16 Março, 2012

Osvaldo Luiz Ribeiro acerca de: "Fundamentalismo" - um capítulo de "A Linguagem do Império", de Domenico Losurdo



1. Há textos não-fundamentalistas na Bíblia. Mas a maioria é fundamentalista - sejam os textos do Antigo Testamento, sejam os textos do Novo Testamento. Quando quaisquer dos muitos Cristianismos precisam de "bases sólidas", acham-nas liberalmente na coleção de textos das Escrituras - selecionando-as, claro, segundo seus respectivos interesses dogmáticos. Todavia, há nas Escrituras textos contra-fundamentalistas também. São poucos, mas há. Textos impressionantemente lúcidos. Extraordinariamente críticos.

2. Eram textos de resistência, o que significa que eram escritos por grupos críticos em relação aos centros de poder político - as mais das vezes, sacerdotais. Uma vez que não detinham poder de reação no mesmo nível do poder detido pelos centros políticos, reagiam no campo da transgressão das ideias, no campo retórico. Imagino-os à volta de fogueiras, do forno, à noite, após o trabalho, lendo as peças de crítica contra o poder central.

3. Cito dois casos. Amós não chega a negar o "êxodo". Ele o (re)conhece. Mas trata-o como um movimento à semelhança de outros, que igualmente cita e (re)conhece. Amós argumenta: Deus tirou os israelitas do Egito, mas igualmente, tirou os filisteus de Caftor e os arameus de Qir. E arremata, como se fora Yahweh a falar: "vocês não são para mim melhores do que os etíopes" (Am 9,7). Povo eleito? Que nada. Apenas mais um sob os cuidados do deus.

4. Outro texto é Ex 33,18-23. Um texto contra-sacerdotal. Nega-se ao sacerdote a prerrogativa de ver a glória/face de Yahweh e, por meio disso, deter as prerrogativas de dispensar as bondades do deus, caminhar à frente do povo e decidir quem é e quem não é digno da misericórdia da divindade. O sujeito - anônimo - é colocado insistentemente no meio do povo, atrás de Yahweh, ele sim, quem deve ir, sozinho, à frente. Um texto bastante alinhado com as teses protestantes - as teses do papel, claro (na prática, os protestantes [como os católicos] aliaram-se ao sujeito anônimo do texto: tomaram o partido sacerdotal). Que se trata de ironia, revela-o o final da narrativa: Yahweh coloca o "sujeito" no buraco da penha, tapa com a mão, e passa; depois de passar, tira a mão, e o sujeito pode, apenas, ver suas costas (literalmente, sua "parte de trás"!), mas sua face, não! As risadas cortam a noite fria do corredor palestinense...

5. Os dois textos não encontraram qualquer eco na história. O êxodo tornou-se narrativa hegemônica para a eleição de "Israel" e, na outra ponta, os sacerdotes "viram a glória de Yahweh" - assumiram todos os acessos ao sagrado. Os outros textos da Bíblia, fundamentalistas, simplesmente engoliram os textos críticos. Israel continuou a considerar-se o único "povo eleito"; mais tarde, a Igreja assumiu o posto e, recentemente os Estados Unidos da América, a "nação de Deus", tornaram-se os 144.000, a "colina santa", a mão e a boca de Deus na terra - diante de cuja tese de "religião nacional" capitularam Roma e Jerusalém, judeus e católicos. "A" nação é Deus...

6. Os textos críticos da Bíblia tornaram-se, apenas, memória de resistência - meus textos de cabeceira! Mas não têm qualquer uso, seja na liturgia, na teologia, na ética, em canto algum. Pelo contrário, são muitas vezes traduzidos de forma a descaracterizar a crítica radical - como Ex 33,18-23, sofrivelmente traduzido nas versões (fosse um curso de Hebraico e a nota não seria boa, senhores tradutores!).

7. Sobre fundamentalismo, Losurdo, meu atual historiador preferido (desbancou outro italiano, Ginzburg, meu segundo em preferência), escreveu um senhor capítulo em A Linguagem do Império - léxico da ideologia estadunidense. Trata-se do capítulo dois, "Fundamentalismo" (p. 53-96). 

8. Losurdo mapeia as diversas formas e materializações do fundamentalismo no mundo: na Europa, na Ásia, na América, nos confrontos militares, nos confrontos interculturais, retroagindo até mesmo ao movimento "zelote" judeu de há dois mil anos (p. 56-57).

9. Argumenta que fundamentalismo é fenômeno plural - fundamentalismos, e não é prerrogativa de um ou outro povo (islâmicos, por exemplo), mas característico de todo e qualquer povo, que o tem latente em sua substância, potencial, pronto à atualização histórica sempre que sob demanda (p. 57-61).

10. Além de plural é igualmente não necessariamente não-"iluminista", podendo manifestar-se mesmo entre os mais "iluminados" (p. 61-64), sendo agravado, nesse sentido, pelos desencontros provocados pelos encontros de culturas (p. 64-66). O que faz do fundamentalismo um fenômeno não exclusivamente religioso, mas político, étnico, cultural, multifacetado. É o caso, por exemplo, das guerras de independência das colônias europeias (p. 66-69), ou, a seu tempo e modo, da configuração geopolítica presente nos movimentos de integração e separatistas - o sionismo e as nações do Islã, por exemplo (p. 69-75).

11. O fundamentalismo manifesta-se, também, internamente às próprias culturas, cuja memória de identidade permanece latente e serve, muitas vezes, de catarse para o afloramento fundamentalista (p. 75-81), quando mais se contra-manifestam "gestões" político-culturais "a partir do alto" em razão de fluxos migratórios (p. 81-85), ou por ocasião de conflitos geopolíticos internos, como ocorre na Itália - sul versus norte (p. 85). Eu acrescentaria - e entre São Paulo e o Nordeste brasileiro, por exemplo, ou entre a velha "Guanabara" e o (resto do) Estado do Rio de Janeiro, da mesma forma.

12. O fundamentalismo é, pois, um fenômeno de cultura, que se reinventa e se renova (p. 86-88), ativado por choques civilizatórios e/ou pela "circulação do pensamento" (p. 88-90), vendo-se repetirem discursos reapropriados - por exemplo, o povo eleito é Israel, não, é a Igreja, não, é a nação estadunidense (p. 90-93)! A maior expressão protestante-evangélica do mundo é fundamentalista em cada manifestação - porque sua alma é fundamentalista.

13. Losurdo termina assim seu capítulo:
Quem quiser lutar a sério contra o fundamentalismo em suas diversas manifestações deve empenhar-se em reconstruir, em condições totalmente novas, uma posição capaz de conjugar a crítica do Ocidente com o reconhecimento de seus pontos altos. O enfraquecimento e a desagregação de tal posição explicam o fato de, hoje, os movimentos de resistência dos povos em condição colonial ou semicolonial tenderem a assumir sempre mais a forma de guerra de religião e de civilização. Rompido o equilíbrio entre crítica do Ocidente e herança dos seus pontos amais altos, a guerra santa do islã apresenta-se como resposta à guerra santa do Ocidente, que de modo errôneo se arvora em lugar de racionalidade leiga e antidogmática (p. 96).
14. Termino esse breve exercício de reflexão e divulgação do capítulo "Fundamentalismo", de Losurdo, com uma referência de todo triste - que não faz parte do capítulo "Soteriologia" e "Cristologia" das Teologias Sistemáticas fundamentalistas - nem das cripto-fundamentalistas (as demais).

15. Quando os sacerdotes judeus tomaram o poder em Jerusalém, há 2.500 anos, criaram legislações de interdição. Uma delas, aquela terrível e demônica, que torna imundo o sangue genital feminino - seja o menstrual, seja o puerperal. Todo macho que passe pelo sangue do parto, fica imundo sete dias. Se fêmea, o dobro do tempo (para o puerperal, cf. Lv 12; para o menstrual, cf. Lv 15).

16. Pois bem, eis a cena. "Terminados os dias da purificação deles segundo a Lei de Moisés, levaram-no para Jerusalém a fim de apresentá-lo ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor, e para oferecerem em sacrifício, conforme o prescrito na Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos" (Lv 2,22-24). "Terminados os dias da purificação deles". Purificação. Deles. Maria e Jesus, impuros, imundos, por sete dias.

17. A cena é triste. Maria tem nos braços o menino de oito dias. A religião que ela aprendeu e segue desde pequena trata-a, a ela mesma, Maria, e a ele, o pequeno Jesus, como imundos, porque ambos foram tornados impuros pelo sangue do parto, sangue de mulher. Maria vai ao Templo, comparece diante do sacerdote, entrega a ele os animaizinhos, e o sacerdote os mata para que a impureza de mãe e filho não ofendam o Pai...

18. O que faz a Teologia cristã com isso? Paulo construiu sua interpretação soteriológica de Jesus com base no "cordeiro" sem mancha, sem pecado. Todavia - e é também daí que se extraiu a doutrina do "pecado original" -, todo macho e fêmea nascem imundos, sujos pelo sangue do parto. Logo, também Jesus, um pequeno macho, filho de mulher, imundo por sete dias, conforme Lucas sabe e registra. Não, nenhum capítulo das Sistemáticas vai discutir o assunto - passará ao largo. E (não li todas), se alguma chegar a discutir, será para contornar, para fingir que o texto não põe as coisas nos termos em que põe.

