) The Unite States and China in Power Transition. Strategic Studies Institute, Carlisle, p. 9.
Lieber, K. A., Press, D. G. (2006) The Rise of U. S. Nuclear primacy in “Foreign Affairs”, marzo-aprile, pp. 42-54.
Richardson, M. (1999) Asia Looks to Zhu for Sing of Backing Off On Spratlys, in: International Herald Tribune, 22 novembre, p. 5
Zemin, J. (2010) Selected Works, I, Foreign Languages Press, Beinjing

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26 outubro, 2015

Carta Maior - Domenico Losurdo: 'Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro

Domenico Losurdo: 'Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro'

O mesmo sistema de pensamento e práxis que gerou a crise está encarregado de explicá-la, graças a essa 'ausência' da esquerda.


Marcelo Justo
Wikimedia Commons
Autor de uma dúzia de livros essenciais, entre eles “A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra”, recém apresentado em Barcelona, Domenico Losurdo é uma referência da esquerda italiana e europeia, capaz de questionar não só as limitações analíticas de um marxismo vulgar como também o eurocentrismo que domina com frequência a reflexão europeia. Em diálogo com a Carta Maior, o filósofo italiano vinculou seu último livro com um dos grandes mistérios da história dos nossos dias: o impacto político do colapso financeiro de 2007-2008.
 
A quebra do banco Lehman Brothers e a crise do sistema financeiro internacional gerou um debate sobre o capitalismo como não se via desde a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética. Na cúpula do G20 de abril de 2009, em Londres, o então presidente estadunidense Barack Obama criticou os excessos de Wall Street, enquanto seu colega francês Nicolas Sarkozy falou da necessidade de refundar o capitalismo e acabar com a era dos paraísos fiscais.
 
Hoje, esse discurso parece uma alucinação de uma memória com febre. A recuperação liderada pela China, com o gigantesco investimento estatal que ativou sua economia e insuflou a demanda mundial, criou a ilusão de um capitalismo capaz de ressurgir eternamente das cinzas. A esquerda, que ainda não havia se recuperado da desorientação deixada pela queda do muro de Berlim, não pode ou não soube aproveitar aquele momento. “Mas a crise não acabou. Não é questão de pensar em paralelos simples, mas recordemos que a de 29 só terminou com a segunda guerra mundial. Hoje, vemos também que a crise não é só econômica, mas também política, como se vê com a União Europeia. Além disso, há um estado de guerra, como vemos na Síria e na Líbia, que tem levado muitos observadores a pensar que existe um grande perigo bélico. A esquerda tem que lidar com todas essas situações ao mesmo tempo: a econômica e social, a política e a bélica”, comentou Losurdo à Carta Maior.

Por quê a esquerda está “ausente”?

O grande problema é que, como diz Losurdo já no título do seu último livro, a esquerda está “ausente”, ou seja, que fugiu do debate público, deixando em seu lugar “o pensamento único neoliberal e neocolonialista”. Em outras palavras, o mesmo sistema de pensamento e práxis que gerou a crise está encarregado de explicá-la, graças a essa “ausência” da esquerda.
 
Losurdo reconhece que, nos últimos anos, essa esquerda “ausente” começou a despertar na Europa. O Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha e Jeremy Corbyn no Reino Unido são expressões desse primeiro despertar. “Mas acho que, em todos os casos, ainda não compreenderam a fortaleza do ataque contra o Estado de bem-estar. É um ataque furibundo, que requer uma resposta coordenada”, afirmou ele.
 
Em sua análise, o bem-estar se tornou o equivalente a um bastão essencial numa guerra, a praça que não pode se render, porque levaria à queda de todas as outras. “É paradoxal, porque o bem-estar surgiu como resultado de uma situação nacional e internacional, como uma tentativa de frear as forças de esquerda. No final da Segunda Guerra Mundial, tínhamos uma União Soviética muito prestigiada e forças de esquerda com muito poder em diversos países europeus. O Estado de bem-estar foi a resposta capitalista a esses dois fenômenos. A situação atual é outra. Não existe União Soviética, a esquerda está ausente e a burguesia não tem nenhuma razão para manter esta instituição, por isso a está desmantelando”.
 
Diferente de outros pensadores da esquerda europeia, Losurdo é muito consciente do problema neocolonial. Em seus textos, qualificou a luta anticolonial como uma “luta de classes” e reclamou do fato de a própria esquerda não prestar a devida atenção ao tema. “Necessitamos um novo bloco histórico que lute contra o neocolonialismo que vemos nas guerras que estão acontecendo no Oriente Médio. Uma união de forças, da classe trabalhadora e de países emergentes como China, Brasil, Rússia e outras nações que devem se unir para combater o projeto capitalista-imperialista”, analisou Losurdo.

