06 abril, 2017

Losurdo: Mundo vive luta contra a nova contra-revolução colonial

O
filósofo italiano Domenico Losurdo é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores pensadores marxistas ocidentais vivos. Losurdo se destaca como um pensador comunista, estudioso de Gramsci e Hegel, polemista em defesa do legado do movimento comunista na forma do chamado socialismo real. É um intelectual comprometido com a luta contra o imperialismo, sendo este o ponto de referência de sua obra. Também escreveu uma extensa biografia intelectual de Friedrich Nietzsche.

Em visita ao Brasil para lançar seu novo livro, “Guerra e Revolução – O mundo um Século após Outubro de 1917” (disponível na Livraria da Opera), o professor da Universidade de Urbino, na Itália, se dispôs a conceder uma entrevista ao editor-chefe da Revista Opera, Pedro Marin, e ao colunista e ex-correspondente internacional, André Ortega.
O que segue é a íntegra da primeira parte de três da entrevista. Confira aqui a segunda e a terceira parte.
Revista Opera: Bem, gostaríamos de lhe agradecer por tomar seu tempo para nos conceder esta entrevista. Gostaríamos também que você começasse falando do livro que está sendo lançado no Brasil pela Boitempo, “Guerra e Revolução”.
Domenico Losurdo: Esse livro está sendo lançado não somente no Brasil, e ele é uma interpretação do século 20. O título em inglês é “War and the Revolution – Rethinking the Twentieth Century”. Eu só posso dizer algumas coisas do conteúdo, porque o livro é muito grande [risos]. Mas eu posso dizer que o conteúdo fundamental do século 20 foi a luta entre o colonialismo e anticolonialismo. É claro que os partidos anticoloniais eram dirigidos pelo Partido Comunista, mas nós não podemos entender o conteúdo do século 20 se não considerarmos esta luta entre o colonialismo e o anticolonialismo.
Nós vimos, após a Revolução de Outubro, não somente o desenvolvimento da revolução anticolonial mundial… antes da Revolução de Outubro, todo o mundo era propriedade de alguns poucos poderes capitalistas e imperialistas. A África era uma colônia, a Índia era uma colônia, a China uma semicolônia, Indonésia era uma colônia, a América Latina era uma semicolônia graças à Doutrina Monroe, e esse mundo foi mudado radicalmente em consequência da Revolução de Outubro e da revolução anticolonial mundial, que nasce da Revolução de Outubro.
Mas, eu digo que o conteúdo fundamental é a luta entre o colonialismo e o anticolonialismo em um sentido mais profundo; se nós considerarmos a história da União Soviética e da Rússia Soviética, Hitler se esforçou para executar a realização das “Índias Alemãs” no Leste Europeu, Hitler disse: “Nós teremos o nosso extremo oeste [far-west, faroeste] alemão no Leste Europeu”, ou seja, o clássico faroeste norte-americano, onde os brancos dizimaram os nativos, e onde os que sobreviveram estavam destinados a se tornarem escravos a serviço da classe de senhores, e portanto no Leste Europeu os bolcheviques, identificados com os judeus, estavam destinados a serem exterminados. Esse era o programa de Hitler.
Eu cito frequentemente [Heinrich] Himmler, que era um dos líderes do Terceiro Reich, e temos as conversas secretas dos nazistas, fechadas ao público, onde Himmler diz: “Agora que falo somente com nazistas, posso falar livremente. A Alemanha precisa de escravos” – no sentido literal da palavra – e diz que eles achariam seus escravos no Leste Europeu e, particularmente, na União Soviética. Ou seja, a luta da União Soviética foi até mesmo uma luta contra a tentativa de colonizar e escravizar os povos da União Soviética.
A essência do Terceiro Reich foi a ambição de desenvolver, radicalizar e expandir a tradição colonial. Portanto, a falha de Hitler de construir no Leste Europeu as “Índias Alemãs” foi o começo da libertação das Índias Inglesas, também. Mais tarde temos a Revolução Chinesa, que podemos considerar, talvez, a maior revolução anticolonial na história do mundo. E agora, a conclusão breve; a primeira contra-revolução colonial, a contra-revolução colonial de Hitler, é derrotada. Agora nós vemos outra tentativa de desenvolver uma contra-revolução colonial, imediatamente após a conclusão da Guerra Fria, nós vemos, por exemplo, o filósofo Carl Popper, que era o filósofo oficial da chamada “Open Society”, que disse abertamente que o ocidente “cometeu o erro de libertar esses povos muito cedo”, que os povos coloniais não estavam maduros o suficiente para serem livres.
E agora o perigo de uma grande guerra é o perigo provocado pela tentativa, por parte dos Estados Unidos, de bloquear a revolução anticolonial e de construir uma nova contra-revolução colonial, e o perigo da guerra, que é EUA contra a China, mas podemos até considerar a posição da Rússia… Em meus livros, eu insisto em um ponto que é, talvez, negligenciado: a história da Rússia em geral – não da Rússia Soviética, mas da Rússia em geral – é, de um lado, que a Rússia era, de fato, um poder imperialista, expansionista, mas que há só um aspecto da realidade histórica: por muito tempo a Rússia perigava de se tornar uma colônia.
Todos sabem da invasão de Hitler, de Napoleão, de Charles XII, dos mongóis. Por exemplo: se considerarmos o começo do século 17, em Moscou o poder era exercido pelos poloneses. Imediatamente após a 1ª Guerra Mundial, ou seja, após a derrota da Rússia Czarista, a Rússia estava em perigo de ser balcanizada, de se transformar em uma colônia, e eu cito em muitas vezes Stálin, que disse que para o ocidente a Rússia era como a África Central, e que o ocidente tentava fazer a Rússia entrar naquela guerra em nome do capitalismo e imperialismo ocidental.
Imediatamente após a conclusão da Guerra Fria, que foi um triunfo para o ocidente e para os EUA, a Rússia estava em perigo de se tornar uma colônia, porque a massiva privatização da colônia não era só uma traição contra as classes trabalhadores da União Soviética e da Rússia, mas também uma traição contra a nação russa, porque a perspectiva era de que o ocidente queria possuir imensos recursos energéticos no país. Os EUA estava a ponto de possuir esses recursos energéticos imensos.
Yeltsin foi o “grande campeão” dessa colonização da Rússia pelo ocidente. Putin, é claro, não é um comunista, mas ele queria evitar essa colonização e buscou reafirmar o poder russo sobre esses recursos energéticos. Ou seja, neste contexto, podemos falar de uma luta contra a nova contra-revolução colonial, podemos falar de uma luta entre os poderes imperialistas e colonialistas, principalmente os EUA, de um lado, e de outro lado nós vemos a China, o terceiro mundo. E desse grande terceiro mundo a Rússia é uma parte integral, porque estava em perigo de se tornar uma colônia do ocidente. Essa é minha filosofia da história mundial, a dizer. E eu peço desculpas pelo meu inglês [risos].
Revista Opera: Seu inglês é perfeito, professor, perfeito. Como dissemos, seria melhor que nós falássemos italiano ao invés de usar inglês, mas você fala desta contra-revolução colonial no momento…
Domenico Losurdo: É a segunda, talvez a terceira contra-revolução colonial…
Revista Opera: Como você descreveria a posição do imperialismo na política global de hoje? Essa luta contra a contra-revolução colonial é uma luta fundamental, porque temos até alguns pensadores e acadêmicos de esquerda que se dizem “pós-colonialistas”, que não dão este tipo de atenção à questão do imperialismo, porque para eles é algo ultrapassado.
Domenico Losurdo: Primeiro, podemos citar Lênin, que com uma visão muito clara fez uma distinção entre o colonialismo clássico e o neocolonialismo. Ele disse, no começo do século 20, que o colonialismo, no sentido clássico do termo, é a anexação política, ou seja, que um país ou um povo não tem independência política, que é não considerado digno para ser independente. Esse é o colonialismo clássico, com a anexação política de um país ou de um povo por um poder imperialista, colonialista e capitalista.
No entanto, Lênin disse também que há um outro tipo de anexação, que é a anexação econômica. E esse é o neocolonialismo. Hoje nós temos um exemplo do colonialismo clássico, que é a situação da Palestina. Lá vemos o colonialismo clássico. É claro, vemos Israel expandindo seus assentamentos, expandindo o território israelense, e vemos que o povo palestino como os índios no faroeste; eles são expropriados, deportados e, algumas vezes, mortos. Este é o colonialismo clássico.
Mas existe outra forma de colonialismo; o neocolonialismo. E nestes dias eu gosto de fazer duas citações; Mao [Tsé Tung], após conquistar o poder, que disse: “Se nós, os chineses, continuarmos dependentes da farinha americana para o nosso pão, nós seremos uma semicolônia dos EUA”, ou seja, a independência política será somente formal, não substancial. E eu cito outro clássico da revolução anticolonial, Frantz Fanon, que foi um grande campeão da revolução anticolonial da Argélia, e que disse algo muito importante: “Quando um poder colonialista e imperialista é compelido a dar a independência para um povo, este poder imperialista diz: ‘você quer é a independência? Então tome e morra de fome.” Porque os imperialistas continuam a ter o poder econômico, podem condenar o povo à fome, por meio de bloqueios, embargos ou pelo subdesenvolvimento.
Ou seja, Mao e Fanon são personalidades muito diferentes, mas os dois entenderam que a revolução anticolonial tem dois estágios; o primeiro, o estágio da rebelião militar, da revolução militar. O segundo; o desenvolvimento econômico. A chamada “esquerda” que não entendeu este segundo estágio não está em condição de entender a revolução anticolonial. O que vemos agora é o desenvolvimento do terceiro mundo, e esse desenvolvimento não é só um evento econômico, mas um grande evento político. A tentativa da China, hoje, de quebrar o monopólio ocidental da alta tecnologia é a continuação da revolução anticolonial.
E eu acredito, no sentido de que concordo totalmente com você, que essa esquerda conseguiu entender a revolução anticolonial quando os Estados Unidos bombardearam o Vietnã, mas não consegue entender a pretensão do imperialismo de exercer o poder econômico no mundo todo, e essa esquerda não consegue entender o segundo estágio da revolução anticolonial, que é feito por meio do desenvolvimento econômico e tecnológico.
Revista Opera: Também no que se refere ao imperialismo, alguns argumentam que a eleição de Donald Trump, nos EUA, representa uma virada na natureza do imperialismo norte-americano. Qual é a sua opinião?
Domenico Losurdo: Uma certa “esquerda” fala de Trump como uma mudança, mas essa esquerda dá a impressão de que considera Hillary Clinton uma representante da esquerda, ou da paz; isso é completamente errado. Hillary Clinton não é melhor que Trump e, talvez, seja pior. Ou seja, Trump, ao menos nas palavras, expressa sua intenção de melhorar as relações com a Rússia, e, no sentindo contrário, Hillary Clinton queria tensionar com a China e Rússia.
Para entender a profunda divisão na classe dominante e no imperialismo, talvez devamos seguir uma outra análise. Nos EUA há um debate: os Estados Unidos estão em condição de lutar, ao mesmo tempo, contra a Rússia e a China? É melhor para os EUA dividir a frente China-Rússia? Como podemos dividir essa frente? Talvez possamos – e essa é a posição de Trump – fazer as pazes com a Rússia para lutar melhor contra a China.
Outros têm a esperança – e talvez a ilusão – de que os EUA poderão realizar uma mudança de regime (regime-change) na Rússia e, se o fizessem, a China ficaria totalmente isolada. Ou seja, há estratégias imperialistas diferentes, não se trata de uma diferença entre “esquerda” e “direita”, ou a guerra, Trump, e a paz, Hillary. Isso é totalmente ridículo – Hillary Clinton é a pessoa que fez guerras cruéis nos EUA. Por exemplo, contra a Líbia, ela se disse muito feliz pela morte de Kaddafi, apesar do fato de que sua morte foi contra os direitos humanos, foi uma tortura terrível. Mas eu acredito que Hillary Clinton talvez seja a pior.
De qualquer forma, não podemos ter nenhuma ilusão no que se refere ao imperialismo americano, nós temos diferenças, mesmo grandes diferenças, em relação à estratégia, mas infelizmente até o momento eu não vejo um grande movimento pela paz nos EUA. Uma pequena demonstração: Trump tem sido criticado por tudo, tem sido criticado e condenado por sua tentativa de melhorar as relações com a Rússia, mas ninguém o criticou ou condenou pelo grande aumento no orçamento militar. Ou seja, eu acredito que, infelizmente, neste momento, o imperialismo norte-americano tem um grande consenso.
Opera Revista Independente
http://revistaopera.com.br/2017/03/31/losurdo-mundo-vive-luta-contra-nova-contra-revolucao-colonial-parte-13/