19. Um fundamentalismo religioso que é capaz de fazer de todos uma nação de imundos para, assim, tornar "útil" o aparelho sacerdotal. Ou de fazer de todos passageiros do trem do inferno, para tornar útil as missões - que, nesse momento, invadem os países islâmicos com a mesma insanidade das cruzadas. Soube que uma grande Junta Missionária brasileira anda a treinar missionários a "resistirem" à perseguição islâmica - porque eles vão lá, "salvá-los", e, certamente, como reação a isso, serão perseguidos. Assim, treinem-se rapazes e moças para a guerra santa. Quando os islamitas treinam seus jovens, é porque são fundamentalistas. Quando são evangélicos a fazerem o mesmo, são fiéis a Deus. São não: são fundamentalistas como todos os demais, e talvez pior.

20. O fundamentalismo catequético é eficiente. Foi tão eficiente com Maria que ela jamais pensou em questionar a fé e a doutrina e a prescrição e o rito aprendidos com a mãe e a avó, reconhecendo, iconoclasticamente, ousadamente, diante do pequeno Jesus, que nem ela nem ele eram imundos. Pelo contrário, creu nisso piamente, caminhou serena e fiel até o Templo, mostrou seu filho imundo ao sacerdote, abaixou a própria e imunda cabeça, para não ser encarado por mulher o oficial de Deus que lhes concederia a purificação do rito, entregou-lhe os animaizinhos, purificou seu filho, a si mesma, e consagrou ao Senhor seu bebê judeu - sempre conforme mandam os livros sagrados, e sempre conforme registra São Lucas.

21. Porque os livros são sagrados - mas todos os homens que os escreveram, suas mães e mulheres e os filhos delas, são imundos - e também Jesus, conforme está escrito...

OSVALDO LUIZ RIBEIRO
Fonte:http://www.peroratio.blogspot.com.br/2012/03/2012288-fundamentalismo-um-capitulo-de.html
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13 Março, 2012

Indústria da Indignação e Preparativos de Guerra

    Tradução portuguesa de João Carlos Graça.



Lá vamos nós outra vez. Hoje toda a imprensa dita de informação abunda em detalhes truculentos sobre civis, sobre as mulheres e os bebés feitos em pedaços na Síria ― assim no-lo asseguram ― pelo regime de Bashar al Assad. Nenhuma dúvida permitida, procede-se à dissolução da memória histórica. Alguém se recorda de Timisoara? Alguém se lembra da “revolução da Cinecittà” (segundo a definição de François Fejtö) que tem lugar na Roménia a seguir à difusão da “notícia” sobre o “genocídio” verificado por encomenda naquela cidade? Um filósofo prestigiado (Giorgio Agamben) sintetizou assim os acontecimentos:
“Pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres recém-sepultados ou alinhados nas mesas das morgues foram desenterrados à pressa de forma a simular frente às câmaras televisivas o genocídio que era suposto legitimar o novo regime. Aquilo que toda a gente via em directo como a verdade verdadeira nos monitores de televisão era a absoluta não-verdade; e, se bem que a falsificação fosse por vezes evidente, era todavia autenticada como verdadeira pelo sistema mundial dos media, para que ficasse claro que o verdadeiro já não era mais do que um momento do necessário movimento do falso”(acerca disto, cf. D. Losurdo, La non-violenza. Una storia fuori dal mito, Laterza, pp. 237-38).
E alguém se lembra do que acontece em Racak, no início da guerra que viria a culminar com a desmembramento da Jugoslávia e a instalação nessa região duma poderosa base militar norte-americana? Eis como Roberto Morozzo Della Rocca reconstrói os eventos numa revista prestigiosa como é a «Limes» (Suplemento ao nº 1, Cadernos Especiais, 1999):
“O massacre de Racak é horrorizante, com mutilações e cabeças cortadas. É uma cena ideal para suscitar a indignação da opinião pública internacional. Há qualquer coisa estanha nesta modalidade de massacre. O sérvios normalmente matam sem proceder a mutilações (...). Como a guerra da Bósnia ensina, as denúncias de maus tratos infligidos a corpos, os sinais de tortura, as decapitações, são uma arma difusa de propaganda (...). Talvez não tenham sido os sérvios que mutilaram os corpos, mas os guerrilheiros albaneses”.
O esbatimento da memória histórica é função da preparação da guerra. Obama e os seus aliados têm pressa em desencadear os bombardeamentos e impor ao presidente sírio o destino de linchamento, tortura e morte já infligido a Khadaffi.
E os quotidianos de “informação”? No “Corriere della Sera” de 13 de Março pode ler-se na primeira página: “Horror, presidente Bashar al Assad! Horror!”. Ao autor do artigo (Antonio Ferrari) faria bem ler o artigo de um colega seu (Alex de Waal), publicado no “International Herald Tribune” de 10-11 de Março. Quais as consequências dos contínuos apelos à intervenção militar? “Nos rebeldes provoca um perverso incentivo à escalada da violência étnica, de modo a provocar uma resposta militar internacional”.
        Como é óbvio, este é precisamente o objectivo visado pelas chancelarias ocidentais, inquilino da Casa Branca à frente, embalado no seu cinismo pela obtenção do Prémio Nobel da Paz. Mas os outros, jornalistas ou não, que estão realmente interessados em evitar o derramamento de sangue, fariam bem em reflectir: os gritos histéricos a favor da guerra humanitária contribuem para provocar os mesmíssimos massacres que todavia aqueles declaram pretender condenar!
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05 Fevereiro, 2012

João Carlos Graça acerca de O Stalinismo Recauchutado de Domenico Losurdo, por Cícero Araújo


João Carlos Graça

Numa das suas Considerações Intempestivas (mais exactamente, na que leva como título Da Utilidade e dos Inconvenientes da História para Vida), Nietzsche refere-se de forma depreciativa àquilo que define como atitude “epigonal” face à experiência história, a atitude característica dos que a si mesmos tendem a considerar como “últimos homens”, ou homens “pós-históricos”. A metáfora nietzscheana prolonga-se, claro, para a explanação daquilo que segundo o filósofo alemão constituiria a essência mesmo da história: um “diálogo de gigantes”, por sobre uma multidão ou um vale de anões.


A metáfora de Nietzsche é decerto tão mais merecedora de evocação quanto o filósofo “sinfonista” se enquadra decerto no grupo de autores que mais contribuíram para formatar a nossa época, caracterizada entre outros traços culturais pela hegemonia das narrativas pós-modernas… ou da Grande Narrativa da pós-modernidade. Pode mesmo defender-se que, até certo ponto precisamente graças às leituras pós-modernas de Nietzsche, a nossa época virou “performativamente” uma época de nanismo histórico, uma época que é realmente “pós-histórica” no sentido estrito em que se convenceu disso mesmo e procede de acordo com essa convicção. Em conformidade com a auto-imagem colectiva enaltecedora da sua pretensa disposição pós-moderna para o lúdico, essa época tende, porém, a assumir da “pós-historicidade” não tanto a pequenez, mas sobretudo um traço de proveito cronológico, considerando-se de alguma forma situada num vantage point de onde um juízo relativo aos méritos ou deméritos dos intervenientes nas passadas tragédias poderia ser emitido nas tais condições de imparcialidade que seriam asseguradas pela suma serenidade definidora da própria condição “epigonal”.


É impossível, de facto, ler a recensão de Cícero Araújo ao Stalin: História e Crítica de uma Lenda Negra, de Domenico Losurdo, sem que esta imagem do anão auto promovido em juiz imparcial deixe de ocorrer, tal a frequência e o carácter incisivo com que as metáforas judiciais naquela emergem. E na verdade, há que reconhecê-lo, toda a narrativa historiográfica tende a incluir, explícita ou pelo menos implicitamente, também um juízo de valor, uma apreciação crítica positiva ou negativa das res gestae, do que foi melhor ou pior levado a cabo pelos que são assumidos como objecto (ou alvo) da narrativa historiográfica. Todavia, é decerto melhor reconsiderar a noção segundo a qual, encontrando-se a história já fundamentalmente concluída, nós estaríamos de algum modo em condições de proceder a um juízo definitivo e irrevogável quanto aos de/méritos dos passados. De facto, à recomendação evangélica “não julgues, ou tu próprio serás julgado”, deveria na actividade historiográfica, segundo penso, contrapor-se a norma (de sugestão vagamente rousseuaniana, reconheço-o) “julga, sim, todavia sabendo que também tu próprio serás mais tarde ou mais cedo objecto de julgamento”.


Quem escreve estas linhas, esclareça-se entretanto, não é historiador de profissão. Quanto a isso, um traço em comum me une aliás quer a Domenico Losurdo quer a Cícero Araújo. Mas creio que todos concordaremos com facilidade que nestas matérias as divisões disciplinares são frequentemente mais um estorvo do que uma vantagem: a história é decerto demasiado importante para ser deixada a cargo dos historiadores, de resto como a economia para os economistas, a política para os politólogos, etc. Mais importante do que a questão suscitada por Araújo quanto ao facto de Losurdo ser ou não um historiador profissional, é entretanto relevante no tecer da sua narrativa o recurso à categoria de “estalinismo”. Aliás, esse facto é reconhecido pelo recenseador, que afasta de imediato, e com indisfarçável irritação, o problema de saber em que medida “Stalin o homem” foi realmente importante no desenrolar de quaisquer eventos, tendendo antes para uma posição de princípio segundo a qual o “papel do indivíduo na história” (para usar uma expressão consagrada) seria nulo ou quase, pelo menos no caso em apreço.