América Latina e a sociedade do espetáculo

Com relação à América Latina, que tem estado na vanguarda deste questionamento do pensamento único neoliberal no Século XXI, Losurdo vê luzes e sombras. “Há uma ofensiva imperialista na América Latina. Os Estados Unidos não quer abandonar a Doutrina Monroe, da América para os americanos. O golpe na Venezuela, em 2002, é um exemplo. Mas a esquerda latina também cometeu erros. O caso que conheço melhor é o mesmo caso venezuelano. Creio que Chávez fez algo muito importante, ao acreditar num Estado de bem-estar com o dinheiro do petróleo que antes era administrado pela oligarquia venezuelana, mas o seu limite foi ter se centrado na redistribuição, sem mudar o modelo de produção de riqueza. Nisso, a América Latina deveria olhar melhor o exemplo chinês”, afirma.
 
O livro de Losurdo tem como subtítulo “crise, sociedade do espetáculo, guerra”. O conceito de “sociedade do espetáculo” vem de um pensador francês, Guy Debord – que, em 1967, captou o surgimento de um fenômeno que nasceu com a televisão e o consumo, que começava a transformar a realidade na representação-espetáculo. Debord não sabia da internet e mal podia suspeitar do predomínio brutal que o mundo da imagem alcançaria sobre o da palavra décadas mais tarde. “É um obstáculo que a esquerda tem que superar para manter a solidariedade e o Estado de bem-estar. É algo que analiso em meu livro. A classe dominante conquistou não só o monopólio da riqueza e das ideias, mas também o das emoções. Nesse aspecto, creio que esta sociedade do espetáculo é ao mesmo tempo a sociedade da guerra em que se manipula a opinião pública. A situação do Oriente Médio deve ser entendida neste sentido”.
 
Na longa conversa telefônica com a Carta Maior, fica claro, porém, que o centro da reflexão de Losurdo é esta misteriosa “ausência” da esquerda, capaz de convertê-la num “fantasma” que, longe de percorrer a Europa para mudá-la como na frase inicial do “Manifesto Comunista” de Marx e Engels, busca se acomodar no interior da União Europeia neoliberal para não ficar de fora. Segundo o intelectual italiano, esse é o grande desafio. “Um dos problemas do Podemos na Espanha é quando se colocam como algo além da esquerda e da direita. Não dizem algo novo. Mas dizem algo perigoso. Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro. Quando o pensamento dominante busca que a esquerda tenha a mesma visão do Século XX que eles, essa esquerda deve perceber que isso se trata de uma grave capitulação histórica e ideológica, que prepara uma capitulação política para a transformação do presente”, disse ele à Carta Maior.
 
Tradução: Victor Farinelli

Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Domenico-Losurdo-Se-repudiamos-nosso-passado-de-esquerda-desistimos-do-nosso-futuro-/6/34835

22 julho, 2015

LOSURDO, Domenico. Rivoluzione d’Ottobre e democrazia nel mondo. Tradução para Língua Portuguesa de Marcos Aurélio da Silva

LOSURDO, Domenico. Rivoluzione d’Ottobre e democrazia nel mondo. La Scuola di Pitagora: Napoli, 2015. 25 p. Tradução portuguesa de Marcos Aurélio da Silva.

REVOLUÇÃO DE OUTUBRO E DEMOCRACIA NO MUNDO
É a tradução de um recente artigo do filósofo italiano Domenico Losurdo, professor emérito da Universidade de Urbino (IT), que gentilmente cedeu a licença para esta publicação. Publicado ainda este ano como livreto pela editora La Scuola di Pitagora, o texto resulta da reelaboração de uma Conferência pronunciada pelo autor no ano de 2007, na livraria Feltrinelli da cidade de Nápoles, no âmbito do Ciclo I Venerdì della politica ‒ Cos’ è la democrazia (As sextas-feiras da política – O que é a democracia), promovido pela Società di studi politici – Scuola di Alta Formazione dell’Istituto Italiano per gli Studi Filosofici.

Texto completo: PDF/A



R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, SC, Brasil, eISSN 1807-1384

https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/1807-1384.2015v12n1p361