O mundo um século após Outubro de 1917

O mundo um século após Outubro de 1917

Antonio Carlos Mazzeo escreve sobre o novo livro de Domenico Losurdo: "Guerra e revolução: o mundo um século depois de Outubro de 1917".

Por Antonio Carlos Mazzeo.

Guerra e revolução: o mundo um século após Outubro de 1917, do filósofo italiano Domenico Losurdo, é um trabalho contundente que traz o necessário debate sobre a questão do revisionismo histórico, entendido pelo autor como um largo processo de construção ideológica da burguesia contrarrevolucionária. Esse processo é caracterizado pela afirmação da existência de um “ciclo antiocidental” que teria sido inaugurado em 1789 e desembocando em 1917, isto é, de que a Revolução Francesa de 1789 teria sido o prenúncio da Revolução Russa de 1917, sendo o nazismo o “produto da reação direta ao bolchevismo totalitário”.
Traçando o percurso dessa concepção reacionária, Losurdo delineia as principais visões que buscaram extirpar o conceito de revolução burguesa da lógica do progresso e dos saltos de superação. O autor demonstra que, progressivamente, o pensamento reacionário constrói uma linha teórica que afirma os elementos revolucionários do jacobinismo como precursores das “revoluções raciais” − primeiro, com o jacobinismo negro de Toussaint Louverture, no Haiti, depois, com a Revolução na China e os movimentos de libertação nacional do Terceiro Mundo. O resultado direto desses movimentos seria a corrosão dos pressupostos democráticos, o que retirou a Revolução Francesa do perfil ocidental, para colocá-la no âmbito dos movimentos totalitários de “tipo oriental”. Sendo assim, o sentido da “liberdade ocidental” teria sido gestado na Revolução Americana do século XVIII, que marcará a construção dos Estados Unidos da América e moldará a forma política da liberdade das sociedades que irão permanentemente contrapor-se à “opressão totalitária”.
Como acentua Losurdo, declarou-se guerra à historicidade. No limite, justificam-se o colonialismo e a brutalidade da guerra imperialista, vista como necessidade civilizatória contra um pretenso “orientalismo despótico”. Procura-se, assim, reescrever a história, isto é, inventar uma identidade entre fascismo e comunismo e construir um senso comum desistoricizado, cujo objetivo é golpear as concepções de igualdade e de solidariedade humanas.
O livro que agora chega ao Brasil é da maior importância para a reflexão sobre o momento histórico de grande ofensiva reacionária e de reação conservadora em que vivemos. É preciso mergulhar na crítica e nas propostas apresentadas por Domenico Losurdo. Com a palavra, o leitor.
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Domenico Losurdo lançamentos no Brasil em março de 2017


Domenico Losurdo
Título: "A esquerda ausente - crise, sociedade do espetáculo, guerra"
Autor: Domenico Losurdo
De passagem pelo Brasil neste final de março, por ocasião dos 95 anos do Partido Comunista do Brasil, o filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo veio para um ciclo de conferências e debates de lançamento de seu novo livro A Esquerda Ausente (Anita Garibaldi, 2016), além do livro Guerra e Revolução: O mundo um século após outubro de 1917 (Boitempo, 2016).
O vice-presidente do PCdoB, Walter Sorrentino comenta o novo e polêmico volume de Losurdo, destacando o alerta que ele faz à esquerda ausente do debate mundial, em especial na Europa e nos EUA, dispersa que se encontra ou na subordinação ao neoliberalismo ou na consequência mínima da defesa de direitos sociais e econômicos. Como diz Losurdo já no título do seu último livro, a esquerda está “ausente”, ou seja, fugiu do debate público, deixando em seu lugar “o pensamento único neoliberal e neocolonialista”. Em outras palavras, o mesmo sistema de pensamento e práxis que gerou a crise econômica de 2008 está encarregado de explicá-la, graças a essa “ausência” da esquerda. O tema de seu livro é o estranhamento pelo modo como a esquerda não reivindica, nem reconhece suas conquistas, como as lutas anticoloniais.
Losurdo também faz uma defesa do socialismo chinês, por seu caráter progressista na nova ordem mundial, frequentemente condenado na esquerda como sendo um novo tipo de capitalismo de mercado. Para ele, o desenvolvimento da China é uma segunda etapa da luta anticolonial, ao promover um renascimento nacional, reconquista da integridade territorial e soberania plena. Sorrentino ressalta o modo como a geopolítica se move de forma a isolar e atingir a China. Ele cita a frase de Losurdo sobre um tema muito atual e brasileiro, a manipulação da democracia como arma dos setores reacionários: “É preciso reconhecer a amarga verdade de que se realizada prematura e ingenuamente, a democratização de um país pode significar o caminho livre para a desestabilização e os golpes, e permitir o triunfo de uma ditadura planetária do imperialismo”.
Losurdo reconhece que, nos últimos anos, essa esquerda “ausente” começou a despertar na Europa. O Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha e Jeremy Corbyn no Reino Unido são expressões desse primeiro despertar. “Mas acho que, em todos os casos, ainda não compreenderam a fortaleza do ataque contra o Estado de bem-estar. É um ataque furibundo, que requer uma resposta coordenada”, diz ele. Sorrentino também ressalta a importância da esquerda brasileira se posicionar com força neste momento crítico para a política nacional. Para ele, o livro é uma reflexão importante neste momento alarmante para a esquerda do Brasil.
http://www.grabois.org.br/portal/noticias/153447/2017-03-31/nos-95-anos-do-pcdob-seis-lancamentos-editoriais

15 dezembro, 2016

Miguel Urbano Rodrigues - Losurdo e a atualidade da luta de classes

Losurdo e a atualidade da luta de classes

 Miguel Urbano Rodrigues     17.Ene.17     Colaboradores
Uma leitura crítica da recente edição brasileira de «Luta de Classes - Uma História Política e Filosófica» de Domenico Losurdo. Obra oportuna e actualíssima numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo. A sua leitura abre espaço ao debate e à controvérsia, como é próprio da obra de um verdadeiro marxista.