Assim, a questão fica decididamente centrada na tal categoria de “estalinismo”. E quanto a isso existe algo que deve de imediato ser notado, e que consiste no facto de a referida categoria ser singularmente imprecisa no seu conteúdo, para além do óbvio aspecto de ser usada quase invariavelmente de forma depreciativa, como maneira de estigmatizar (de forma aberta ou velada) um grupo ou uma corrente política determinada. Essa corrente, todavia, usa para designar a si própria a expressão “comunismo”, não “estalinismo”, pelo que o jogo de referências recíprocas, o “diálogo”, como está hoje na moda dizer, resulta evidentemente comprometido de raiz mesmo…


Quanto à categoria de comunismo, porém, e muito para além da inegável variabilidade “interna” de que mesmo esta se reveste, a maior parte das alegações de Araújo fica dramaticamente comprometida pela base. A título de ilustração, só é susceptível de ser acusado de ter atitudes discriminatórias contra determinado grupo étnico quem de facto tem. O comunismo como categoria política, como designação de determinada corrente, não inclui nada susceptível de ser posto em correspondência com “anti-semitismo”, por exemplo. Aliás, até certo ponto bem pelo contrário (recordemos o “vírus judeu bolchevique” de má memória…). Que fazer, então, tratando-se assumidamente de um acusador hostil? Desatar a apontar um caso aqui, outro caso ali, em que uma direcção assumindo-se como comunista procedeu de forma susceptível de ser acusada de anti-semitismo? O problema com essa forma de proceder é que ela, em boa verdade, garante apenas um efeito retórico imediato, e apostando estritamente nos elementos afectivos. Se analisarmos o problema no detalhe, facilmente verificaremos: 1) a factualidade alegada é ela mesma muito dúbia, isto é, existem claras divergências já mesmo quanto à identificação da “matéria de facto”; 2) ainda que tenha realmente havido abusos cometidos contra determinados indivíduos ou grupos, torna-se muito difícil provar que essa conduta teve o anti-semitismo como motivação organizadora; 3) finalmente, mesmo que provados os abusos e provada por hipótese a própria natureza xenófoba da sua motivação, restaria provar finalmente de que forma é que isso estaria relacionado com o ideário político, com o comunismo, ou com o tal de “estalinismo”, para fazer a vontade a Cícero Araújo.


E quanto a isso entramos obviamente num terreno muitíssimo escorregadio, que de resto se prolonga enquanto problema de interpretação historiográfica em múltiplas direcções. Ficam algumas referências notórias, num oceano de possíveis eventos. Ninguém duvida, por exemplo, que as tropas dos EUA fizeram o que fizeram em Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Poderá inferir-se daí algo quanto… à democracia, dado o regime dos EUA ser formalmente democrático? À religião cívica norte-americana, ou “ideologia norte-americana”? À pessoa de Harry Truman? Sem pretender esgotar o assunto, sugiro alguns temas adicionais de reflexão. Os EUA, antes do lançamento das bombas atómicas, exigiram a rendição do Japão. Os japoneses aquiesceram em princípio, mas apenas numa rendição condicional: era necessário conservar intocável a instituição imperial, se se queria acabar imediatamente com as hostilidades. A resposta norte-americana foi que assim era no deal: rendição sem condições ou continuação da guerra. A ausência de acordo neste ponto só terminou… depois de os EUA terem lançado as duas famosas bombas. Entretanto, a seguir à rendição do Japão, Douglas MacArthur rapidamente veio a optar por manter o imperador no seu posto, enquanto factor de preservação da ordem social e das hierarquias. Ou seja, o essencial da reivindicação japonesa prévia foi satisfeito. Assim, pergunta-se: para quê a tremenda exibição de força imediatamente anterior?


Antes que o veredicto seja produzido, antes que chegue o doctor subtilissimus da historiografia capaz de deslindar este enigma, atrevo-me a propor algumas pistas de interpretação da conduta norte-americana. Primeira: tratou-se, precisamente, de uma exibição, e de uma exibição visando terceiros; do acto inaugural da guerra seguinte, a “guerra fria”. Foi uma forma, em suma, de os EUA mostrarem a toda a gente, e em especial à URSS, logo em 1945, quem é que depois da guerra ia ser the boss à escala mundial. O destinatário factual das bombas foi o Japão, mas o destinatário simbólico não: foi todo o género humano, aliás sobretudo os soviéticos. Segunda: é muito diferente dar aos japoneses aquilo que eles querem, mas formalizando isso como satisfação duma reivindicação sua, o que evidentemente sugere que eles têm verdadeiros direitos, de lhes dar o mesmo, mas apresentando-o como concessão da parte americana: não o correlato de um verdadeiro direito japonês, portanto, mas um mero gesto gracioso dos EUA. Terceira: a reabilitação da instituição imperial, tendo ocorrido num período em que o Japão ameaçava mergulhar numa enorme crise social, pelo que a eventual proclamação da república não demoraria talvez a trazer atrás de si o socialismo (o PC japonês, precisamente, andou por estes anos perto dos 20 por cento dos votos, os sindicatos tiveram uma enorme força reivindicativa), obedece a uma lógica de funcionamento do imperialismo norte-americano que tem feito este tender a apoiar-se sobretudo em poderes de índole não democrática nos países sob a sua tutela. Sendo a relação imperial entre países, e por definição mesmo, uma relação oposta à lógica democrática de procedimento, o regime que a impõe, ainda mesmo que democrático, tende assim a deslocar-se para uma exaltação apenas parcial do próprio ideário: a liberdade, sim, mas seguramente não a igualdade; a liberdade, sim, mas sobretudo a nossa liberdade (“our freedom”, como eles dizem abertamente), etc.


E é claro que podíamos continuar a especular. Todavia, para além das especulações, o que fica é o facto incontornável de várias dezenas de milhar de mortes de civis “tecnicamente” desnecessárias; e a inegável responsabilidade norte-americana por elas. Mas até mesmo isso merece uma consideração mais atenta. Como faz notar uma personagem de um filme de Kurosawa (Rapsódia de Agosto), o único grande país que nunca homenageou formal e oficialmente os mortos de Hiroshima e Nagasaki são os próprios EUA. Talvez porque isso implicasse, ou pelo menos sugerisse, o reconhecimento de um erro, quem sabe mesmo se de uma culpa… Ora, a dinâmica glorificadora da Mighty America contém inegavelmente um elemento de auto-celebração exaltada que sugere, um pouco como com o catolicismo de finais do século XIX, a proclamação da sua própria infalibilidade. O raciocínio implícito é aproximadamente este: Deus, ou a democracia, não são bons acidentalmente, são-no essencialmente, o que implica sempre; o Papa, ou os EUA, são o Seu representante inquestionável; logo, o que o Papa decide ex cathedra, ou os EUA fazem no plano da política internacional, é sempre louvável e certo, ainda mesmo quando parece não o ser. Assim, pode por exemplo a Rússia reconhecer formalmente os seus erros ou culpas na Checoslováquia ou no Afeganistão, ou onde quer que seja. Já do Papa, enquanto for Papa, não podemos esperar atitude análoga. Menos ainda evidentemente dos EUA, enquanto forem EUA…


Existem na problemática a que me refiro aspectos mais abertamente míticos. É o caso com tudo aquilo que, na percepção quase instintiva que temos das coisas, traduz propensão nossa para inocentar por princípio os EUA ou o “Ocidente”, por exemplo, e culpabilizar também por princípio a URSS, ou o comunismo, ou o “estalinismo”, ou outros “asiatismos” mais ou menos aparentáveis. Mas há também aí, por certo, aquelas dificuldades genuínas que são as de toda a historiografia e que provêm do que é a própria essência desta: interpretação sempre subjectiva, imputação de causalidade onde uma estrita relação causal não existe, mas apenas acções humanas parcialmente livres e dotadas de sentido. E volto assim ao meu problema: responsabilizar quem? Harry Truman? Os EUA? A democracia? O liberalismo? A “civilização ocidental”?...


Um outro exemplo, entre tantos possíveis: na década de 1930, tinham as forças imperiais japonesas invadido a China, as tropas de Chang-Kai-Chek, depois de terem durante muito tempo desprezado o perigo japonês (obstinadas como andavam em dar caça aos comunistas chineses), decidiram, quando finalmente se dispuseram a combater o Sol Nascente, fazer explodir uma série de diques que sustinham as águas do famoso Huang-Ho, ou Rio Amarelo. Isso, segundo sabiam os generais de Chang-Kai-Chek, teria como consequência a inundação de extensas zonas da China do norte ― mas, precisamente, era esse o efeito visado, o único que na altura, segundo terão pensado, seria capaz de suster os japoneses. Que pensar disto? Por um lado, é evidente que tal gesto pode ter retardado a progressão dos japoneses embora, claro, não a tenha de todo impedido. Mas, sobretudo, do tal rebentamento dos diques resultou de forma directa a morte de cerca de novecentos mil civis chineses. Os generais de Chang-Kai-Chek podiam ter previsto tal resultado? Na sua dimensão exacta, talvez não; mas parece difícil evitar a conclusão de que deviam por certo calcular que muita gente iria perecer em consequência do seu acto.


Imagine-se agora que os japoneses tinham ganho a guerra. Quem duvida de que existiria já hoje um livro negro do nacionalismo chinês onde tais factos seriam devidamente publicitados e mesmo bem ampliados? Se tal livro não existe é, claro (e para além do facto óbvio de que o Japão perdeu a guerra), porque consideramos indefensável a sua implicação lógica directa: a ideia de que o povo chinês seria constitucionalmente incapaz de auto-governo e, portanto, teria de ser mantido sob tutela estrangeira. Bem pelo contrário, pelo menos ao nível do discurso oficial é a ideia oposta que hoje em dia passa por verdade self evident: a da capacidade dos chineses, e de resto a de todos os povos, para o auto-governo. Entretanto, e por desconcertante contraste com isto tudo, não é certo também que até à década de 1960 a tal self evidence foi sistematicamente negada a respeito dos povos que o tal “Ocidente” mantinha sob jugo colonial? E, para ainda maior desconcerto, não será curioso notar que as duas maiores potências coloniais, a França e o Reino Unido, eram elas próprias “democracias liberais”?