23 junho, 2015

Domenico Losurdo faz conferência no Rio e debate marxismo e disputas ideológicas

 
Foto: Pedro Rocha
Foto: Pedro Rocha

Com o auditório do Conselho Regional de Economia do Estado do RJ (Corecon) lotado de sindicalistas, jovens e intelectuais, foi realizado pela Fundação Mauricio Grabois, na segunda-feira (22) a conferência: Marx e o balanço histórico do século 20 com o filósofo Domenico Losurdo. Uma das grandes lideranças da esquerda brasileira e líder do PCdoB na Câmara Federal, Jandira Feghali ressaltou que “esses encontros têm que ser intensificados para que a sociedade brasileira tenha condições de encontrar alternativas para se contrapor as agendas dos grupos políticos de direita que ostentam o ódio e a exclusão social”.
Sobre as relações de poder que remetem ao colonialismo, Losurdo afirmou que “em nossos dias, os elementos de conflito presentes neste processo, longe de se atenuarem, resultam nitidamente mais acentuados. O Manifesto do Partido Comunista fez a sua análise num momento em que nenhum movimento emancipador despontou nas colônias: em tais condições, a globalização é, ou parece ser, uma relação mais ou menos equânime entre países com um grau de desenvolvimento mais ou menos homogêneo, agora, ao contrário, ocorre que a globalização é também um instrumento com que as grandes potências tratam de recuperar o controle da economia dos países que sacudiram o jugo colonial”.
Para a parlamentar, a palestra de Losurdo evidência os verdadeiros portadores dos movimentos libertários pelo mundo. “Esse encontro é de suma importância para enfrentarmos o senso comum de que a direita, os liberais são os verdadeiros protetores da liberdade e da justiça social. A intervenção do filósofo mostra justamente o contrário. São os comunistas e marxistas, que através das revoluções socialistas, trouxeram novos conceitos de liberdade e a disposição de estarem sempre à frente na luta pela fim da exclusão social”.
Em seu livro, “Marx e o balanço histórico do século 20”, o Domenico destacou, entre outras questões, a avaliação de Lênin sobre a questão do imperialismo.“ A partir da análise do imperialismo, Lênin sublinha a importância da questão nacional inclusive para além da Europa e do Ocidente: o movimento de libertação dos povos coloniais é parte integrante do processo revolucionário mundial pela democracia e o socialismo”.
Losurdo fez o lançamento de dois de seus livros: “Marx e o balanço histórico do século XX”, da Editora Anita Garibaldi, e “A luta de classes: uma história política e filosófica”, da Boitempo Editorial.
O evento fez parte de uma extensiva agenda do italiano pelo Brasil, desde o dia 10 de junho, quando participou do Seminário Internacional Cidades Rebeldes, no Sesc Pinheiros, prosseguindo por conferências em Santo André (SP), São Paulo (SP) e São Luís (MA). No dia seguinte ao debate no Corecon-RJ, Losurdo prosseguiu para Universidade Federal Fluminense em Niterói.
Estiveram presentes o presidente estadual do PCdoB, João Batista Lemos; o presidente estadual da CTB, Ronaldo Leite; e várias lideranças dos movimentos sociais, sindicais e estudantis. 

 http://sigajandira.com.br/site2/domenico-losurdo-faz-conferencia-no-rio-e-debate-marxismo-e-disputas-ideologicas/

22 junho, 2015

Em auditório lotado, Domenico Losurdo lança livro na FSA

Ouça a entrevista: http://www.fsa.br/imprensa/not%C3%ADcias/item/323-em-audit%C3%B3rio-lotado,-domenico-losurdo-lan%C3%A7a-livro-na-fsa


Domenico Losurdo
No último sábado, 13 de junho, o filósofo italiano, Domenico Losurdo, palestrou no auditório da FAFIL, que estava completamente lotado. O evento marcou também o lançamento de suas obras mais recentes: A Luta de Classes - Uma História Política e Filosófica e Marx e o Balanço Histórico do Século XX, pela Editora Bontempo, e da Revista Cadernos de Ciências Sociais, n. 4, editada pelo Colegiado de Ciências Sociais da FSA. Com um sotaque italiano muito característico, somado aos gestos comuns com as mãos, que marcam os italianos quando falam, seu discurso foi traduzido simultaneamente por um intérprete que procurava passar a mesma emoção apresentada pelo palestrante.
(veja as fotos do evento) 
Esquerda brasileira e europeia - Perguntado pela FSA sobre as diferenças da "esquerda" brasileira em relação à europeia, o filósofo afirmou que na Europa, a esquerda ainda sofre as consequências da queda do Muro de Berlin em 1989. Para ele, desde então, a esquerda sofreu, e ainda tenta se recuperar. Losurdo não vê uma luta anti-imperialista na Europa, como acontece no Brasil e na América do Sul. "No Brasil, é o contrário. É muito forte o envolvimento contra o imperialismo, e isto não existe mais na Europa neste momento", comentou.
Sobre as imigrações ilegais na Europa – A reportagem da FSA perguntou ao filósofo sobre o papel dos partidos de esquerda para apoiar a onda de imigrantes ilegais na Europa, pois somente no primeiro trimestre deste ano, cerca de 60 mil pessoas chegaram ilegalmente à Europa, tudo isso causado pelos conflitos no Oriente Médio (em especial o caos na Líbia e Síria); a pressão demográfica na África; a crescente capacidade da indústria dos traficantes de pessoas e as próprias dificuldades da UE para administrar este problema.
Losurdo informou que há muita confusão na esquerda neste momento sobre este tema. "A Europa tem uma obrigação com estes povos, uma obrigação história e moral com todos os povos que estão sofrendo. Os Estados Unidos e a Europa devem ajudá-los por conta das guerras que promoveram nestes países", disse.
O filósofo afirmou ainda que a única solução para estes países é por meio de um desenvolvimento econômico e social. "Deve acontecer um espírito de solidariedade para com estes imigrantes e a obrigação da esquerda é a de expressar toda a solidariedade e também a de acompanhar para que seja construído um desenvolvimento real nestes países, mas sem as ameaças de intervenção da OTAN", finalizou.