Dececionado pelo defunto PCI e por Rifondazione Comunista, aderiu ao jovem Partido dos Comunistas Italianos.
Rejeita qualquer modalidade de dogmatismo e revisionismo. Fiel aos ensinamentos de Marx e Lenin, distancia se do reformismo e do dogmatismo subjetivista (bem caracterizado por Gyorgy Lukács) que durante décadas atingiu muitos partidos comunistas que, afirmando ser marxistas-leninistas, negavam na praxis a opção ideológica.
A editora brasileira Boitempo lançou em 2015 o seu último livro, A Luta de Classes-Uma História Política e Filosófica*.
É um ensaio difícil, árido, por vezes pesado, mas fascinante pela lucidez e criatividade.
O discurso de Losurdo sobre a luta de classes é oportuno e atualíssimo numa época de confusão ideológica promovida pela intelectualidade burguesa e por um sistema mediático ao serviço do capitalismo
DO MANIFESTO À ESCRAVATURA
Na introdução, o autor recorda que O Manifesto Comunista logo na abertura afirmava que «A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes». Enunciou uma evidência que a burguesia negava.
Losurdo comenta no Capitulo I o quadro europeu e mundial de exploração do homem que deu origem ao Manifesto Comunista e à reflexão de Marx que desembocou na teoria da luta de classes. O choque entre opressores e oprimidos tornaria inevitável uma luta de classes para a emancipação das vítimas.
A Revolução de1848 contribuiu para que «em vez de se apresentar imediatamente como económica, a luta de classes assumisse as formas politicas mais variadas (revoltas operárias e populares, insurreições nacionais, repressão desencadeada pela reação interna e internacional, recorrendo a instrumentos militares e económicos) em vez de desaparecer tornou-se mais dura».
Da Europa o autor salta para os Estados Unidos. Marx no primeiro livro do Capital qualifica a Guerra de Secessão como «o único acontecimento grandioso da história contemporânea». Somente anos mais tarde, o grande revolucionário compreendeu que a condição dos negros na sociedade norte-americana, dominada por uma oligarquia racista, mudaria muito menos do que ele esperava e desejava.
Meditando sobre o malogro da Revolução de 1848, Marx e Engels não desistem de incentivar o proletariado das potências industrializadas a rebelar-se, sublinhando que na Inglaterra, na França, na Alemanha os operários são afinal «escravos modernos».
Mas não esquecem que há outro tipo de «escravos modernos»: as nações oprimidas por estados poderosos e os povos das colónias africanas e asiáticas. Na Europa citam a Irlanda e a Polónia. A luta pela independência é nelas uma modalidade da luta de classes.
Para Losurdo a Guerra de l914/18 é também expressão da luta de classes, mas em sentido triplo. O conflito, segundo ele, remete para a luta das grandes potências capitalistas pela hegemonia mundial; nas metrópoles a classe dominante reduz a combatividade do proletariado através da prova de força no plano internacional; e, ao ampliar a exploração colonial, transforma a questão nacional numa questão social que configura uma luta de classes.
AVANÇOS E RECUOS DA REVOLUÇÃO
A transição do capitalismo para o socialismo e a extinção gradual do Estado são temas tratados exaustivamente do Capitulo III ao XII, sempre no contexto da luta de classes, exacerbada após a vitória de Outubro de 17.
A Nova Politica Económica – NEP foi criada na URSS após o malogro da política do comunismo de guerra. A fome assolava o país, invadido pelas potências da Entente e devastado pelos exércitos dos generais brancos.
Lenin ao concebê-la sabia que ela ia impor um recuo da Revolução, mas que era indispensável para a salvar. «A classe operaria-escreveu em 1920,ainda durante o comunismo de guerra- detém o poder estatal, mas é obrigada a aguentar grandes sacrifícios, morrer e a passar fome».
O paradoxo, salienta Losurdo, tornou-se mais evidente com a imposição da NEP: «Agora quem vive em condições económicas ostensivamente melhores do que a classe politicamente dominante é uma classe, ou setores de uma classe, que foi derrubada porque era exploradora».
O aparecimento do nepman, rico, corrupto e arrogante, indignava os trabalhadores e suscitou críticas de muitos militantes do Partido que chamavam à NEP a «Nova Extorsão do Proletariado». Destacados dirigentes como Alexandra Kollontai e o seu ex.amante Shlyapnikov aderiram então à chamada Oposição Operária.
Losurdo dedica páginas á formação da consciência de classe. Cita Gramsci mas, atento ao lado positivo do dirigente comunista italiano, não menciona sequer as ambíguas teses gramscianas em que o eurocomunismo, deturpando-as, se inspirou. E invoca opiniões de Mao Tse quando advertiu que a expropriação económica da burguesia não implicara o seu desaparecimento como classe quando o Partido Comunista conquistou o poder.
A Revolução Chinesa merece-lhe alias uma atenção especial. Losurdo esteve próximo do maoismo e isso é percetível na sua obra. No seu livro sobre a luta de classes transparece uma visão quase romântica do rumo que a China tomou apos as grandes reformas de Deng Xiaoping. É inegável que elas foram decisivas para a rápida transformação de um país atrasado, semicolonial, que cresceu num ritmo inédito, e tem hoje a segunda economia do mundo. Não cabe neste artigo uma reflexão mesmo superficial sobre a complexa experiencia chinesa. Mas julgo útil esclarecer que uma académica marxista francesa, Myléne Gaulard, afirma na sua tese de doutoramento, «Marx à Pékin», que a China continua a ser um país capitalista.

A TEMATICA DO NIVELAMENTO UNIVERSAL
No capítulo II Losurdo aborda a temática do «nivelamento universal».
Rebatendo a falsidade da tese de Alexis de Tocqueville – um escritor venerado pela burguesia francesa- no seu livro A Democracia na América, segundo a qual já não existiam praticamente classes sociais na Europa em meados do seculo XIX, o filósofo italiano afirma tratar se um enorme disparate reacionário
Para o liberal francês, principiou desde o seculo X no Ocidente «uma revolução nas condições de vida» dos povos que conduzira progressivamente a um «nivelamento universal». A nobreza recuara na escala social e a plebe avançara. Em breve estariam lado a lado.
Viveu porem o suficiente - faleceu em 1859 - para verificar, consternado, que a revolução industrial inglesa fizera ruir a sua absurda teoria. Tocquevlle aliás reconhecera que o «nivelamento» não impedia a existência de desníveis abissais entre os europeus e os africanos e asiáticos.
Losurdo sublinha que, no seu deslumbramento americano, Tocqueville simula esquecer a existência de milhões de escravos negros na pátria de Washington e Jefferson.
Com o seu desprezo pela «raça amarela» o autor da Democracia na América desconhece também que ainda em 1820 cabiam à China 32% do PIB mundial e à India 15%. O imperialismo britânico arruinou rapidamente os dois países.