Assim, podemos considerar o acto da clique de Chang-Kai-Chek um acto monstruosamente facinoroso ― e entretanto isentar de imediato desse juízo o nacionalismo chinês, que todavia o inspirou. E provavelmente é mesmo essa a atitude certa a tomar a esse respeito. Creio que também fazemos bem em isentar a democracia da brutalidade e da soberba coloniais, ou dos milhões de mortes desnecessárias que Truman, Churchill, Johnson e outros todavia sem dúvida provocaram. A minha convicção de origem, antes mesmo de ter lido o livro de Losurdo, era já evidentemente a de que seguiríamos uma via de investigação bem mais interessante procedendo de forma análoga também a respeito, por exemplo, dos possíveis crimes de Stalin, isto é, investigando-os, sim, mas deixando o ideário comunista, ou o comunismo enquanto corrente política, ou o regime soviético enquanto tal, afastados da indagação da eventuais responsabilidades ou culpas.


A leitura do livro, porém, permitiu destacar vários outros aspectos igualmente importantes, em parte aliás referidos pela recensão de Araújo. Comecemos pelo que creio ser o mais importante. Stalin chega ao poder num contexto de acosso, de pobreza, de guerra generalizada, em que para além de tudo o mais é obviamente necessário proceder a um downsizing radical das expectativas largamente messiânicas abertas pela revolução de Outubro. É óbvio que existe e vai previsivelmente continuar a existir escassez e dinheiro, poder, Estado, direito, etc. Como se comportou Stalin, como se comportou a generalidade da direcção soviética face a tudo isso? A URSS obteve a sua primeira constituição escrita em 1936, e nesta década teve uma intervenção no âmbito de Sociedade das Nações que dificilmente poderemos evitar avaliar como largamente positiva. Deixando de ser a pátria imaginária do Proletariado Global para passar a assumir-se como mais um estado entre outros no campo da Weltpolitik, a URSS “normalizou-se”, “sistematizou-se” num certo sentido, sim. Mas precisamente por isso pôde desempenhar um papel muitíssimo benéfico no forjar daquilo que viria já nos anos 40 a ser a grande coligação mundial antifascista, a coligação responsável pelo que foi talvez o momento de máxima glória de um século sem dúvida atribuladíssimo: o Maio de 1945.


Se esse papel não pôde mais cedo revelar-se produtivo, não será quanto a isso melhor indagar qual o comportamento do Ocidente no seu conjunto face aos avanços do fascismo? Losurdo destaca a conduta da França e do Reino Unido, cúmplices no desmembramento da Checoslováquia e na absorção da Áustria, a benevolência recíproca dos EUA e das potências do Eixo, os pactos estabelecidos pela Itália fascista e pela Alemanha nazi com o Vaticano, o que é geralmente conhecido, embora pudicamente evitado; mas também com as próprias organizações sionistas, o que decididamente tende hoje em dia a constituir-se em assunto de completo tabu (ao mesmo tempo que o pacto germano-soviético é pelo contrário objecto de diabolização enfática e integral). Losurdo podia talvez neste âmbito ter dado mais ênfase ao caso da guerra civil espanhola, onde a mesma conduta de miserável cumplicidade das “democracias ocidentais” com os “estados totalitários” (na altura o termo era usado de forma não depreciativa) talvez tenha atingido o seu verdadeiro esplendor. Quiçá o caso espanhol merecesse no quadro global maior destaque, aliás quando se sabe hoje em dia de fontes seguras que a ditadura oficialmente apenas “autoritária” de Franco foi de facto muito mais assassina do que o estado formalmente “totalitário” de Mussolini. Mas esse é, no contexto geral do livro de Losurdo, um reparo sem dúvida de pequena monta.


A caracterização do regime soviético no período de Stalin como “ditadura desenvolvimentista” parece bastante apropriada. Embora se tratasse de um estado visando uma democratização tão larga quanto possível, e estando sem dúvida apostado numa intensa mobilização do conjunto da população, o regime “estalinista” corresponde com facilidade ao adquirido da politologia contemporânea de que um dos traços definidores da modernidade política é a própria mobilização permanente e em massa (noção de que podem aliás ser facilmente encontrados ecos nas obras de autores tão diversos como Hannah Arendt e Karl Deutsch). Essa mobilização, note-se, tende a fazer dos estados modernos, formalmente democráticos ou não, liberais ou não, realidades muito mais “leviatanescamente” ambiciosas nas suas pretensões de controlo, e portanto tendencialmente “totalitárias”, por contraste com a natureza comparativamente fragmentária e “pluralista” de que a influência habitualmente se reveste nas formas políticas mais tradicionais. Embora a expressão usada não fosse evidentemente essa, os críticos liberais desde sempre identificaram esse traço “totalitário” avant la lettre, por exemplo, na revolução francesa.


É um facto notório que o regime soviético foi sempre monopartidário, por contraste com o multipartidarismo ostensivo dos regimes ditos “demoliberais”. Mas deve quanto a isso notar-se pelo menos que a consagração oficial dos partidos políticos enquanto realidades essenciais à formação (e não apenas à expressão) da vontade popular é algo que a politologia e o direito constitucional “ocidentais” só muito tarde reconheceram, na verdade apenas com Hans Kelsen e a república alemã de Weimar, isto é, num período posterior ao da origem do regime soviético. Algures em O Estado e a Revolução, Lenine menciona o Outubro português de 1910 e a revolução turca de Kemal Ataturk como casos falhados (mas ainda assim notáveis e dignos de referência) de construção de estados radicalmente democráticos, “num certo sentido já não-estados”, dotados de representantes políticos permanentemente amovíveis, etc., como supostamente a “ditadura do proletariado” deveria ser, ou tender a ser. Por comparação com o caso soviético, porém, a I República portuguesa, que nunca conheceu sequer o sufrágio universal masculino, muito menos evidentemente o verdadeiro sufrágio universal, faz muito triste figura, e o comentário de Lenine torna-se digno de reparo não decerto por hostilidade anti-lusitana, mas antes por excessiva generosidade apreciativa. Se a I República portuguesa teve diversos partidos (e realmente teve), há que notar entretanto também: que se tratava sobretudo de redes de ligações pessoais gravitando em torno de notabilidades; que a respectiva definição doutrinária ou programática era muito fraca; que esses eram partidos apenas facticamente reconhecidos, dado que o regime nunca se assumiu oficialmente como uma “partidocracia”, como o são conscientemente os regimes “demoliberais” post-Kelsen. Assim, a análise comparativa de regimes fica obviamente muito limitada e lesada se nos cingirmos sem contextualização ao critério algo simple minded que leva a opor acriticamente monopartidarismo a multipartidarismo. Mais ainda, é claro, se levarmos em consideração que mesmo os actuais regimes “demoliberais” são apenas na forma multipartidários, dado que a existência de dispositivos vários, como o carácter não proporcional da representação, tende a transformá-los deliberadamente em regimes de facto apenas bipartidários.
    
O caso soviético, porém, tem características próprias e muito peculiares, de uma modernização ocorrida de forma muitíssimo acelerada e em condições particularmente hostis, onde em geral foi necessário construir quase a partir do zero, e quase sempre improvisando e procedendo por sucessivas tentativas e erros. Todavia, a categoria de “totalitarismo” parece claramente inadequada para o definir, em tudo o que vá além dos traços acima mencionados de aplicação muito lata (e apontando, repito, para a definição da própria modernidade enquanto tal como processo de vocação eminentemente “totalitária”). Losurdo destaca o elemento de “terror a partir de baixo” de que a violência política “estalinista” se revestiu, o que é um traço que só por si merece relevo e muito mais investigação subsequente. Mas sublinha igualmente, e bem, que ao contrário do que é tantas vezes propalado o aspecto mais notório da União Soviética do período de Stalin (e poderia decerto ter acrescentado o período subsequente) é o intuito persistente, por vezes desajeitado e não raro atingindo o patético, mas geralmente merecedor de simpatia, de chegada a uma situação de “normalidade” política, na qual quer a liberdade “negativa” quer a “positiva” (para além dos plenos “direitos sociais”, obviamente) pudessem ser gozadas sem restrição ou com a mínima restrição possível pela totalidade da citizenry, o que no caso constituía obviamente toda a população.


A história real da União Soviética, sem dúvida, afastou-se de forma significativa dessa trajectória, mas mais uma vez é decerto conveniente proceder de forma comparativa quando se tem pressa em “atirar pedras aos telhados dos outros” (como aqui em Portugal dizemos). A história soviética é uma história de permanente ameaça por parte de vizinhos poderosos; de guerra aberta ou iminente, lidando sempre com uma grande desvantagem inicial e face a “interlocutores” extremamente hostis: desde a intervenção estrangeira e o cordon sanitaire iniciais até à “segunda guerra fria” e ao “Império do Mal” de Reagan, passando pela II Guerra Mundial e pelo rollback de Truman. Essa hostilidade está, de resto, superlativamente ilustrada na própria categoria cold warrior de “totalitarismo”, através da qual se intenta estabelecer uma simetria/equivalência entre a URSS de Stalin e o seu inimigo mortal e jurado, o III Reich alemão.