Encontro do PCdoB com Domenico Losurdo




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Encontro do Professor Domenico Losurdo com Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, na sede nacional do Partido em São Paulo no dia 15 de junho, por ocasião da palestra de um dos mais respeitados filósofos marxistas da atualidade. Desde 1988 preside a Internationate Gesellschaft Hegel-Marx (Sociedade Internacional Hegel-Marx para o pensamento dialético) e é membro fundador da Associação Marx Século XXI. Lecional filosofia da história na Universidade de Urbino e possui uma obra monumental e é um dos estudiosos italianos mais traduzidos no mundo.
Losurdo — ao final de sua palestra sobre “Lênin, o imperialismo e as guerras”, lançou seu livro “Marx e o balanço histórico do século XXI”, publicado pela Editora Anita Garibaldi e a Fundação Maurício Grabois.
Participaram do encontro com o professor Losurdo também o presidente da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro e o diretor da Fundação, Pedro Oliveira.

Domenico Losurdo faz palestra e lança livro na sede do PCdoB

O filósofo marxista italiano Domenico Losurdo ministrou nesta segunda (15), a Palestra "Lênin, o imperialismo e as guerras", na sede do PCdoB, em São Paulo. O evento, organizado pela Fundação Maurício Grabois e pela Sociedade Amigos de Lênin, também marcou o lançamento dos seus livros “Marx e o balanço histórico do século 20” e “A luta de classes: uma história política e filosófica”. Antes, Losurdo foi recebido pelo secretariado do PCdoB, e pela presidenta nacional do Partido, Luciana Santos.



Foto: Joanne Mota
   
O pensador italiano é, desde 1988, presidente da "Sociedade internacional Hegel-Marx para o pensamento dialético". Ele também é membro fundador da "Associação Marx Século 21" e professor de filosofia da história na Universidade de Urbino. Com diversos livros lançados, Losurdo possuiu uma obra vasta, tendo sido traduzido para inúmeras línguas.

Em seu livro, “Marx e o balanço histórico do século 20”, o filósofo destaca, entre outras questões, a avaliação de Lênin sobre a questão do imperialismo.

“A partir da análise do imperialismo, Lênin sublinha a importância da questão nacional inclusive para além da Europa e do Ocidente: o movimento de libertação dos povos coloniais é parte integrante do processo revolucionário mundial pela democracia e o socialismo”.

O pensador italiano diz ainda que “Lênin compara a luta da jovem Rússia soviética contra a agressão imperialista alemã ao combate que, outrora, a Prússia conduzira contra a invasão e ocupação napoleônica”.

Sobre as relações de poder que remetem ao colonialismo, Losurdo afirma que “em nossos dias, os elementos de conflito presentes neste processo, longe de se atenuarem, resultam nitidamente mais acentuados. O Manifesto do Partido Comunista faz a sua análise num momento em que nenhum movimento emancipador desponta nas colônias: em tais condições, a globalização é, ou parece ser, uma relação mais ou menos equânime entre países com um grau de desenvolvimento mais ou menos homogêneo, Agora, ao contrário, ocorre que a globalização é também um instrumento com que as grandes potências tratam de recuperar o controle da economia dos países que sacudiram o jugo colonial”.

Durante o evento desta segunda-feira (15), ele lembrou também que o colonialismo formal, o político, pode até não existir mais, mas outra forma de colonialismo segue vigente, o econômico.

Losurdo explicou que, muitas vezes, certos historiadores tentam apresentar o surgimento das duas grandes Guerras Mundiais como um acaso quando, na verdade, os conflitos tiveram matriz na postura de nações imperialistas.

O caso dos chineses, que lutaram na época da Segunda Guerra contra o colonialismo japonês, é emblemático, tornando-se referência da luta anti-imperialista no mundo todo.

O filósofo participará ao longo dos próximos dias de diversas atividades ainda como parte da divulgação de seus livros no Brasil.

Nesta terça-feira (16) haverá a conferência “A luta de classes: uma história política e filosófica” na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na quinta (18), ele estará no Maranhão, onde faz a conferência magna na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e nos dias 22 e 23, Losurdo falará sobre seu trabalho no Rio de Janeiro. 



Do Portal Vermelho, Tayguara Ribeiro