O MITO DA PAZ UNIVERSAL DE STUART MILL A ARENDT E HABERMAS
No mesmo capítulo II e no capítulo XI, Losurdo evoca debates sobre o mito da paz universal e comenta posições de Hannah Arendt e de Jurgen Habermas relacionadas com uma imaginária nova ordem mundial que inviabilizaria novas guerras.
Lembra que o liberal Stuart Mill identificara no Imperio Britânico o prólogo a uma futura comunidade universal e à cooperação e à paz entre os povos. Para ele nenhum outro povo encarnava como o britânico a causa da liberdade e da moralidade internacional. E pretende justificar essa monstruosa opinião afirmando que as populações atrasadas têm o maior interesse em se integrarem nesse império para evitar a absorção por qualquer outro estado colonizador.
Conclusão: as guerras seriam em breve uma quase impossibilidade.
Losurdo obviamente ridiculariza e pulveriza o discurso imperialista de Stuart Mill.
Diferentes, mas igualmente aberrantes são as opiniões sobre a transformação do mundo de Arendt e do filósofo Habermas.
A sionista americana qualifica a luta de classes de «pesadelo». Para ela a ciência e a tecnologia estão a contribuir para o advento de uma nova ordem mundial.
A Historia desmente essa esperança. Losurdo cita dois exemplos. A introdução no Sul dos Estados Unidos da máquina de descaroçamento do algodão não afetou minimamente segundo ele o trabalho escravo. Em 1790 o total de escravos não atingia 697 000;em 1861, em vésperas da guerra da Secessão, ultrapassava 4 milhões.
Na India, o governador-geral, em 1864, definia como catástrofe social a introdução da maquinaria algodoeira. Arruinou milhões de tecelões hindus. «Dificilmente uma tal miséria - escreveu – encontra paralelo na história do comércio».
Ao contrapor os benefícios da tecnologia aos males da luta de classes, Arendt esboça um panorama otimista do futuro. O filósofo Habermas considera a luta de classes obsoleta e desnecessária. Segundo ele o estado social apos a II Guerra mundial conduzira a uma pacificação dos trabalhadores, tanto sob governos social-democratas como conservadores.
Essa ingénua convicção carecia de base científica. A brutal ofensiva do neoliberalismo, inspirado nas teses reacionárias do austríaco Friedrich Hayek, destruiu as bases do chamado estado social em toda a Europa.

O POPULISMO E A LUTA DE CLASSES
O último capítulo do livro, o XII, incide sobre «a luta de classes entre o marxismo e o populismo».
O autor cita repetidamente Simone Weil. Para Marx a luta de classes é o motor do processo histórico e social; para Weil «é um momento moralmente privilegiado na história e na vida dos homens». A francesa é uma crítica severa da modernidade, da indústria, das novas tecnologias. O seu populismo tem afinidades com o pacifismo de Gandhi e com ideias do senegalês Senghor e inclusive com o projeto de Proudhon de ajuda aos pobres.
Losurdo acha que o populismo, sobretudo o de esquerda, «estimula uma visão da luta de classes que exclui do seu raio de ação acontecimentos decisivos da história mundial».
Acrescentarei que um destacado populista de esquerda, o talentoso vice presidente da Bolívia Garcia Linera, exibindo uma máscara marxista, tem desempenhado um papel nocivo ao influenciar prestigiados intelectuais progressistas da América Latina.

A EXTINÇÃO DO ESTADO
São poucas as páginas em que Losurdo retoma no seu livro a problemática da extinção do Estado. Não conheço outro pensador comunista que tenha abordado com tamanha coragem e lucidez essa questão fulcral. Repete agora aquilo que noutros ensaios afirmou ao considerar romântica a tese marxiana da extinção gradual do estado. O autor do Capital via como desnecessário o Estado na futura sociedade comunista porque, desaparecidas as classes sociais nas sociedades socialistas adultas, o Estado seria nelas uma instituição supérflua, sem função.
Marx faleceu muito antes de que o rumo da História demonstrasse na primeira sociedade socialista a ingenuidade da teoria marxiana da extinção do Estado. Lenin tinha-a defendido no seu famoso livro O Estado e a Revolução, escrito nas vésperas de Outubro de 17. Mas teve de rever a sua posição. O Estado soviético em vez de caminhar para a extinção fortaleceu-se cada vez mais. Por motivos muito diferentes ocorreram processos similares na China, no Vietnam, em Cuba, nas democracias populares da Europa oriental.
Marx não podia adivinhar as respostas que a História daria à sua ousada previsão. Nem Lenin, nem Mao, nem Fidel e o Che podiam antecipar que o mítico homem novo imaginado por gerações de comunistas tardará muito a surgir. Ora, sem ele a transição do socialismo para o comunismo é impossível. A tendência para reconstituição gradual das classes sociais torna o Estado imprescindível.
***
Uma nota pessoal para findar este texto sobre o importante e polémico livro de Domenico Losurdo sobre a Luta de Classes.
O professor da Universidade de Urbino acumulou uma prodigiosa erudição. A sua cultura, que abarca múltiplos ramos do conhecimento, sobretudo nas áreas da filosofia, da história e da sociologia, contribui paradoxalmente para dificultar a leitura de alguns capítulos. Porquê? Pela rapidez das transposições. Muda inesperadamente de um tema para outro, de um autor para um acontecimento, de um tema económico para um exemplo, da análise de uma crise para uma citação que surpreende, da reflexão sobre as causas da desagregação da URSS para o mito do homem novo.

Losurdo é permanentemente imprevisível. Discordo de algumas posições suas. Mas a discordância não afeta a grande admiração que sinto pela obra e pelo homem.

*Domenico Losurdo, Luta de Classes - Uma História Política e Filosófica. Editora Boitempo, 391 páginas, São Paulo,2015
Vila Nova de Gaia, Dezembro de 2016

Fonte: http://www.odiario.info/losurdo-e-a-atualidade-da-luta/

21 julho, 2016

lançamento do novo livro de Domenico Losurdo no Brasil – A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra –


A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra


  
Falo de doutrina, propriamente, pois envolve o corpo teórico e a concepção de mundo que sobre ele se ergue, mais a ideologização que se faz historicamente na aguda polarização entre as duas doutrinas.

Muito especialmente, ele é incansável no combate à doutrina liberal, disseca-a, expõe suas entranhas, evidencia suas falácias e falsificações históricas, com formidável capacidade de travar o combate no plano da luta de ideias. Para ser consequente, ele precisaria sem dúvida ser igualmente implacável com a própria esquerda, em especial com a corrente dominante no século 20, do marxismo e leninismo. Ele o fez reiteradamente, no sentido de desencantá-la de qualquer traço positivista, determinista ou esquemática. Tem a mesma facilidade e rigor nesse plano, oriundo que é de uma apropriação do leninismo altamente politizada e historicizada, própria da capacidade de Gramsci e do velho PCI em criticar a codificação dele feita pela tradição da Terceira Internacional. Losurdo armou, assim, a perspectiva revolucionária marxista nas condições de países ocidentais, com razoável grau de desenvolvimento capitalista e da sociedade civil, ao contrário das condições da velha Rússia quando da revolução em 1917.


É esse estranhamento o tema crítico deste livro. A luta anticapitalista é, ainda hoje, necessariamente, a luta anti-imperialista simultânea. De onde a chamada questão nacional surge como fator destacado todavia hoje na luta dos povos, malgrado a malfadada globalização neoliberal – ou até pour cause -, que supostamente apagaria fronteiras quando jamais se viram tantas fronteiras de classes sociais, de renda, fronteiras físicas e políticas, de poderio militar, como hoje.

Segue abaixo o Prefácio que me foi solicitado pela Fundação Maurício Grabois para a edição brasileira do novo livro de Losurdo:
Não são “(…) insignificantes as distinções no âmbito da esquerda. No que se refere à política internacional, é preciso saber distinguir (…) a esquerda já subordinada a posições neoliberais e a esquerda que, de maneira mais ou menos consequente e mais ou menos lúcida (nos planos político e cultural), está empenhada na d

efesa dos direitos sociais e econômicos. (…) Resta o fato de que, apesar dos sinais de retomada aqui e ali do movimento comunista e, mais em geral, de uma esquerda realmente adversária da ordem existente (…), a esquerda no Ocidente parece caracterizada pela confusão e a dispersão. É uma situação preocupante que não pode ser superada apenas com a denúncia do oportunismo e mediante os apelos ao rigor revolucionário. Há necessidade, em primeiro lugar, de uma análise da nova situação mundial que foi criada: se ela servir para abrir um debate sobre esse tema crucial, este livro terá alcançado o seu objetivo”.

Com estas palavras termina a obra de Domenico Losurdo ora editada no país. E este prefácio não poderia começar de modo diverso senão afirmando: este livro serve ao debate, sim, muitíssimo.

A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra promove uma reflexão sobre a realidade mundial contemporânea do capitalismo e o imperialismo e é uma contribuição ao pensamento revolucionário classista próprio desse autor já consagrado no Brasil e no mundo.

É um libelo não ao feitio de acusação, mas de chamado crítico e generoso à esquerda nos países centrais do sistema capitalista, instando-a à tomada de consciência, à presença e responsabilidade, pois disto se trata: uma esquerda ausente no Ocidente liberal que se apresenta como patrono da “democracia” e dos “direitos humanos”, combate por vezes os efeitos do neoliberalismo, mas não de modo pleno o colonialismo, neocolonialismo e imperialismo..

Losurdo aponta para as “grandes divergências” no mundo atual, o entrelaçamento de dois processos entre si conflitivos: aquele dos países saídos da dominação colonial e neocolonial, empenhados na luta pelo desenvolvimento econômico e tecnológico autônomo (que alcança sucessos importantes, caso da China e de outros), que tende a contrastar e restringir o processo que por alguns séculos reservou ao Ocidente uma posição de absoluta superioridade em relação ao restante do mundo; e aquele, simultâneo, em que nos países capitalistas avançados se abre um abismo, a “grande divergência” que separa do resto da população uma elite opulenta cada vez mais restrita.