Vale a pena, quanto a isso, sublinhar a natureza significativamente diversa do Gulag soviético e dos campos de concentração nazis, aos quais ele é tão frequentemente equiparado. Na obra de Losurdo pode evidentemente recolher-se abundante material visando reparar essa injustiça e corrigir esse absurdo (aliás, em geral destacando a origem “ocidental” da própria instituição campo de concentração), mas eu atrevo-me a acrescentar algo mais. A ideia de substituir a prisão pelo trabalho “reeducador” é tipicamente uma ideia não dos regimes “totalitários” do século XX, mas do republicanismo europeu de finais do século XIX: pensemos por exemplo na convicção durkheimiana relativa à substituição do “direito punitivo” pelo “direito reparador”. Independentemente das apropriações cínicas posteriores, são de facto em geral os teóricos penalistas mais progressistas que menos ênfase colocam na dimensão expiatória da pena, e pelo contrário mais sublinham a importância da prevenção e da reabilitação… e reabilitação, precisamente, através do trabalho em vez do enclausuramento. Essa dimensão “cívica” dos trabalhos forçados, aliás, imbricou-se estreitamente e explicitamente com intuitos colonizadores ― e quanto a isso, reconheçamo-lo, em geral já com uma componente cínica directamente associada. “Sibéria” constitui obviamente o equivalente russo de “Austrália”, de “Guiana”, de “Angola”… Só não vê isso quem está demasiado cheio de “hubris”, de narcisismo filo-ocidental para ser de todo capaz de se enxergar.


Ora, recebendo de herança a realidade que tinha recebido, e operando nas condições em operou, que poderia de significativamente diverso ter feito a direcção soviética “estalinista”? “Sibéria” é decerto uma palavra feia, que está longe de sugerir ao leitor comum as efígies de Nicole Kidman e de Hugh Jackman. E é natural que esteja e melhor que assim continue: não se trata evidentemente de substituir uma “lenda negra” por uma “lenda branca” ou por mais um kitsch. Mas uma coisa deve ficar pelo menos clara: Um Dia na Vida de Ivan Denisovich é um título compreensivelmente evocador de sofrimento e provações; mas o seu correlato adequado não é de todo O Diário de Anne Frank. Quando muito, Papillon… mas mesmo aí com uma nuance importante: a relativa à vocação eminentemente mundial e anti-colonial do regime “estalinista”, a contrastar com o carácter vincadamente colonial e de Herrenvolk democracies assumido pelos regimes ocidentais seus contemporâneos. (Araújo é, todavia, quanto a isso injusto para com a revolução francesa, à qual considera “autenticamente europeia”, quando na verdade o élan da “humanidade comum”, que se manifestou depois plenamente nas revoluções russa e chinesa, já esteve presente também, embora de forma ainda hesitante, naquela sua antecessora.)


Mais amplamente: a direcção soviética teve de proceder a “escolhas trágicas”? É claro que teve: “os homens fazem a história, mas não nas condições por eles escolhidas…” Volvido o seu período, porém, a dimensão de imperatividade de escolhas trágicas aumentou ou diminuiu para os cidadãos soviéticos? Parece razoavelmente óbvio que diminuiu, que as “capacidades” (no sentido aproximado dessa expressão para Amartya Sen) de cada cidadão soviético e da sociedade soviética no seu conjunto ficaram bem ampliadas e a própria necessidade de escolhas trágicas radicalmente diminuída precisamente como resultado da actuação de Stalin e dos seus colaboradores directos. A história, quanto a isso, não “julgará” Stalin ou a URSS “estalinista”, diversamente do que Araújo sugere. Segundo me parece, já julgou, e de forma particularmente eloquente: basta pensar, por exemplo, no que foi a evolução da mortalidade infantil e da esperança média de vida ao longo da história da União Soviética, período “estalinista” incluído (e descontado evidentemente o factor da tremenda guerra de agressão de que foi vítima, não fautor), e compará-lo com o enorme contrafactual que foi a evolução dantesca desses indicadores no período pós-soviético, os milhões de vítimas e em geral a hecatombe civilizacional resultante da campanha de privatizações forçadas e da “transição para o mercado” do início dos anos 90, quer na Rússia, quer nas demais repúblicas.


Este género de discussões tende, compreensivelmente, a tornar-se muito extenso, e aliás demasiado extenso vai já também este texto. Assim, deve referir-se ainda que por exemplo quanto aos de/méritos de Stalin em matéria de guerra Losurdo se apoia numa obra notabilíssima e merecedora também de maior divulgação, Stalin’s Wars, de Geoffrey Roberts, a quem Araújo não poderá decerto exautorar da qualidade de historiador profissional e que reconhece plenamente a dimensão titânica do empreendimento levado a cabo e a necessidade absoluta de o ajuizar de forma equilibrada e ampla, evitando o usual viés narrow minded, quando não obstinada e declaradamente hostil por questão de princípio. Quer Roberts quer Losurdo assumem a veracidade da culpa soviética ou “estalinista” nos massacres de Katyn, mas independentemente disso e do fundo da minha ignorância devo aqui pelo menos levantar o dedo para destacar que alguns outros autores, como Grover Furr, disputam abertamente ainda hoje quanto a isso o núcleo mesmo da “matéria de facto” (ver aqui, por favor: http://chss.montclair.edu/english/furr/pol/truthaboutkatyn.html)


Aceitando a culpa de Stalin nesse evento, e aliás assumindo-o como crime em sentido estrito e gravíssimo, Losurdo destaca entretanto também quer a questão da envolvente de clear and present danger em que a direcção soviética foi forçada a tomar decisões, quer o carácter militar das vítimas, contrapondo assim adequadamente esses eventos aos massacres desnecessários de civis perpetrados, por exemplo, pelos norte-americanos na Coreia e no Vietname, no primeiro caso aliás sob chancela da ONU… É Losurdo que deve quanto a isso ser acusado de revisionismo “estalinista”, mesmo que “recauchutado”? Ou é a envolvente geral dos debates que hoje em dia se tornou demasiado hagiográfica relativamente aos supostos méritos do “Ocidente” para suportar o peso de qualquer método comparativo, mesmo que o mais tímido? Em suma: de que lado está aí, verdadeiramente, o fundamental “problema de atitude”?


Num outro plano, mas ainda mais perto de nós: se pensarmos, por exemplo, no quase milhão e meio de vítimas resultantes da invasão norte-americana do Iraque, aliás “democratização do Iraque”, a quem imputar a responsabilidade por isso? A Bush II? Ao “bushismo”? Ao “norte-americanismo”? Ao “Ocidente”? À democracia? Ao liberalismo? Ou inverteremos aí também tipicamente a narrativa, procedendo à culpabilização das vítimas, do “totalitarismo”, da loucura tirânica de Saddam, do Islão, etc.? É esse, tristemente, um exemplo entre muitos do tipo de viés perceptivo, ou mais exactamente da campanha de enorme lavagem ao cérebro a que estamos submetidos através de sucessivos preemptive strikes propagandísticos ― e depois do “fim do comunismo”, manifestamente, ainda bem mais do que antes. Neste contexto, não constitui decerto o menor dos méritos da obra de Losurdo o de fornecer um contributo decisivo para a correcção dessa entorse.


Várias outras matérias ficam evidentemente por discutir, entre elas a do reconhecimento das minorias étnicas e/ou nacionais no período de Stalin, mas Losurdo apoia-se também quanto a isso em terreno muito firme, em concreto o justamente famoso The Affirmative Action Empire de Terry Martin, que está obviamente muito longe de ser uma obra hagiográfica relativamente a Stalin ou à URSS em geral, mas constitui também, tal como o livro de Roberts, uma tentativa erudita, broad minded e em geral equilibrada. Se não é historiador profissional, há que admitir que Losurdo teve pelo menos o mérito de saber escolher bem os historiadores em quem se apoiava. Um gigante aos ombros de outros gigantes vê decerto mais amplamente: tanto assim que qualquer outro depois terá de reconhecer (como Araújo o faz, e eu próprio de seguida) que, se há acusação que em definitivo NÃO pode ser feita ao empreendimento soviético no seu conjunto, essa é a de “instintos” ou intuitos negativamente discriminatórios, quando não conspicuamente escravizadores ou “exterminacionistas”, como aqueles de que a construção das grandes nações “ocidentais” e “liberais” historicamente se revestiu no confronto com minorias autóctones ou “indígenas”. As acusações, por exemplo, de fome deliberada imposta a alguns grupos étnicos, o célebre “Holodomor” antes de todos, configuram pura e simplesmente uma calúnia e uma miserável mistificação (cf. quanto a isso, o que Annie Lacroix-Riz escreve acerca do assunto: http://www.historiographie.info/articles.html e também aqui: http://www.historiographie.info/interview.html)


Para concluir este comentário já demasiado longo, uma nota quanto à minha atitude, que espero não sofrer ela própria de demasiada inclinação “julgadora”. Cada época tem as suas dificuldades, e é naturalmente melhor que cada uma se abstenha de ser demasiado severa ou pretensiosa no julgamento das demais… mas também na eventual tendência para imitá-las. Não é demais relembrar a máxima de Francis Bacon segundo a qual os que evitam remédios novos se condenam assim a doenças novas: podemos decerto fazer do registo do passado um “mestre da vida”, mas apenas de forma limitada e parcial. E evitamos a repetição de tragédias precisamente na medida em que tratemos de as encarar da forma devida, “pela positiva”, isto é, com uma atitude fundamentalmente prospectiva, que é sempre a da vida, e que deve naturalmente ser também a do pensamento: “Pra que nossa esperança seja mais que a vingança/ Seja sempre um caminho que se deixa de herança”, como nos propõe a bela canção de Ivan Lins, que nunca é excessivo recordar: http://www.vagalume.com.br/ivan-lins/novo-tempo.html


Recensão do Cícero Araújo: http://www.revistafevereiro.com/pag.php?r=04&t=08
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15 Dezembro, 2011

Uma entrevista com Domenico Losurdo no Chinese Social Sciences Today



Tian Shigang
Publicou em 2005 o seu livro “Fuga da História? A revolução russa e a revolução chinesa hoje”. O que é que o levou a escrever este livro?

A primeira edição do livro foi publicada em 1999. Era o momento em que o fim da guerra-fria era interpretado como a impossibilidade irremediável de qualquer tentativa de construir uma sociedade socialista, como o triunfo definitivo do capitalismo e o “fim da história”. No Ocidente esta forma de ver os acontecimentos provocou uma brecha no próprio seio da esquerda: mesmo os comunistas, declarando-se embora fiéis aos ideais do socialismo, acrescentaram entretanto nada ter a ver com a história da URSS ou da China onde, afirmavam, se tinha produzido a “restauração do capitalismo”. Propus-me explicar a história do movimento comunista desde a revolução russa de Outubro até à China nascida das reformas de Deng Xiaoping em contraposição a essa “fuga para fora da história”.

Quais são, na sua opinião, as razões que provocaram a “desintegração” da URSS?
Em 1947, quando foi formulada a política do containment, o seu teorizador, George F. Kennan, explicava que era essencial “aumentar as tensões (strains) que incidam sobre a política soviética”, de modo a “promover tendências que possam vir a abalar ou a amaciar o poder soviético”. Nos dias de hoje a política dos EUA em relação à China não é muito diferente desta, embora a China tenha entretanto acumulado uma grande experiência política. Mas para além da política do containment, o que foi determinante no colapso da URSS foram as suas graves fraquezas internas. É necessário revisitar a célebre tese de Lénine segundo a qual “não há acção revolucionária sem teoria revolucionária”. O partido bolchevique tinha, sem qualquer dúvida, uma teoria para a tomada do poder, mas se por revolução nós entendemos não apenas a destruição da ordem antiga mas igualmente a construção do novo, os bolcheviques e o movimento comunista encontravam-se substancialmente desguarnecidos no que diz respeito a uma teoria revolucionária.
Deste ponto de vista, nós não podemos considerar como suficiente que a teoria da construção de uma sociedade pós-capitalista se reduza à esperança messiânica de um mundo no qual tivessem desaparecido completamente os Estados, as nações, o mercado, o dinheiro, etc. O PCUS cometeu o grave erro de não se ter empenhado em preencher esta lacuna.

Quais são, em sua opinião, as características e o significado da revolução chinesa?

No início do século XX a China fazia parte do mundo colonial e semi-colonial, submetida ao colonialismo e ao imperialismo. A revolução de Outubro constituiu uma viragem histórica que desencadeou e impulsionou uma vaga anti-colonialista de dimensão planetária. Em resposta a esta vaga, o fascismo e o nazismo representaram uma tentativa de revitalização da tradição colonial. Em particular, as guerras desencadeadas pelo imperialismo hitleriano e japonês respectivamente contra a União Soviética e contra a China foram as maiores guerras coloniais da história. De forma que Estalinegrado na União Soviética, a Longa Marcha e a guerra de resistência contra o Japão na China forma grandiosas lutas de classe, que impediram o imperialismo mais bárbaro de impor uma divisão do trabalho assente sobre a redução dos grandes povos a uma massa de escravos ao serviço de uma suposta raça de senhores.
Mas a luta de emancipação dos povos em situação colonial e semi-colonial não fica concluída com a obtenção da independência política. A partir de 1949, quando estava já próximo da tomada do poder, Mao Zedong vinha insistindo na importância da questão da edificação económica: Washington desejaria que a China se contentasse “em viver da farinha estado-unidense” naquilo que seria “uma colónia americana”. É evidente que sem a vitória na luta pela produção agrícola e industrial a vitória militar acabará por ser frágil e vã. De certo modo, Mao previra a passagem da fase militar à fase económica da luta pela revolução anti-colonialista e anti-imperialista.
O que é que está a acontecer nos dias de hoje? Os EUA estão em vias de relocalizar o seu arsenal militar na Ásia. Em 28 de Outubro de 2011 a agência Reuters escrevia que uma das acusações de Washington em relação aos dirigentes de Pequim era de que estes fomentavam ou impunham uma transferência de tecnologia do ocidente para a China. Está claro: os EUA pretendem conservar o monopólio da tecnologia para continuar a exercer a sua hegemonia, que inclui uma dominação neocolonial indirecta; por outras palavras, ainda nos nossos dias, a luta contra a hegemonia trava-se igualmente ao nível do desenvolvimento económico e tecnológico. Trata-se de um aspecto que, lamentavelmente, a esquerda ocidental continua a não compreender. Nós devemos reafirmar com vigor: não é apenas a longa luta através da qual o povo chinês pôs termo a um século de humilhação e fundou uma República popular e revolucionária, não é apenas a construção económica e social através da qual o Partido comunista chinês libertou da fome centenas de milhões de homens que é revolucionária em si mesma, é-o também a sua luta para quebrar o monopólio imperialista da tecnologia. Marx ensinou-nos isso. Se ele nos ensinou que a luta pela superação, no seio da família, da divisão patriarcal do trabalho, é uma luta revolucionária, seria muito estranho que a luta no plano internacional para romper com a divisão internacional do trabalho imposta pelo capitalismo e pelo imperialismo, que a luta para acabar com e liquidar definitivamente este monopólio ocidental da tecnologia – que não é uma oferta da natureza mas o resultado de séculos de opressão e de dominação – não seja uma luta emancipadora.

Publicou em 2005 o seu livro “Uma contra-história do liberalismo” que teve um grande sucesso (foi reeditado 3 vezes no mesmo ano e foi traduzido em diversas línguas). O que significa este título?

O meu livro não nega os méritos do liberalismo, que coloca em destaque o papel do mercado no desenvolvimento das forças produtivas e sublinha a necessidade de limitar o poder (embora apenas a favor de uma comunidade reduzida de privilegiados). A minha contra-história do liberalismo contrapõe-se ao auto-elogio e à visão apologética às quais se entregam o liberalismo e o Ocidente liberal. Trata-se de uma tradição de pensamento na qual a exaltação da liberdade vai a par de terríveis cláusulas de exclusão em detrimento da classe operária e, sobretudo, dos povos colonizados.
John Locke, o pai do liberalismo, legitima a escravatura nas colónias e é acionista da Royal African Company, a empresa inglesa que gere o tráfico e o comércio de escravos negros. Mas para além das personalidades individuais, o que é importante é o papel dos países que melhor encarnam a tradição liberal. Um dos primeiros actos de política internacional da Inglaterra liberal, nascida da Cloriosa Revolução de 1688-1689, é garantir para si própria o monopólio do tráfico de escravos negros.
O papel da escravatura na história dos EUA é ainda mais importante. Durante 32 dos primeiros 36 anos da vida dos Estados Unidos a presidência do país foi desempenhada por proprietários de escravos. E isto não é tudo. Durante várias décadas o país consagrou-se à exportação da escravatura com o mesmo zelo com o qual exportam hoje a “democracia”: em meados do séc.XIX tinham reintroduzido a escravatura no Texas, pouco antes arrebatado em guerra com o México.
É verdade que a Inglaterra primeiro e os Estados Unidos depois se virão obrigados a abolir a escravatura, mas o lugar onde anteriormente estavam os escravos negros foi ocupado pelos coolies chineses e indianos, por sua vez submetidos a uma forma pouco mitigada de escravatura. Para além disso, e após a abolição formal da escravatura, os afro-americanos continuaram a ser sujeitos a uma opressão tão feroz que o eminente historiador americano George M. Fredrickson escreveu: “Os esforços para preservar a “pureza da raça” no Sul do Estados Unidos foram, em certos aspectos, o prelúdio da perseguição desencadeada pelo regime nazi contra os judeus nos anos 30 do século vinte”.
Quando começa então a abrir brechas nos Estados Unidos o regime de supremacia branca, de opressão e de descriminação racial? Em Dezembro de 1952 o ministro americano da justiça envia ao supremo tribunal, na altura em pleno debate sobre a integração nas escolas públicas, uma eloquente carta: “A discriminação racial leva a água ao moinho da propaganda comunista, e semeia igualmente dúvidas junto de outras nações amigas no que diz respeito à nossa devoção pela democracia”. Washington, segundo o historiador que revelou este episódio (C. Vann Woodward), arriscava a perda das simpatias das “raças de cor”, não apenas no Oriente e no Terceiro-Mundo, mas igualmente no seu próprio país. É apenas então que o Supremo Tribunal decide declarar inconstitucional a segregação racial nas escolas públicas. Há nesta história um paradoxo. Nos dias de hoje Washington insiste em censurar a China pela sua falta de democracia; mas é conveniente referir que um elemento essencial na democracia, a superação da discriminação racial, apenas foi possível nos Estados Unidos graças ao desafio que o movimento anti-colonial representou, movimento do qual a China fazia e continua a fazer parte integrante.