Para o autor, se constituiu uma nova fase no confronto entre colonialismo e neocolonialismo, que põe em questão se terá caráter progressivo ou regressivo quanto à ordem mundial na atualidade. Aliás, por isso mesmo, o papel e perspectivas da China têm alguma centralidade no debate promovido por Losurdo, embora certamente não tão exclusiva quanto a resenha crítica que o livro mereceu na Itália por parte de Luciano Canfora, respondido por diversos outros autores como Diego Angelo Bertozzi, Domenico di Iasio, João Carlos da Graça, Paolo Ercolani e outros. Nesse debate, foi valorizado que o desaparecimento do “bloco oriental” deixou o capitalismo e o liberalismo político suficientemente desenfreados para obter as coisas absolutamente à sua maneira.

Nesse pano de fundo, a China e sua trajetória representa uma prova de fogo no debate crítico desta obra. Para o autor, parece ser já um senso comum consolidado na esquerda ocidental a condenação do chamado “socialismo com características chinesas”, o qual teria levado a China, no dizer do crítico Luciano Canfora, a “exatamente o oposto do que pretendia ser em meados do século 20”. Para Di Iasio, ainda nesse debate italiano, Losurdo tem uma interpretação coerente do atual desenvolvimento da China como “a segunda etapa da luta anticolonial”. E, como lembrado por Bertozzi, a crítica de Canfora aponta a incapacidade de a esquerda levar em conta o fato inconteste do renascimento nacional chinês, a reconquista da integridade territorial e soberania plena, pelo caminho do socialismo com características chinesas, condição que lhe permite resistir ao projeto do imperialismo norte-americano no mundo.

Losurdo alerta com isso para o estado de desorientação e confusão da esquerda ocidental. E estende a crítica a outros inúmeros aspectos da atualidade mundial, em particular quanto ao fato de ela dever lutar, sim, pela defesa do Estado social, mas sem promover ao mesmo tempo a difusão da filosofia e ideologia largamente funcionais ao neoliberalismo. Saberá a esquerda, pergunta ele, dar sinais de vida, especificamente nos EUA e Europa?

Uma esquerda ausente: a imagem me remete de imediato à metáfora poderosa de Paolo Sorrentino em A grande beleza, em que Jep Gambardella (o excelente ator Toni Servillo), irônico e ácido, numa cena onírica que se passa nas Termas de Caracalla, se vê diante de uma girafa que, no instante seguinte, já não mais está lá. Sim, uma girafa, no país que conheceu o maior partido de esquerda do Ocidente até os anos 90 do século 20. Onde está a girafa? Onde está a esquerda?

Quem conhece a obra de Losurdo sabe do poderoso combate que ele trava contra as ideias liberais de ontem e de hoje.

Dotado de bagagem teórica e amplo domínio dos fatos históricos, arguta capacidade em lidar com a história das ideias, ele é capaz de ir às raízes do pensamento liberal com a crítica implacável. O mais impressionante neste livro é o panorama em grandes traços históricos da luta da esquerda do século 19 até hoje, atualizado com uma multiplicidade de fatos empíricos da opressão capitalista tal como se configuraram após a guerra fria e a débâcle do socialismo, sob a forma de crises, guerras e sociedade do espetáculo.

Em oito capítulos, com 65 subtemas concatenados, da guerra fria à exportação do “livre mercado” e “democracia” pela força das armas, do colonialismo à luta de resistência das esquerdas políticas e sociais, do imperialismo de livre comércio e dos direitos humanos até o papel da rede internet e as formas culturais de dominação, desfilam pelo livro o papel dos EUA e Europa, a geopolítica, o papel da China e Rússia e as experiências sul-americanas.

São penetrantes as análises sobre as guerras militares e comunicacionais contemporâneas, o neocolonialismo econômico-tecnológico-judicial, o papel da ideologia liberal da plutocracia, os novos perigos de guerra no quadro mundial e a luta tenaz entre uma ordem mundial unipolar e multipolar. Desse modo, Losurdo arma a esquerda contra os ideólogos do liberalismo, denunciando cada desastre que ele provoca contra os trabalhadores, arrastando povos e nações inteiras à regressão civilizacional.

Com isso, ele compõe o cenário próprio para o pensar estratégico transformador do tempo atual. Como bom marxista e leninista que é, ele parte da luta de classes sob as diversas variantes e alcançando o universalismo de projeto político alternativo de sociedade, sem traços de positivismo e de abstrações idealizantes fora dos marcos das relações de classe e de forças, internas e externas.

A obra de Losurdo tem um fio condutor marcante que é a luta nacional como expressão da luta de classes contemporânea, sob a pauta da soberania nacional, a autodeterminação e o desenvolvimento econômico e tecnológico autônomo, base para o atendimento das demandas democráticas e sociais de uma nova ordem social.

Assim, manejando as três vertentes entrelaçadas – democrática, social e nacional –, ele resgata a centralidade da questão nacional, dando continuidade ao eixo histórico da luta anticolonial e anti-imperialista e das revoluções socialistas do século 20, para confrontar a tendência principal desta época, a globalização neoliberal, o imperialismo, a unipolaridade, o monopólio da produção material e da produção intelectual, os poderes financeiros, midiáticos, culturais, militares, diplomáticos e políticos de que dispõe. A isso corresponde a luta pelo desenvolvimento soberano e por fazer dos Estados nacionais sob direção progressista uma força de contraste com essa ordem, como se processou na experiência sul-americana nestas primeiras décadas do século 21.

Por isso, seu chamado crítico é impiedoso: “(…) não possui nenhuma credibilidade uma profissão de fé democrática que não lute em primeiro lugar pela democratização das relações internacionais […] Infelizmente, à pretensão ‘universalista’ do imperialismo continua a dar crédito a esquerda ocidental que frequentemente apoia as ‘guerras humanitárias’ ou se revela incerta e hesitante em questioná-las”.

E, irônico, quando afirma, por exemplo, a “amarga verdade [de que,] se realizada prematura e ingenuamente, a democratização de um país pode significar o caminho livre para as manobras desestabilizadoras e golpistas e permitir o triunfo da ditadura planetária do imperialismo”. Ou então ao nomear de “cibertontos” aqueles que levam terrivelmente a sério a propaganda relativa à “espontaneidade” da internet, sem se dar conta da dimensão geopolítica da rede.

Ao leitor brasileiro, estas páginas têm sentido especial na atual conjuntura.

Neste momento está se consumando uma subversão institucional no Brasil. As manobras do consórcio político-jurídico-midiático constituído golpeiam a democracia e, com isso, as bases do projeto capaz de promover desenvolvimento autônomo e soberano, democratizar de fato as relações sociais, e reservar ao país papel altivo na luta por uma ordem mundial mais democrática.

Mais uma vez na história política brasileira, é a esquerda quem sustenta a causa democrática e denuncia o golpe na Constituição de 1988. Reitera, assim, o fundamento que tem a questão democrática numa estratégia revolucionária classista. Mas os fatos servem para alertar que não se pode fazer nenhuma cedência quanto ao fato de que a pretensa absolutização e a certeira manipulação da “democracia” sejam uma poderosa arma das forças conservadoras e reacionárias.

Trata-se aqui da vulgata liberal dominante, em nome da qual se acentua o papel conservador do Estado, o esvaziamento de seu verdadeiro papel, cujos fundamentos são capturados pelos poderes financeiros e corporativos, minado por bolsões do Estado ditos “autônomos” (em voga em nosso país, na “luta contra a corrupção” e na formulação de um abstrato e tíbio “republicanismo”) e pelas causas multiculturalistas, antinacionais e antipopulares. Como disse o professor Belluzzo, do que se trata é da retomada do poder formal para ajustá-lo ao poder real dos donos do poder (…), concentrado no capital financeiro e nos seus porta-vozes na grande mídia. É quando a lógica da finança globalizada avança no território outrora ocupado pelas opções da política democrática, a garantir interesses nacionais e populares.

Evidencia-se que a questão democrática desligada de projeto de nação independente tem se revelado campo fértil para ilusões sobre a luta de classes e o caráter de classe do Estado, por um lado, e, por outro, para a formação de uma nova direita promovendo aventuras neoliberais. A esquerda brasileira também está chamada a evidenciar e ultrapassar as contradições e limites da experiência destes treze anos e meio de governo até o momento, dando contribuições ao necessário balanço crítico da experiência de governos progressistas sul-americanos, cujo ciclo está sob poderosa contraofensiva reacionária liderada pelos EUA e associados.

Sem dúvida, as reflexões de Losurdo nesta obra estarão presentes nesse esforço dos brasileiros e dos latino-americanos.