Na minha opinião há três edições que se destacam de entre as numerosas edições italianas do Manifesto do Partido Comunista: a de Antonio Labriola, a de Palmiro Togliatti e a sua, de 1999. A seu ver, que sentido faz para os marxistas de hoje essa obra-prima de Marx e Engels?
Na introdução à edição italiana do Manifesto do Partido Comunista tentei reconstituir o século e meio de história percorrido desde a publicação, em 1848, desse texto extraordinário. Há uma comparação que nos pode permitir compreender o seu significado. Oito anos antes uma outra grande personalidade da Europa do séc. XIX, Alexis de Tocqueville, publicava o segundo volume de “A democracia na América”, e num capítulo central afirmava em título que “as grandes revoluções serão cada vez menos frequentes”. Mas se nós olharmos o século ou século e meio posteriores ao ano (1840) no decurso do qual o liberal francês faz esta afirmação, nós verificamos que é provavelmente o século da história universal mais abundante em revoluções.
Isto é indubitável: tendo previsto a revolta contra o capitalismo, contra um sistema que comporta a “transformação em máquinas” dos proletários e a sua degradação em “instrumentos de trabalho”, em “acessórios da máquina”, como apêndices “dependentes e impessoais” do capital “independente e pessoal”, tendo previsto a revolta contra este sistema, o Manifesto do Partido Comunista soube ver mais além. Quando Marx e Engels descrevem, com extraordinária lucidez e clarividência, aquilo a que hoje se chama globalização, eles sabem bem que se trata e um processo contraditório, caracterizado (no interior do capitalismo) por colossais crises de sobreprodução que conduzem à destruição de quantidades enormes de riqueza social e à miséria de massas indigentes de homens e mulheres. É igualmente um processo carregado de conflitos que podem mesmo desembocar numa “guerra de extermínio entra as nações industriais”. O que nos leva a pensar na Primeira Guerra Mundial.
Contra este mundo, o Manifesto comunista evoca tanto as revoluções proletárias como as “revoluções agrárias” e de “libertação nacional”. Marx e Engels estão assim antecipando o que mais tarde irá acontecer no Terceiro-Mundo, como por exemplo na China.
A propósito da China, podemos fazer uma última observação. O Manifesto do Partido Comunista prevê a emergência de uma economia globalizada caracterizada por “novas indústrias, cuja instalação se torna uma questão de vida ou de morte para todas as nações civilizadas, industrias que não produzem já a partir de matérias-primas locais, mas a partir de matérias-primas oriundas das regiões mais distantes, e cujos produtos são consumidos não apenas no interior do país mas em toda a parte do mundo”. Em consequência, e se bem que o seu olhar se concentre na Europa, o texto de Marx e Engels dá-nos indicações preciosas para todos os países do Terceiro-Mundo que procuram alcançar um desenvolvimento económico independente

Quais foram, na sua opinião, os contributos de Antonio Gramsci para a teoria marxista?

Penso que os contributos da obra deste grande pensador foram pelo menos quatro:
a) Gramsci pôs em destaque a importância da “hegemonia” para a conquista e a conservação do poder político. Num texto de 1926 ele explica que o proletário atinge a maturidade da consciência de classe quando se sente membro da sua classe e ao mesmo tempo considera a sua classe de pertença (o proletariado) como o núcleo dirigente de um bloco social muito mais vasto, chamado a conduzir a revolução à vitória.
b) Em segundo lugar, Gramsci mostra-se plenamente consciente da complexidade intrínseca ao processo de construção do socialismo. No início, será “o colectivismo da miséria, do sofrimento”. Mas não podemos deter-nos nesse ponto, temos que lançar ao desenvolvimento das forças produtivas. Nesse contexto, é necessário situar a importância da posição de Gramsci no que diz respeito à NEP (Nova Política Económica, empreendida após o “comunismo de guerra”). A realidade da URSS da época coloca-nos em presença de um fenómeno “nunca anteriormente visto na história”: uma classe politicamente “dominante” vive, no seu conjunto, em “condições globalmente inferiores àquelas em que vivem certos elementos das camadas da classe dominada e submetida”. As massas populares, que continuam a enfrentar uma vida de privações, ficam desconcertadas perante o espectáculo do “nepman” [o homem da NEP] que ostenta o seu casaco de peles e tem à sua disposição todos os bens deste mundo, mas isso não deve constituir nem motivo de escândalo nem de recusa; para o proletariado, a conservação do poder será impossível se não for capaz de sacrificar os seus interesses imediatos ao “interesse geral e permanente da classe”. Trata-se, bem entendido, de uma situação temporária. O que Gramsci sugeriu aqui pode ser útil à esquerda ocidental, para compreender a realidade de um país como a China de hoje.
c) Gramsci dá-nos algumas indicações preciosas acerca de um outro aspecto. Deveríamos nós pensar o comunismo não só como o desaparecimento total dos antagonismos de classe, mas também do poder de Estado e político, das religiões, das nações, da divisão do trabalho, do mercado, de todas as fontes de conflito potenciais? Questionando o mito do desaparecimento do Estado e da sua dissolução na sociedade civil, Gramsci nota que a sociedade civil é ela mesma uma forma de Estado e sublinha igualmente que o internacionalismo não tem nada a ver com a negação das particularidades e das identidades nacionais, que subsistirão muito tempo depois do derrube do capitalismo; quanto ao mercado, Gramsci considera que seria mais útil falar de “mercado determinado” do que de mercado abstracto. Gramsci ajuda-nos a superar o messianismo, que bloqueia gravemente a construção da sociedade pós-capitalista.
d) Finalmente. Mantendo sempre a condenação do capitalismo, os cadernos da prisão evitam uma interpretação da história moderna e das revoluções burguesas como um tratado de “teratologia”, ou seja, de um tratado que tem monstros por objecto. Os comunistas devem saber criticar os erros, por vezes graves, de Staline, Mao e outros dirigentes, sem reduzir esses capítulos da história do movimento comunista a uma “teratologia”, a uma história de monstros.

Fonte: http://www.odiario.info/?p=2332


Bibliographie

Domenico Losurdo, Gramsci du libéralisme au «communisme critique», Syllepse, Paris, 2006
Domenico Losurdo,  Fuir l’histoire ?, Delga, Paris, 2007
Domenico Losurdo, Liberalism, a counter history, Verso, London, 2011
Domenico Losurdo, Démocratie et Bonapartisme, Le temps des cerises, Paris, 2007
Domenico Losurdo, Staline, histoire et critique d’une légende noire, Aden, Bruxelles, 2011.
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21 Novembro, 2011

Os discípulos de Goebbels contra a Síria

Tradução de João Carlos Graça.



Qual a natureza do conflito que desde há meses assola a Síria? Com este artigo é meu intuito suscitar em todos os que defendem a causa da paz e da democracia nas relações internacionais algumas perguntas elementares. Pela minha parte, tratarei de responder dando a palavra a órgãos de imprensa e jornalistas insuspeitos de qualquer cumplicidade com os dirigentes de Damasco.
Ocorre antes de mais perguntar qual a situação deste país do Médio Oriente antes da chegada ao poder, em 1970, dos Assad (pai e filho) e do regime actual. Pois bem, antes daquela data, «a república síria era um estado débil e instável, um palco para as rivalidades regionais e internacionais»; os acontecimentos dos últimos meses significam de facto o regresso à «situação anterior a 1970». Quem se expressa nestes termos é Itamar Rabinovich, ex-embaixador de Israel em Washington, no International Herald Tribune de 19-20 de Novembro. Podemos extrair uma primeira conclusão: a rebelião apoiada em primeiro lugar pelos EUA e pela União Europeia pode fazer a Síria retroceder a uma situação semi-colonial.
As condenações e sanções do Ocidente e a sua aspiração a uma mudança de regime na Síria estão inspiradas na indignação pela «repressão brutal» de manifestações pacíficas, uma repressão exercida pelo poder? Na realidade, já em 2005 «George Bush pretendia derrubar Bashar al-Assad». Continuam a ser palavras do ex-embaixador israelita em Washington, o qual acrescenta que agora o governo de Telavive se juntou a esta política de regime change na Síria: há que acabar duma vez por todas com o grupo dirigente que a partir de Damasco apoia «o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza» e estreita relações com Teerão. Sim, «profundamente preocupado pela ameaça iraniana, Israel é de opinião de que se retirar o tijolo sírio do muro iraniano, a política regional poderia entrar numa nova fase. É evidente que o Hezbollah, tal como o Hamas, se movem agora com mais cautela». De modo que o alvo da rebelião e das manobras com ela relacionadas não é apenas a Síria, são também a Palestina, o Líbano e o Irão: trata-se de desferir um golpe decisivo na causa do povo palestiniano e de consolidar o domínio neo-colonial de Israel e do Ocidente numa região de crucial importância geopolítica e geoeconómica.
Como atingir este objectivo? Guido Olimpio, no Corriere della Sera de 29 de Outubro, explica-o claramente: em Antakya, uma região da Turquia confinante com a Síria, opera já o «Exército Livre Sírio, uma organização que pratica a luta armada contra o regime de Assad». É um exército que recebe armas e instrução militar da Turquia. Para além disso (continua Guido Olimpio no Corriere della Sera de 13 de Novembro), Ankara «ameaçou criar uma faixa tampão de 30 quilómetros em território sírio». Vemos pois que o governo sírio tem de fazer frente não apenas a uma rebelião armada, mas a uma rebelião armada apoiada por um país que dispõe dum dispositivo militar de primeira ordem, que é membro da NATO e que ameaça invadir a Síria. Quaisquer que sejam os erros ou as culpas dos seus dirigentes, este pequeno país está a sofrer, de facto, uma agressão militar. A Turquia, que tem tido um período de forte crescimento económico, desde há algum tempo dá mostras de impaciência relativamente ao domínio de Israel e dos EUA no Médio Oriente. Obama responde a esta impaciência empurrando os dirigentes de Ankara para um sub-imperialismo neo-otomano, controlado evidentemente por Washington.
Da análise e dos testemunhos trazidos depreende-se que a Síria se vê obrigada a lutar em condições muito difíceis para a manutenção da sua independência, fazendo face a um formidável bloqueio económico, político e militar. Para além disso, a NATO ameaça directa ou indirectamente os dirigentes de Damasco com a possibilidade de lhes reservar o mesmo fim que teve Khadafi, o assassínio e o linchamento. A infâmia da agressão devia pois ser evidente para todos os que estão dispostos a fazer ao menos um pequeno esforço intelectual. E todavia, o Ocidente, valendo-se da sua terrível potência de fogo mediático e das novas técnicas de manipulação proporcionadas pelo desenvolvimento da Internet, apresenta a crise síria como um exercício duma violência brutal e gratuita contra manifestantes pacíficos e não-violentos. Não há quaisquer dúvidas de que Goebbels, o pérfido e brilhante ministro do III Reich, deixou escola. Há que reconhecer, aliás, que os seus discípulos de Washington e Bruxelas conseguiram superar o nunca olvidado mestre.
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30 Outubro, 2011