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 Walter Sorrentino é médico, vice-presidente nacional do PCdoB e diretor da União Brasileira de Escritores


http://www.vermelho.org.br/noticia/283726-1
 Fonte: Blog do Sorrentino

24 junho, 2016

“Stalin: história e crítica de uma lenda negra”. Um livro de Domenico Losurdo PDF Print E-mail Em artigo datado e 27 de outubro de 2009, Miguel Urbano Rodrigues comenta o tom ainda emocional do debate sobre o chamado "estalinismo". Não à toa, descreve em seu texto que "Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo." Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia. Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin - Storia e critica de una leggenda nera*, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava. Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor. Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polémicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo. Domenico Losurdo aborda no seu Stalin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema. Stalin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História. Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stalin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio. A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio. A DEMONIZAÇÃO DE STALIN A demonização de Stalin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lenine grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stalin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governação ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor «o socialismo real» mediante métodos criminosos. Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stalin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stalin. Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos – Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade. O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um «fenômeno histórico» que é também «uma teoria e uma prática política» que exorciza. DA ESPERANÇA À REALIDADE Sobre Stalin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polaco Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoista), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil. Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos, encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz. O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stalin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena. Acompanhando a trajetória de Stalin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma seleção de fatos e acontecimentos e situa Stalin nos cenários em que atuou. Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi exceção à regra. Mas, quando ela triunfou, eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica. O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lenine sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: “A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da Republica soviética internacional”. A previsão foi rapidamente desmentida pela História. O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lenine. Após a derrota da revolução alemã, o autor de “O Estado e a Revolução” teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do “socialismo num só pais” e, desaparecido Lenine, acusou de covardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial. Losurdo lembra que Stalin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais. Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polônia, das repúblicas bálticas e das grandes potências capitalistas, Stalin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais. Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com “o ascetismo universal”, Stalin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: “seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres.” Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stalin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS pós Lenine, e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações. São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stalin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado. A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx e exaustivamente analisada por Lenine, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial. Às críticas de Trotsky – então no exílio – à Constituição Soviética de 1936, Stalin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica. O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS “consiste num trabalho pacífico de organização econômica e no trabalho cultural e educativo”. A antiga função repressiva fora “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do povo”. Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que, em 1938, “imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag”. Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é valida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista? Losurdo recorda que na posição assumida por Stalin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS atuava num terreno minado, o que o expunha à acusação de «traidor» lançada por Trotsky. A partir do início dos anos 30, Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de “agentes do inimigo”. Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stalin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trotsky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam “libertar a Ucrânia soviética do jugo staliniano”, intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas. A OUTRA “GUERRA CIVIL” Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 1917 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional. Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polêmicos no Politburo e no Comitê Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lenine retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte. Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Khruchov ao XX Congresso apresenta desse período histórico uma visão distorcida e fantasista. A tese de Khruchov, segundo a qual cabe a Stalin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kirov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade, Kirov tinha uma grande admiração por Stalin, que depositava nele uma confiança total. As conspirações para afastar Stalin do Poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem, na opinião do filósofo marxista italiano, para falsificar a história. E atingiram esse objetivo. Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stalin diferente do ditador cruel, megalômano e vingativo cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Khruchov, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas. Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polêmica na Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscou. De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS – lida por Krupskaia, mas somente publicada anos depois – estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stalin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lenine. Losurdo define o conflito ideológico da época como uma “guerra civil” que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano de 1938. Na primeira fase da luta pelo poder, Stalin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polêmicas mantidas com Lenine. O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller – Técnica do Golpe de Estado – publicado na França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano de 1927, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão. Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stalin, mas sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objetivo era o afastamento de Stalin, mas o projeto fracassou, e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky. Bukharin, sempre imprevisível, fora até então – segundo Losurdo – como diretor do Izvestia, um aliado firme de Stalin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da coletivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adotada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente, que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista, deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adotando uma orientação democrático-burguesa, o que significaria uma regressão histórica. Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stalin tomou então a iniciativa de desencadear “uma guerra civil preventiva” contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique. A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo. Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o sanguinário terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama “as verdadeiras forças comunistas”. Nos processos de Moscou, os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukharin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projeto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo. Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários. Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa. Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa. Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polônia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stalin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 1936 contra o Japão na Mongólia. Transcorridos 70 anos, continua a ser polêmica a questão dos contatos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no “Bonaparte da Revolução Bolchevique” acumularam provas que o comprometem. O checoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contatos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filoalemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stalin tinha uma divida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscovo, Joseph Davies, alude também a uma “conspiração dos militares”. O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stalin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que “tudo depende daquilo que se entenda por conspiração”. Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direcção do PCUS após a morte de Lenine, Losurdo emprega repetidamente a expressão “as três guerras civis” para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukharin. O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukharin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stalin de “o representante do neotrotskismo” e “intrigante sem princípios”. Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky, que lhe inspirava temor e admiração. AS ORIGENS DO STALINISMO A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade, morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores. Losurdo, no capítulo em que estuda as “origens do stalinismo”, recorda que Stalin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um “nacionalismo sadio”, do “sentimento nacional e da ideia de pátria” com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS, afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler. Stalin é acusado de defender um conceito de estado e uma politica de nacionalidades cuja aplicação refletiu contradições antagônicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de “povos sem história”, incluindo o da sua Polônia natal. Stalin, pelo contrario, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária. Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lenine, não encontraram, porém, tradução na práxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto. Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de “uma língua única para a humanidade» «quando o socialismo triunfar em nível mundial”. Sublinhando que a língua não é uma superestrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas “por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações”. No seu denso ensaio, cuja riqueza conceitual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da coletivização das terras. Citando a Fenomenologi do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da «liberdade absoluta» e do «terror», sustenta que «o “stalinismo” não é o resultado ” nem da sede de poder de um individuo, nem de uma ideologia, mas do estado de exceção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914″. A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stalin não era ainda um autocrata. Segundo Werth, não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado. Em 1925, em plena NEP, Stalin expressava opiniões como esta: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”; “agora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização”… Então considerava um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado”. Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS, para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo. Mas terá sido somente a partir de 1937, com o Grande Terror – expressão utilizada por Losurdo – que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia? Nas Obras Completas de Stalin são, porém, numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma politica de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos. O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stalin tinha de que, após a derrota do III Reich hitleriano, se abriria à Aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista. Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polônia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. “Não é obrigada a isso, não é necessário”. E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: “é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado”. E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: “Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa”. O americano Robert Conquest, o historiador de ultradireita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que “Stalin estava repensando ativamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo”. O que não suscita dúvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade. SOBRE A POPULARIDADE DE STALIN E OS GULAG Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stalin. Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente. Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 1937-38, a base social de apoio à política de Stalin amplia-se. Verifica-se, escreve Losurdo, “uma interação paradoxal e trágica”.Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento econômico e cultural e, por outro, do medo suscitado pela repressão, “dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se diretores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas”. Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscou, ao passar pela Praça Vermelha, resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: “Quem esteve em Moscou e não viu Lenine, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa”. Nas campanhas anticomunistas, os textos sobre os Gulags siberianos criados por Stalin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin. Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual. Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário, inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objectivos. Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulags, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho soviéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS – salienta Losurdo – a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos .O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulags onde os homens eram tratados como “animais selvagens”. Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espectáculos, concertos e conferências e que os prisioneiros em muitos Gulags estavam autorizados a publicar jornais murais. A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de anistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas. Losurdo, numa crítica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, falsificando-a, procede a um breve inventário dos horrores de campos de concentração criados por potências ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silêncio. A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himler. Os aborígenes, aliás, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais. E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa – incluindo crianças – cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos. É do domínio público que, na primeira metade do século XX, os linchamentos de negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espectáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles. Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes. O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo. Na Alemanha ignora-se o genocídio planejado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colônia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II. Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o fato de que o objetivo dos campos da morte do país foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto. A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo. Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola. STALIN E OS JUDEUS A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadunidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram, nas últimas décadas, uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stalin. A receita é primária: Stalin e Hitler seriam “monstros gêmeos”. Losurdo, na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi, analisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadunidense Ana Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola. Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stalin como um antissemita fanático. Atribui-lhe uma “política canibalesca“contra os judeus, baseada num ódio racial feroz. O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a coletivização, afirma que Stalin transformou aquela Republica soviética num “imenso Bergen Belsen” (um campo de extermínio alemão). Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação politico cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por “infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich”. Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilaram a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS. Losurdo, ao refutar as acusações de antissemitismo feitas a Stalin, recorda que, após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adotou “uma politica fundamentalmente filo-hebraica”. A URSS foi, aliás, o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos atuaram como “advogados de Israel” na Conferência da ONU sobre a questão palestiniana. Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam, aliás, documentação que confirma uma realidade hoje incômoda por muitos motivos: “a União Soviética contribuiu de maneira essencial – como escreve Losurdo – para a criação e fortalecimento do Estado hebraico.” Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o antissemitismo com expressões como “chauvinismo racial” e “canibalismo”. Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus; Zhdanov, um dirigente no qual Stalin depositou uma confiança irrestrita, também era judeu. E, durante décadas, milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético. Hitler, nas suas catilinárias antissemitas, atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma “horda terrorista hebraica” de “asiáticos circuncisados” e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lenine. E dizia que Stalin era um judeu, não pelo sangue, mas pelo espírito. A politica pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 graus, assumindo uma orientação antissionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meir a Moscou, iniciaram contatos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objetivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos. “Cada hebreu – teria dito então Stalin, segundo Roy Medvedev – é um nacionalista, é um agente da espionagem americana”. Losurdo aborda com cautela o tema da alegada “conspiração” dos médicos judeus de Stalin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polêmicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complot. O diplomata britânico Sir Joe Gascoigne admitiu, na época, que os médicos do Kremlin eram “culpados de traição”. COMUNISMO, ANTÍTESE DO FASCISMO A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista, na qual um dos objetivos era a destruição da imagem positiva projetada no mundo pela União Soviética, produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine. A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como “O império do mal” e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas críticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lenine tornaram-se então alvos preferenciais dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projeto fracassado, não apenas utópico, mas monstruoso. Qualquer cientista p lítico minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas, simulando ignorar a evidência – o comunismo é uma fase superior do socialismo –, os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS. A maioria dos Partidos Comunistas – o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são, na Europa, exceções ao revisionismo – não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS, como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas. Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas. Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que acadêmicos de grandes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicados sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Ana Arendt, foram best-sellers mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade. Domenico Losurdo, nos capítulos dedicados à psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stalin e à aberração das comparações entre este e Hitler, desce às origens e motivações da estratégia anticomunista. Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O Presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente um complot alemão, e Lenine e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial. Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biênio 1937-38 dos Processos de Moscou, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stalin. Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas, enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos “monstros comunistas”. Recorda – apenas um exemplo – que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porém, que esse massacre abjeto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros – como prova do caráter bárbaro, desumano do regime soviético. Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manuais de História, Losurdo cita, entre outros: - A morte por fome e maus tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães na Frente Leste. - A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quênia, após a rebelião dos Mau Mau. - O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objetivos militares, com o objetivo de aterrorizar as populações. - A execução na Sicília, por ordem do general Patton, de soldados italianos que se tinham rendido ao exército americano. - O genocídio nas Filipinas, no começo do século XX, durante a revolta contra a ocupação norte-americana. - O extermínio total da população aborígene da Tasmânia. - A recusa de fazer prisioneiros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX, na qual Churchill participou como oficial de cavalaria. - A execução em Taejon, em julho de 1950, de 1700 coreanos que, antes do fuzilamento, foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados. - O extermínio, pelo exército dos EUA, do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietname e no Laos. - A ordem de Nixon, no inicio dos anos 70, para que fossem lançadas, nas áreas rurais do Camboja, mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial. - E o mais trágico e abjeto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial. Churchill declarou, em 1933, que via “o gênio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo”… Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político “extremamente competente”, com um “sorriso que desarmava”e um “sutil magnetismo pessoal”. Lloyd George, o ex-primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como “um grande homem”. Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais, cujos anátemas contra a URSS e Stalin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas, reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS. Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que, na Conferência de Teerã, lhe causara a personalidade de Stalin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura. Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referências altamente elogiosas a Stalin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX. Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar, no famoso discurso de Fulton, os perigos daquilo a que chamou a “Cortina de Ferro”. Obviamente o Relatório Secreto de Khruchov trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stalin. A abertura dos arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stalin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência direta na condução da guerra patriótica. A tese provocatória dos monstros gêmeos”, difundida por Ana Arendt e outros escritores anticomunistas, não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stalin. Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS staliniana. A escritora sionista pretende iluminar “a origem do totalitarismo”, mas, na realidade, o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukacs chama o assalto à razão. A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranóia. Losurdo pulveriza a tese e lembra, com fundamento, que, pelo pensamento e pela sua intervenção na história, foram precisamente duas personalidades antagônicas. Enquanto Hitler fez do racismo um cimento do Estado nazi, Stalin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stalin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos. Sob a sua direção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na África, na Ásia e na América Latina. Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que, sem a Revolução Russa, o chamado estado social não teria sido possível na Europa. Atualizado em 24.06.16