INTERVENÇÃO NO 6º CONGRESSO NACIONAL DO PDCI (PARTITO DEI COMUNISTI ITALIANI) 29 10 2011

Por Domenico Losurdo:




Fico feliz por participar deste evento que poderia ser um relançamento ou mesmo um novo arranque da presença comunista no nosso país. Quando, há vinte anos, foi criada a Rifondazione Comunista, o clima ideológico era bem diferente daquele de hoje. Há vinte anos, em Washington, os ideólogos mais enfáticos proclamavam que a história estava acabada: em todo caso o capitalismo havia triunfado e os comunistas haviam cometido o erro de ficarem do lado mau, e mesmo criminoso, da história. Sabemos hoje que estas certezas e suas mitologias haviam penetrado mesmo no grupo dirigente da Rifondazione Comunista. Assiste-se assim ao espectáculo grotesco no qual um líder de primeiro plano [1] aplicou todo o seu talento retórico para demonstrar que os comunistas haviam errado sempre, sempre provocaram catástrofes tanto na Rússia como na Itália; e continuavam a errar tanto na China como no Vietname e, em última análise, mesmo em Cuba. Compreende-se bem o entusiasmo da imprensa burguesa para com este profeta, para esta prenda vinda do Céu. Mas todos nós conhecemos o resultado final.

Foi um desastre: pela primeira vez na história da nossa república os comunistas estão sem representação no parlamento. Pior. Privar as classes laboriosas da sua história significava privá-las também da sua capacidade para orientar-se no presente. As classes laboriosas penam hoje para organizar uma resistência eficaz num momento onde a República fundada sobre o trabalho [2] se transforma em república fundada sobre o despedimento arbitrário, sobre o privilégio da riqueza, sobre a corrupção, sobre a venalidade dos cargos públicos. E, infelizmente, até aqui foi quase inexistente a resistência oposta ao processo pelo qual a República que repudia a guerra [3] se transforma em república que participa nas mais infames guerras coloniais. É com este desastre atrás de nós que nós nos empenhamos hoje no relançamento do projecto comunista.

Disto decorre uma necessidade urgente. E não se trata de uma necessidade experimentada só pelos comunistas. Vemos o que acontece no país que, há pouco mais de vinte anos, vira a proclamação do fim da história. As ruas estão cheias de manifestantes que gritam a sua indignação contra a Wall Street. Os cartazes não se limitam a denunciar as consequências da crise, ou seja, o desemprego, a precariedade, a fome, a polarização crescente de riqueza e pobreza. Estes cartazes vão mais além: eles denunciam o peso decisivo da riqueza na vida política estado-unidense e desmascaram de facto o mito da democracia americana. O que dita a lei na república norte-americana é na realidade a grande finança, é a Wall Street; eis o que gritam os manifestantes. E certos cartazes vão mais além e bradam a cólera não só contra a Wall Street mas também contra a War Street. Isto quer dizer que o quarteirão da alta finança é identificado como sendo ao mesmo tempo o quarteirão da guerra e do desencadeamento da guerra. Emerge assim, ou começa a emergir, a consciência da relação entre capitalismo e imperialismo.

Sim, o capitalismo traz ao mesmo tempo crises económicas devastadoras e guerra infames. Mais uma vez as massas populares e os comunistas encontram-se diante do dever de enfrentar a crise do capitalismo e sua política de guerra. Por razões de tempo não me deterei senão sobre este segundo ponto. O fim da intervenção da NATO na Líbia não é o fim da guerra no Médio Oriente. As guerras contra a Síria e o Irão já estão em preparativos. Estas guerras, mesmo, já começaram. O poder de fogo multimediático com a qual o Ocidente tenta isolar, criminalizar, estrangular e desestabilizar estes dois países está prestes a transformar-se num poder de fogo verdadeiro, com base em mísseis e bombas. E nós comunistas devemos desde já fazer ouvir a nossa voz. Se esperássemos o desencadeamento das hostilidades não estaríamos à altura nem do movimento comunista nem do movimento antimilitarista, e não seríamos os herdeiros de Lenine e de Liebknecht. Devemos desde o presente organizar manifestações contra a guerra e contra os preparativos de guerra; desde o presente devemos clarificar o facto de que a posição em relação à guerra é um critério essencial para definir a discriminação entre aliados potenciais e adversários irredutíveis.

No que se refere à China, Washington, sim, transfere para a Ásia o grosso do seu dispositivo militar, mas por enquanto não agita de modo explícito senão a ameaça da guerra comercial. Mas, como é notório, sabe-se como as guerras comerciais começam mas não se sabe como acabam. Fariam bem em reflectir sobre este ponto aqueles que, mesmo na esquerda, se alinham na campanha anti chinesa: eles viram assim as costas à luta pela paz.

Trata-se de uma atitude tanto mais desconcertante pelo facto de a China ter sido protagonista de uma das maiores revoluções da história universal. Evidentemente, convém manter em mente os problemas, os desafios, as contradições mesmo graves que caracterizam o grande país asiático. Mas clarifiquemos primeiro o quadro histórico. No princípio do século XX a China era uma parte integrante deste mundo colonial que pôde romper suas cadeias graças à gigantesca vaga da revolução anticolonialista desencadeada em Outubro de 1917. Vemos como a história se desenvolveu a seguir. Na Itália, na Alemanha, no Japão, o fascismo e o nazismo foram a tentativa de revitalizar o neocolonialismo. Em particular, a guerra desencadeada pelo imperialismo hitleriano e pelo imperialismo japonês respectivamente contra a União Soviética e contra a China foram as maiores guerras coloniais da história. E portanto Stalingrado na União Soviética e a Longa Marcha e a guerra de resistência anti japonesa na China foram duas grandiosas lutas de classe, aquelas que impediram o imperialismo mais bárbaro de realizar uma divisão do trabalho fundamentado na redução de grandes povos a uma massa de escravos ou semi-escravos ao serviço da suposta raça dos senhores.

Mas o que é que se passa hoje? Como já disse, os EUA estão em vias de transferir o grosso do seu dispositivo militar para a Ásia. Leio em telegramas de ontem (28/Outubro/2011) da agência Reuters que uma das acusações aos dirigentes de Pequim é a de promover ou querer impor a transferência de tecnologia do Ocidente para a China. Os EUA teriam desejado manter o monopólio da tecnologia para poderem continuar a exercer uma dominação neocolonial; a luta pela independência manifesta-se também no plano económico. Portanto, revolucionária não é só a longa luta pela qual o povo chinês pôs fim a um século de humilhações e fundou a república popular; nem apenas a edificação económica e social pela qual o Partido Comunista Chinês libertou da fome centenas de milhões de homens e mulheres; mesmo a luta para romper o monopólio imperialista da tecnologia é uma luta revolucionária. Marx nos ensinou. Sim, a luta para modificar a divisão internacional do trabalho imposta pelo capitalismo e pelo imperialismo é em si mesma uma luta de classe. Do ponto de vista de Marx, a luta para ultrapassar no quadro da família a divisão patriarcal do trabalho já é uma luta de emancipação; seria bem estranho que não fosse uma luta de emancipação a luta para por fim ao nível internacional à divisão do trabalho imposta pelo capitalismo e pelo imperialismo, a luta para liquidar definitivamente este monopólio ocidental da tecnologia que não é um dado natural mas o resultado de séculos de dominação e de opressão!

Concluo. Vemos nos nossos dias o país-guia do capitalismo mergulhado numa profunda crise económica e cada vez mais desacreditado ao nível internacional. Ao mesmo tempo, ele continua a agarrar-se à pretensão de ser o povo eleito por Deus e a aumentar febrilmente seu aparelho de guerra já monstruoso, assim como a estender sua rede de bases militares por todos os cantos do mundo. Tudo isso não promete nada de bom. É a concomitância de perspectivas prometedoras e de ameaças terríveis que torna urgente a construção e o reforço dos partidos comunistas. Espero vivamente que o partido que hoje construímos venha a estar à altura dos seus deveres.

Rimini, 29/Outubro/2011

(1) Fausto Bertinotti, durante muito tempo secretário-geral do Partito della Rifondazione Comunista (NdT)
(2) Artigo 1 da Constituição italiana: "A Itália é uma república fundamentada no trabalho" 
(3) Artigo 11 da Constituição italiana: "A Itália repudia a guerra como instrumento de ofensa à liberdade dos outros povos e como meio de resolução das controvérsias internacionais". 


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