Em artigo datado e 27 de outubro de 2009, Miguel Urbano Rodrigues comenta o tom ainda emocional do debate sobre o chamado "estalinismo". Não à toa, descreve em seu texto que "Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo."
Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia.
Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin - Storia e critica de una leggenda nera*, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava.
Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor.
Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Sobre Trotsky – Do Mito à Realidade (odiario.info). Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polémicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo.
Domenico Losurdo aborda no seu Stalin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema.
Stalin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História.
Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stalin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio.
A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio.
A DEMONIZAÇÃO DE STALIN
A demonização de Stalin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lenine grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stalin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governação ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor «o socialismo real» mediante métodos criminosos.
Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stalin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stalin.
Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos – Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade.
O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um «fenômeno histórico» que é também «uma teoria e uma prática política» que exorciza.
DA ESPERANÇA À REALIDADE
Sobre Stalin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polaco Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoista), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil.
Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos, encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz.
O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stalin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena.
Acompanhando a trajetória de Stalin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma seleção de fatos e acontecimentos e situa Stalin nos cenários em que atuou.
Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi exceção à regra. Mas, quando ela triunfou, eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica.
O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lenine sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: “A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da Republica soviética internacional”.
A previsão foi rapidamente desmentida pela História.
O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lenine. Após a derrota da revolução alemã, o autor de “O Estado e a Revolução” teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do “socialismo num só pais” e, desaparecido Lenine, acusou de covardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial.
Losurdo lembra que Stalin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais.
Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polônia, das repúblicas bálticas e das grandes potências capitalistas, Stalin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais.
Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com “o ascetismo universal”, Stalin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: “seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres.”
Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stalin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS pós Lenine, e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações.
São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stalin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado.
A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx e exaustivamente analisada por Lenine, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial.
Às críticas de Trotsky – então no exílio – à Constituição Soviética de 1936, Stalin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica.
O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS “consiste num trabalho pacífico de organização econômica e no trabalho cultural e educativo”. A antiga função repressiva fora “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do povo”.
Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que, em 1938, “imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag”.
Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é valida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista?
Losurdo recorda que na posição assumida por Stalin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS atuava num terreno minado, o que o expunha à acusação de «traidor» lançada por Trotsky.
A partir do início dos anos 30, Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de “agentes do inimigo”.
Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stalin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trotsky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam “libertar a Ucrânia soviética do jugo staliniano”, intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas.
A OUTRA “GUERRA CIVIL”
Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 1917 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional.
Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polêmicos no Politburo e no Comitê Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lenine retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte.
Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Khruchov ao XX Congresso apresenta desse período histórico uma visão distorcida e fantasista.
A tese de Khruchov, segundo a qual cabe a Stalin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kirov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade, Kirov tinha uma grande admiração por Stalin, que depositava nele uma confiança total.
As conspirações para afastar Stalin do Poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem, na opinião do filósofo marxista italiano, para falsificar a história. E atingiram esse objetivo.
Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stalin diferente do ditador cruel, megalômano e vingativo cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Khruchov, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas.
Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polêmica na Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscou.
De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS – lida por Krupskaia, mas somente publicada anos depois – estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stalin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lenine.
Losurdo define o conflito ideológico da época como uma “guerra civil” que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano de 1938. Na primeira fase da luta pelo poder, Stalin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polêmicas mantidas com Lenine.
O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller – Técnica do Golpe de Estado – publicado na França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano de 1927, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão.
Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stalin, mas sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objetivo era o afastamento de Stalin, mas o projeto fracassou, e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky.
Bukharin, sempre imprevisível, fora até então – segundo Losurdo – como diretor do Izvestia, um aliado firme de Stalin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da coletivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adotada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente, que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista, deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adotando uma orientação democrático-burguesa, o que significaria uma regressão histórica.
Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stalin tomou então a iniciativa de desencadear “uma guerra civil preventiva” contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique.
A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo.
Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o sanguinário terror desencadeado por Stalin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama “as verdadeiras forças comunistas”.
Nos processos de Moscou, os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukharin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projeto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo.
Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários.
Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa.
Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa.
Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polônia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stalin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 1936 contra o Japão na Mongólia.
Transcorridos 70 anos, continua a ser polêmica a questão dos contatos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no “Bonaparte da Revolução Bolchevique” acumularam provas que o comprometem.
O checoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contatos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filoalemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stalin tinha uma divida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscovo, Joseph Davies, alude também a uma “conspiração dos militares”. O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stalin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que “tudo depende daquilo que se entenda por conspiração”.
Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direcção do PCUS após a morte de Lenine, Losurdo emprega repetidamente a expressão “as três guerras civis” para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukharin.
O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukharin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stalin de “o representante do neotrotskismo” e “intrigante sem princípios”. Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky, que lhe inspirava temor e admiração.
AS ORIGENS DO STALINISMO
A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade, morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores.
Losurdo, no capítulo em que estuda as “origens do stalinismo”, recorda que Stalin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um “nacionalismo sadio”, do “sentimento nacional e da ideia de pátria” com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS, afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler.
Stalin é acusado de defender um conceito de estado e uma politica de nacionalidades cuja aplicação refletiu contradições antagônicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de “povos sem história”, incluindo o da sua Polônia natal. Stalin, pelo contrario, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária.
Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lenine, não encontraram, porém, tradução na práxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto.
Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de “uma língua única para a humanidade» «quando o socialismo triunfar em nível mundial”. Sublinhando que a língua não é uma superestrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas “por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações”.
No seu denso ensaio, cuja riqueza conceitual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da coletivização das terras.
Citando a Fenomenologi do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da «liberdade absoluta» e do «terror», sustenta que «o “stalinismo” não é o resultado ” nem da sede de poder de um individuo, nem de uma ideologia, mas do estado de exceção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914″.
A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stalin não era ainda um autocrata. Segundo Werth, não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado.
Em 1925, em plena NEP, Stalin expressava opiniões como esta: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”; “agora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização”… Então considerava um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado”.
Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS, para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo.
Mas terá sido somente a partir de 1937, com o Grande Terror – expressão utilizada por Losurdo – que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia?
Nas Obras Completas de Stalin são, porém, numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma politica de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos.
O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stalin tinha de que, após a derrota do III Reich hitleriano, se abriria à Aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista.
Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polônia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. “Não é obrigada a isso, não é necessário”. E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: “é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado”. E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: “Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa”.
O americano Robert Conquest, o historiador de ultradireita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que “Stalin estava repensando ativamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo”.
O que não suscita dúvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade.
SOBRE A POPULARIDADE DE STALIN E OS GULAG
Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stalin.
Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente. Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 1937-38, a base social de apoio à política de Stalin amplia-se. Verifica-se, escreve Losurdo, “uma interação paradoxal e trágica”.Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento econômico e cultural e, por outro, do medo suscitado pela repressão, “dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se diretores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas”.
Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscou, ao passar pela Praça Vermelha, resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: “Quem esteve em Moscou e não viu Lenine, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa”.
Nas campanhas anticomunistas, os textos sobre os Gulags siberianos criados por Stalin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin.
Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual.
Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário, inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objectivos.
Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulags, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho soviéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS – salienta Losurdo – a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos .O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulags onde os homens eram tratados como “animais selvagens”.
Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espectáculos, concertos e conferências e que os prisioneiros em muitos Gulags estavam autorizados a publicar jornais murais.
A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de anistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas.
Losurdo, numa crítica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, falsificando-a, procede a um breve inventário dos horrores de campos de concentração criados por potências ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silêncio.
A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himler. Os aborígenes, aliás, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais.
E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa – incluindo crianças – cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos.
É do domínio público que, na primeira metade do século XX, os linchamentos de negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espectáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles.
Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes.
O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo.
Na Alemanha ignora-se o genocídio planejado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colônia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II.
Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o fato de que o objetivo dos campos da morte do país foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto.
A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo.
Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola.
STALIN E OS JUDEUS
A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadunidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram, nas últimas décadas, uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stalin.
A receita é primária: Stalin e Hitler seriam “monstros gêmeos”.
Losurdo, na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi, analisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadunidense Ana Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola.
Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stalin como um antissemita fanático. Atribui-lhe uma “política canibalesca“contra os judeus, baseada num ódio racial feroz.
O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a coletivização, afirma que Stalin transformou aquela Republica soviética num “imenso Bergen Belsen” (um campo de extermínio alemão).
Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação politico cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por “infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich”.
Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilaram a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS.
Losurdo, ao refutar as acusações de antissemitismo feitas a Stalin, recorda que, após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adotou “uma politica fundamentalmente filo-hebraica”. A URSS foi, aliás, o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos atuaram como “advogados de Israel” na Conferência da ONU sobre a questão palestiniana.
Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam, aliás, documentação que confirma uma realidade hoje incômoda por muitos motivos: “a União Soviética contribuiu de maneira essencial – como escreve Losurdo – para a criação e fortalecimento do Estado hebraico.”
Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o antissemitismo com expressões como “chauvinismo racial” e “canibalismo”.
Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus; Zhdanov, um dirigente no qual Stalin depositou uma confiança irrestrita, também era judeu. E, durante décadas, milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético.
Hitler, nas suas catilinárias antissemitas, atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma “horda terrorista hebraica” de “asiáticos circuncisados” e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lenine. E dizia que Stalin era um judeu, não pelo sangue, mas pelo espírito.
A politica pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 graus, assumindo uma orientação antissionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meir a Moscou, iniciaram contatos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objetivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos.
“Cada hebreu – teria dito então Stalin, segundo Roy Medvedev – é um nacionalista, é um agente da espionagem americana”.
Losurdo aborda com cautela o tema da alegada “conspiração” dos médicos judeus de Stalin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polêmicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complot. O diplomata britânico Sir Joe Gascoigne admitiu, na época, que os médicos do Kremlin eram “culpados de traição”.
COMUNISMO, ANTÍTESE DO FASCISMO
A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista, na qual um dos objetivos era a destruição da imagem positiva projetada no mundo pela União Soviética, produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine.
A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como “O império do mal” e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas críticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lenine tornaram-se então alvos preferenciais dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projeto fracassado, não apenas utópico, mas monstruoso.
Qualquer cientista p lítico minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas, simulando ignorar a evidência – o comunismo é uma fase superior do socialismo –, os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS.
A maioria dos Partidos Comunistas – o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são, na Europa, exceções ao revisionismo – não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS, como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas.
Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas.
Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que acadêmicos de grandes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicados sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Ana Arendt, foram best-sellers mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade.
Domenico Losurdo, nos capítulos dedicados à psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stalin e à aberração das comparações entre este e Hitler, desce às origens e motivações da estratégia anticomunista.
Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O Presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente um complot alemão, e Lenine e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial.
Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biênio 1937-38 dos Processos de Moscou, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stalin.
Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas, enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos “monstros comunistas”.
Recorda – apenas um exemplo – que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porém, que esse massacre abjeto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros – como prova do caráter bárbaro, desumano do regime soviético.
Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manuais de História, Losurdo cita, entre outros:
- A morte por fome e maus tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães na Frente Leste.
- A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quênia, após a rebelião dos Mau Mau.
- O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objetivos militares, com o objetivo de aterrorizar as populações.
- A execução na Sicília, por ordem do general Patton, de soldados italianos que se tinham rendido ao exército americano.
- O genocídio nas Filipinas, no começo do século XX, durante a revolta contra a ocupação norte-americana.
- O extermínio total da população aborígene da Tasmânia.
- A recusa de fazer prisioneiros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX, na qual Churchill participou como oficial de cavalaria.
- A execução em Taejon, em julho de 1950, de 1700 coreanos que, antes do fuzilamento, foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados.
- O extermínio, pelo exército dos EUA, do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietname e no Laos.
- A ordem de Nixon, no inicio dos anos 70, para que fossem lançadas, nas áreas rurais do Camboja, mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial.
- E o mais trágico e abjeto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.
O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA
Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial.
Churchill declarou, em 1933, que via “o gênio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo”…
Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político “extremamente competente”, com um “sorriso que desarmava”e um “sutil magnetismo pessoal”.
Lloyd George, o ex-primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como “um grande homem”.
Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais, cujos anátemas contra a URSS e Stalin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas, reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS.
Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que, na Conferência de Teerã, lhe causara a personalidade de Stalin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura.
Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referências altamente elogiosas a Stalin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX.
Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar, no famoso discurso de Fulton, os perigos daquilo a que chamou a “Cortina de Ferro”.
Obviamente o Relatório Secreto de Khruchov trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stalin.
A abertura dos arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stalin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência direta na condução da guerra patriótica.
A tese provocatória dos monstros gêmeos”, difundida por Ana Arendt e outros escritores anticomunistas, não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stalin.
Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS staliniana.
A escritora sionista pretende iluminar “a origem do totalitarismo”, mas, na realidade, o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukacs chama o assalto à razão.
A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranóia.
Losurdo pulveriza a tese e lembra, com fundamento, que, pelo pensamento e pela sua intervenção na história, foram precisamente duas personalidades antagônicas.
Enquanto Hitler fez do racismo um cimento do Estado nazi, Stalin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stalin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos.
Sob a sua direção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na África, na Ásia e na América Latina.
Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que, sem a Revolução Russa, o chamado estado social não teria sido possível na Europa.
Atualizado em 24.06.16